Você talvez não saiba, mas o nome Sífero surgiu de uma conversa trivial entre lanches e risadas. A banda A Virgo falava sobre o mito de Sísifo, o homem condenado a empurrar uma pedra morro acima eternamente, quando o baixista Patrick Bruxel, distraído e de boca cheia, confundiu o nome e disparou: “Esse Sífero aí é um babaca”. A anedota virou batismo. Mas não apenas isso: se transformou em metáfora viva de um disco inteiro. “No início, a gente até tinha uma certa discussão sobre colocar Sísifo ou Sífero? Mas pensamos: vamos botar como surgiu ali na hora. Como a gente quer, já era”, contextualiza o fundador da banda, vocalista e guitarrista, Rafael Decari. Porque, ao fim das contas, Dois Verões ou a Viagem de Sífero, segundo álbum da banda gaúcha A Virgo, lançado em maio desse ano, é sobre isso: a repetição que pesa e também impulsiona, o esforço que cansa e também constrói. “Uma coisa dá sentido à outra. E a gente tem que ficar feliz fazendo até o que não gosta”, pontua Rafael.
Composto por 10 faixas e gravado com apoio da Lei Paulo Gustavo e do coletivo Outro Mundo Acontece, o álbum é o retrato de um processo criativo que nasceu coletivo, amadureceu entre os encontros e firmou sua estética na convivência. “A gente se juntou com esse propósito, e todo mundo foi botando um pouquinho de cada vez”, relembra Rafael, responsável por mixar e masterizar o disco. “Acho que esse álbum só existe por causa disso, porque somos quatro pessoas diferentes que se juntaram para fazer isso especificamente”.
Dois Verões ou a Viagem de Sífero começou a tomar forma em 2024, quando a banda se inscreveu num edital de fomento cultural e precisou, desde então, definir uma ideia, uma direção. “Tínhamos que pensar num projeto. Então pensamos num álbum. A partir disso, começamos a flertar com as ideias”, conta Rafael. O projeto aprovado se transformou, então, num retiro musical no litoral gaúcho. “Fomos pra casa dos pais do Victor (guitarrista da banda), fizemos a primeira incubação. Ouvimos demos, tocamos violão. Ele nasceu dali”, lembra. O título viria depois, mas é ali que nasce o que você ouve no disco: um som que passeia entre o rock alternativo, o indie Lo-Fi e o neo soul psicodélico.
Se o primeiro álbum da banda, Sofá 7 (2020), nasceu do quarto de Rafael, gravado e produzido de forma solitária, este novo trabalho caminha por outra paisagem. Mais do que coletivamente composto, ele foi coletivamente vivido. A formação atual da banda, com Rafa, Guilherme “Nino” Moraes (bateria), Patrick Bruxel (baixo) e Victor “Vitinho” Tavares (guitarra), se consolidou no mesmo tempo em que o disco foi sendo criado. “A gente foi se conhecendo junto com o álbum”, diz Rafael. “Hoje eu entendo muito melhor a visão de cada um. No começo, eu queria interferir mais. Hoje, deixo as coisas rolarem”.

“É um disco que fala da circularidade da vida – da repetição que ganha sentido quando a gente encontra prazer até no cansaço”
Com a banda na nova configuração de equipe, o nível de organização exigido trouxe mais possibilidades do que confusão. “Foi um baita incentivo. Não só financeiro, mas criativo também. A gente já tinha que partir de uma ideia, de uma narrativa. Isso ajudou muito a dar foco”, reflete o baterista Guilherme “Nino” Moraes. O cronograma apertado também foi fator determinante. “Eu que mixei e masterizei. Por mim, nunca estaria pronto. Só ficou porque tinha prazo. E hoje eu vejo isso como algo bom”, completa Rafael. Esse espírito de soma extrapola os quatro membros e chega à produção do coletivo Outro Mundo Acontece. “Eles são nossos amigos, fazem a produção, ajudam com edital, com estrutura. E ainda cantam nos coros do disco, tocam trompete. A gente vive uma comunidade em prol de uma mesma coisa: viabilizar o fazer artístico”, afirma o vocalista.
