“Quero viver uma vida cheia de paisagens” – direta, mas com margem para interpretações, esta é a frase (e também refrão, quase mantra) que abre o disco de Vitor Milagres. Integrante da ROSABEGE, o músico seguiu os passos dos companheiros de banda dadá Joãozinho e tttigo, e lançou seu álbum solo de estreia, Vontade de Beleza (2024). Com participações de nomes como JOCA, Ana Frango Elétrico e do próprio dadá, Vitor Milagres cria “uma banda para cada faixa” e aposta no maximalismo para imaginar novas paisagens, sejam reais ou virtuais – além de, obviamente, sonoras.
Boi, criança, sacola de dinheiro, anjos e demônios – e suas sugestões –, o artista como um sol metafórico, envolto de natureza. Junto à faixa de abertura “Um Barato”, a capa de Vontade de Beleza (pinturas de Simba e 3D de Vitor Milagres) é uma das principais chaves para decodificar o trabalho. Durante os 33 minutos do disco, Vitor é embalado por timbres eletrônicos e pega carona com a música brasileira e o pop psicodélico para refletir sobre mercado de trabalho, fama, relações (de amizade ou românticas, como quiser), enquanto reorganiza sua forma de navegar no mundo, anteriormente pautada pela sua criação em igreja evangélica. “Sinto que foi um último aperto de mão meu também com toda essa simbologia. Tentei fazer isso de forma questionadora, mas também respeitando a história que eu vivi”, ele pontua.
Vitor Milagres separa seus primeiros contatos com a música em duas categorias: afetiva e profissional. A primeira mistura as memórias de um cavaquinho que Vitor nunca aprendeu a tocar com as vivências da igreja e a influência do pai. “Ele sempre gostou de rock, rock progressivo, foi a primeira porta que se abriu, de gosto. Depois de Cocoricó, né? Cocoricó e a igreja são o pontapé inicial”. E ainda cita o que ele definiu como “super popular”, ou seja, “o que tocava em todos os lugares” (leia-se Skank, Tribalistas e companhia). Já no lado profissional, sem mistério: banda cover de indie rock com os amigos da escola, momento em que começou a compor e caminhar com os outros novos músicos de Niterói.
“Eu cresci num ambiente muito de classe média em Niterói, então muitas pessoas brancas, com muitas referências brancas que olhavam muito para o Rio de Janeiro, principalmente a Zona Sul enquanto esse lugar do glamour. Quando você se cansa de tentar fazer parte, foi o grande momento para pensar assim: tenho que encontrar outra beleza para a minha vida, outro caminho para seguir. Outra vontade mesmo”.


Vontade de Beleza é um disco relativamente curto e, em um movimento ousado do artista, confia que as cordas, teclados eletrônicos, baterias e samples distorcidos vão dar conta de complementar o que não foi dito. Se na composição Vitor Milagres é majoritariamente objetivo e sucinto, como demonstram as afirmações em “Comunicar” e “Presença”, por exemplo, na produção é o total oposto, numa média de 60 pistas gravadas por música.
Durante a entrevista, Vitor Milagres fala de uma disciplina adquirida por conta do trabalho corporativo, necessária para utilizar seu tempo para a música da maneira mais proveitosa possível. Essa disciplina fica nítida nos métodos que descreve para fazer um som: compor a canção, geralmente no teclado e no computador, escolhendo um limite de três plug-ins e três sintetizadores no Ableton Live. A partir daí, estrutura outros elementos e direciona as participações: “Eu pensava no estilo que cada pessoa poderia trazer […] Recebi muitas coisas e aí começou um trabalho de colagem, um trabalho intenso de pós-produzir e colar esse som. Mó trabalheira mesmo”.
Nesse tanto de trabalho, ele destaca a parceria com tttigo: “Ele eleva em 10 vezes o nível de qualidade do som, de como vai chegar assim nas pessoas, de onde colocar o som nessa disposição espacial. Ele é muito sagaz na produção, principalmente de batida, de ritmo e de ambientação de cada momento ligado ao ritmo”.

“É um som muito espacial, no sentido de que consigo ouvir os ambientes e o ritmo em que as coisas estão acontecendo, imaginar os lugares que a música cria. Gosto da perspectiva da paisagem sonora, no design de som, parece que ocupa o espaço em volta. E vejo a música e o mundo dessa forma”
Vontade de Beleza é um disco assumidamente brasileiro, e Vitor fala com orgulho das influências da composição de Milton Nascimento e Gilberto Gil, e da interpretação de Luedji Luna. No entanto, ele também sabe que gênero musical é uma fronteira criada só pela mente. Há muitos biomas e paisagens nessa Pangeia que é o mundo do artista. Em “Firmamento”, há um toque-Kanye West na maneira de lidar com o sample; e melodias em “Fama”, especialmente no verso de JOCA, que remontam a Tyler, The Creator; DAMN. como referência de mixagem… e Arca.
“O trabalho da Arca é impressionante. Eu queria também que a parte de noisy do disco tivesse esse acabamento. KiCk i [álbum de Arca, lançado em 2020] não tem muita sobra de grave, ele é bem controlado e o agudo é bem médio, abelhudo. Apesar de incomodar um pouco às vezes, queria que isso fizesse parte da experiência de ouvir o disco. E tem a questão das bandas instrumentais, que eu sou completamente viciado na galera do Tasty Morsels, escuto tudo que eles lançam, para trabalhar principalmente. Tem que ter muita paciência pra fazer música instrumental calma, para você não colocar um som antes e tirar essa qualidade [de calmaria]”.
Durante a quase uma hora de conversa, Vitor com frequência declara sua paixão por música instrumental – e fala da paciência necessária para esse tipo de escuta; quase como quem deixa escapar uma confissão, diz que a sonoridade de Vontade de Beleza é “solar”. “É um som muito espacial, no sentido de que eu consigo ouvir os ambientes, consigo ver o ritmo em que as coisas estão acontecendo, imaginar os os lugares que a música cria”, explica. Vitor, que também é artista virtual criando mundos em 3D, complementa: “Gosto da perspectiva da paisagem sonora, no design de som, parece que ocupa o espaço em volta. E eu vejo a música, o mundo dessa forma. Quando vou fazer música eu tento pensar nisso”.
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