Acid Jazz: Quando o Standard vira urbano

Surgindo nos anos 80, artistas como Jamiroquai, de Jay Kay (foto), deram roupagem moderna ao tradicional e classudo estilo

6,116 total views, 2 views today

Acidez. Naquela velha escala de pH, conhecida de nós dos tempos de colégio, víamos que quanto quanto mais próxima de 1 estivesse uma substância, mais ácida ela seria, e quanto mais próxima de 14, menos ácida, ou seja, mais básica. Agora, por que essa aulinha de química? Bom, ali no meio da escala, tínhamos o neutro, caracterizado pela água. Em música, temos aqueles estilos que são tidos como os mais íntegros, sóbrios, ou, como se fala, Standard. Um deles é com certeza o Jazz, estilo que, se antigamente era tido como musicalidade de minoria, se tornou um dos mais elegantes e tenros de todos com o passar dos tempos. Como sabemos, a música é dinâmica e vários elementos vão se somando a fim de gerar novas experimentações. A partir desse “neutro” Jazz, alguns artistas resolveram adicionar um pouco de acidez a fim de manter a sua base elegante, mas dando toques mais “descolados”, assim dizendo, dando forma ao que ganharia o nome de Acid Jazz.

Originário dos Estados Unidos, mais precisamente de New Orelans, no início do século XIX, era renegado por boa parte da sociedade, principalmente a elitizada, pois era enxergado como música popularesca e das minorias. Apenas por volta dos anos 20 e 30, o Jazz ganhava seu espaço de direito e sendo valorizado, atingindo sua era de ouro marcada por grandes nomes do estilo, como Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e Duke Ellington. Desse modo, foi espalhado por todo o resto do globo, se tornando um estilo presente nas discografias de ouvintes e de novos artistas, os quais estes o teriam como influências para seus trabalhos.

Mais precisamente na Inglaterra do meio para o final dos anos 80, novos artistas mostravam a força que o Jazz ainda tinha mesmo após suas muitas décadas de existência. Em certo revival, o estilo aparecia com uma roupagem mais urbana e moderna condizente com o seu atual tempo de criação e com os moldes que a civilização. Hip Hop, Funk, Soul, R&B e até mesmo Reggae eram novos elementos que surgiam para a criação dessa nova musicalidade que encontramos no Acid Jazz. Com uma base fundamentada em seu estilo-mãe, observamos a força e foco no groove com a predominância da bateria e do baixo, que oscila entre dedilhados e técnicas de slap e pluck, principalmente nas bandas que se utilizam de influências Funk e Disco. Em pouco tempo, tal sonoridade ganhava força e espaço, primeiramente no cenário inglês e em pouco tempo no cenário global.

Curiosamente, o estilo na verdade ganhou tal nome em virtude de seu principal, e pioneiro, selo, o Acid Jazz Records. Criado na capital inglesa no final dos anos 80, mais precisamente em 1987, pelos DJs Gilles Peterson e Eddie Piller, o nome “acid jazz” acabou surgindo a partir de um trocadilho com o subgênero Acid House, que também era vívido na época e tomava conta dos clubes de música eletrônica de toda a Europa, pela similaridade da adição de elementos psicodélicos aqui com o peso do Trance e no Acid Jazz com o groove da Disco e Funk. Em 1989, Peterson deixa a Acid Jazz Records e, no ano seguinte, lança seu próprio selo, o Talkin’ Loud, que se tornaria também uma potência e celeiro de artistas do estilo.

Tais selos foram responsáveis por lançar ao público os principais nomes do Acid Jazz, como Gillano, com seu toque de Reggae e Chillout, The James Taylor Quartet (quem também pode ser encontrado como New Jersey Kings, seu nome alternativo usado para o lançamento de três álbuns), com uma cara mais Funk, The Brand New Heavis, com doses de Soul, Incognito, e seu Jazz com R&B, e – é claro – o mais conhecido e responsável por tornar o estilo comercial, levando o Acid Jazz ao topo de paradas Billboard e a MTV, Jamiroquai.

Do meio dos anos 90 até o início dos anos 2000, a tecnologia na música ganhava ainda mais força com uso de samples e aparelhagens como os CDJs. Nisso, alguns artistas, como Xploding Plastik e Free the Robots, trouxeram o tradicional Jazz, já modernizado pelo “ácido”, ainda mais atualizado com músicas executadas a partir das pickups e compostas por uso de mashups. Entretanto, bandas como The Sound Stylistics ainda se apresentam na forma tradicional.

Mostrando que até os estilos mais clássicos conseguem se adequar à modernidade, mas sem perder sua essência e elegância, os artistas do Acid Jazz conseguiram trazer ao público o melhor dos dois mundos, o do tradicional e o do urbano, de maneira equilibrada entre os dois mundos. O resultado são canções que conseguem agradar tanto aos fãs do Jazz raiz, quanto aos fãs que procuram um som contemporâneo.

Discografia Básica:
JamiroquaiEmergency on Planet Earth
IncognitoJazz Funk
GallianoIn Pursuit of the 13th Note
CorduroyHigh Havoc
The James Taylor QuartetRoom at the Top
The Brand New HeavisThe Brand New Heavis (1990)

Discografia Atual:
Xploding PlastikAmateur Girlfriends Go Proskirt Agents
Free the RobotsThe Prototype
The Sound StylisticsPlay Deep Funk

6,117 total views, 3 views today

Autor:

Marketeiro, baixista, e sempre ouvindo música. Precisa comer toneladas de arroz com feijão para chegar a ser um Thunderbird (mas faz o que pode).