Se o disco é coletivo em forma, ele também é simbólico em conteúdo. O título faz referência a dois dias passados pela banda no litoral gaúcho, um nublado, outro ensolarado. Essa dualidade, entre leveza e densidade, entre fluxo e bloqueio, atravessa todo o trabalho. “É um disco que fala da circularidade da vida, da repetição que ganha sentido quando a gente encontra prazer até no cansaço. Por isso a figura do Sísifo é tão forte”, comenta Nino. Mas, ao invés do mito grego, a banda prefere o “Sífero”, versão abrasileirada e irônica vinda de uma piada interna da banda.
Essa tensão entre o empurrar e o desabar está bem representada na faixa-título, “A Viagem de Sífero”. “Acho que tem esse sentimento do Sífero, de estar sempre correndo. A gente tá sempre sobrecarregado, até o ponto de dizer ‘se essa merda não for melhorar, a tal pedra vai me esmagar’. Pode ser pessoal, mental ou até revolucionário”, aponta Rafael. Já Nino descreve a faixa como uma espécie de “correria que dá vontade de rir”. “Talvez risada de desespero, sabe? Parece que tudo é uma loucura, mas tem uma fantasia por trás. É leve e pesada ao mesmo tempo”, observa o baterista. Outra que chama atenção é a quarta faixa do registro, “Não Conte Comigo”, provavelmente a mais direta do álbum. Escrita pelo guitarrista Victor “Vitinho” Tavares, a música parte de um ponto de ruptura emocional. “É sobre um desgaste emocional muito grande, de uma relação que não tava saudável. Todo mundo já viveu isso, de não estar pronto pra abrir mão mesmo sabendo que não tá bom”. A gravação foi exigente. “Teve um momento em que ele não conseguia se soltar pra fazer a voz mais gritada. A gente teve que insistir, apoiar, até ele conseguir largar. Foi catártico”, relembra o vocalista da banda de Novo Hamburgo (RS).
“Acho que tem esse sentimento do ‘Sífero’ [Sísifo], de estar sempre correndo. A gente tá sempre sobrecarregado, até o ponto de dizer ‘se essa merda não for melhorar, a tal pedra vai me esmagar’. Pode ser pessoal, mental ou até revolucionário”
Você pode até identificar referências bem sacadas no álbum, como o groove lisérgico de Thundercat, o peso sofisticado da Unknown Mortal Orchestra e o melodrama existencial de bandas nacionais recentes como Catavento. Mas tudo se articula com uma liberdade sonora que a banda entende como a boa e velha psicodelia – não aquela dos anos 1960, mas uma forma de traduzir o que não cabe nas palavras. “Para mim, a psicodelia mais forte tá no balanço, no choque, em músicas como A Viagem de Sífero”, elabora Rafa. “Mesmo que outras músicas possam ser vistas como mais psicodélicas, pelos efeitos e sintetizadores, ali tá a psicodelia que eu queria no disco, algo sensorial”. O baterista Guilherme “Nino” vai além: “A psicodelia, para mim, é quando o som expressa algo da letra de forma figurativa. Tipo uma melancolia que explode, como um choro. É o que acontece em ‘Não Conte Comigo’. A música segura tudo até o momento do grito”.
Seja no som ou na concepção, o disco dá conta, e nele se ouve um amadurecimento. Para Nino, a mudança foi musical: “Vim do metal e do punk, onde tudo é forte, rápido. Aqui, tive que reaprender a tocar baixinho, com dinâmica. Isso me levou a escutar muito beat, rap, música eletrônica. Acho que estou nesse caminho agora”, comenta o baterista. Já Rafael Decarli se viu mais criativo e autoconfiante em sua arte através do processo de transformar a Virgo de banda de um homem só em um grupo. “Antes eu gravava tudo sozinho. Era mais rápido, mais prático. Mas tinha um quê de desconfiança também. Agora entendi que dá para confiar. Que os outros podem fazer até melhor do que a gente imagina”.
E talvez seja essa a maior força do disco, a de mostrar que, mesmo empurrando a pedra todos os dias, é possível fazer isso com alguém ao lado. Dois Verões ou a Viagem de Sífero é um disco que corre, mas respira. Que repete, mas reinventa. Que brinca com o mito e com a amizade. “Me sinto muito orgulhoso, sabe? Por mim, por meus amigos, pela minha comunidade”, define Rafael. Ao escutar o disco, percebe-se que a pedra também pode ser uma pista, um palco ou uma praia com tempo fechado. Depende do dia. Depende do verão. “É um álbum sobre perspectivas opostas que se completam. Um ciclo que parece repetitivo, mas que dá sentido a si mesmo”, conclui o baterista Guilherme “Nino”.
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