Acrobatas em suspensão

Nos saltos entre gêneros musicais, a banda Luísa e os Alquimistas se movimenta com destreza e busca uma sonoridade original e popular.

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Fotos: Luana Tayze

Nascer com a família da mãe em Natal e a do pai em São Paulo foi a primeira dica de que Luísa nunca seria de um lugar só: as viagens para visitar os parentes eram comuns e foram pouco a pouco gerando uma fome de mundo na jovem potiguar. Luísa Guedes Nascimento, que já foi Luísa Guedes e há uns dois anos é Luísa Nascim, da banda Luísa e os Alquimistas soltou em setembro seu terceiro álbum, Jaguatirica Print, viabilizado pelo selo Natura Musical e Rizomarte.

O disco é uma produção Pop, Brega, Funk, Reggae e muito brasileira. Ao mesmo tempo, é um puxão de orelha: trabalho confiante, com uma ficha técnica cheia de nomes que você precisa conhecer. Gravado de maio de 2018 a junho de 2019, o LP é certamente o mais maduro dos 3 lançamentos do grupo e traduz o argumento da banda, que vem se desenvolvendo há 4 anos.

“A gente fez muita coisa legal no nordeste, com os meninos [os Alquimistas], a gente construiu a história da banda, a base, sonoridade, pesquisa, nossa fanbase: a gente fez tudo lá e foi fundamental estar perto de cidades como João Pessoa e Recife”, Luísa comenta. Com os alicerces bem estabelecidos a respeito do que a banda busca criar, a vinda para São Paulo é a continuação do mesmo enunciado iniciado no nordeste e o efeito é um álbum recheado de promissores hits.

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Me fala mais sobre Transareaggae. 

O Transareagge é a base do Brega-funk. O Aldair [Playboy] surgiu e foi arrebatador no nordeste, especialmente Paraíba, RN, Pernambuco. Quando ele surgiu, veio com esse nome, inclusive tem umas coletâneas muito loucas de Transareaggae no YouTube que eu ouvi muito. Depois, percebi que ele também criou o batidão romântico, que já é outra vertente e foi quando ele ficou conhecido no Brasil inteiro com aquela música Amor Falso

Foi com a pegada mais romântica que ele realmente ganhou o mercado em escala nacional, começou a tocar aqui em São Paulo. Em todo lugar que eu ia, estava tocando. O ritmo como ele estava fazendo continuou sendo feito por outras pessoas, como Mc Troia, Mc Loma, mas já com esse nome Brega-funk. Mas, eu amo esse nome: Transareaggae, tem tudo a ver (risos).

Eu sou apaixonada por essas músicas de batidão que rolam no nordeste. Já vinha querendo me aprofundar nelas faz tempo, tanto que a gente já vinha pincelando, fazia uns covers no show, a gente cantava Mc Bruninho, fazia essa mistura. Eu sinto que nesse disco a gente conseguiu trazer um pouco desse recorte, mas do nosso jeito, com a nossa repaginada.

Pensando em Cobra Coral (2016), Vekanandra (2017) e Jaguatirica Print: define para mim cada um desses álbuns com um sentimento que você colocou neles.

Cobra Coral foi um start assim, foi tipo ‘galera, cheguei’. Em uma palavra só… Eu tava experimentando, experimentar. Todo um mundo novo se abrindo para mim, foi um experimento de linguagem. Vekanandra foi um grito: a diva maluca, a diva deprê, a diva do terceiro mundo. E Jaguatirica Print é o desabrochar depois de tudo isso. É uma coisa mais solar.

Conta mais sobre Vekanandra. 

Ela surgiu quando eu tava nesse momento de muita dúvida, sobre se eu queria mesmo entrar nesse meio da indústria musical, entrar mesmo assim. Cobra Coral chegou de um jeito que eu nem imaginava, foi um disco feito na casa do Gabriel [Souto] (um dos Alquimistas, produziu o primeiro disco e é um dos produtores de Jaguatirica Print também). A gente tinha juntado a banda antes para fazer cover de Reggae, aí eu comecei a compor, a gente se juntou para fazer uma música, fazer outra e quando viu tinha um disco.

Fazer essas coisas em uma cidade pequena também tem várias questões do meio alternativo, aquela coisa, né: a coroa e a guilhotina. Sei lá, fofoca, mentira – essas coisas que a gente que se expõe muito vive mesmo. Eu passei por tudo isso e esse disco [Vekanandra] é uma grande egotrip porque eu tava na minha trip, na minha viagem. Ele foi feito nesse contexto e é um projeto que foi feito com financiamento coletivo, então a gente tinha que ficar insistindo para as pessoas contribuírem… Foi toda uma saga, mas eu fico muito feliz com esse trabalho, gosto muito.

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A forma de consumo de música tem se transformado muito e as expectativas sobre quantidade e qualidade das produções musicais, clipes e também sobre o contato do artista com o público são gigantescas. Luísa se desdobra bem entre as funções acumuladas, muito provavelmente pela carreira de 10 anos que seguiu no circo antes de entrar para este mercado. Ela me conta que no circo não existe a ideia de uma única área de atuação: você monta cenários, figurinos, maquiagens, além do exercício físico em si, e por isso ela enxerga esse espaço como sua grande escola artística.

A paixão pelo circo moveu Luísa por muito tempo e boa parte da nossa conversa foi sobre como essa vivência a transformou e potencializou sua essência de muitas formas, desde sua percepção de identidade até seu desenvolvimento como artista. Mais tarde, na festa de lançamento do álbum, ela disse que não pratica o esporte há um ano, tomada pelas demandas da produção do novo trabalho. Associado a isso, a adaptação à cidade tem sido dura e ela sente uma dificuldade física com as coisas básicas, como respirar fundo ou não se abalar com as mudanças bruscas de tempo de São Paulo. 

Com a banda no palco, por outro lado, não tem como adivinhar quão sobrecarregada a cantora está. Luísa é uma frontwoman original, dança o show inteiro e gera uma reação incrível no público, que já veio com os refrãos na ponta da língua para o show de lançamento do álbum no MIS-SP. Projeções com cores vibrantes, figurino autêntico e uma presença forte dão o tom. Os Alquimistas são envolvidíssimos com a apresentação, rejeitam a ideia do grupo de homens tocando quase como um papel de parede para não “roubar a atenção” – no fim, a festa é muito coletiva e, por isso, tão intensa. É exatamente o tipo de show que te lembra por que é tão bom ir em shows: não tem nada mais lindo que ver pessoas fazendo o que elas amam.

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Quero me sentir orgulhosa do que eu estou fazendo junto com as pessoas que estão comigo. – Luísa Nascim

Quantas línguas você fala? Queria saber mais desse processo de composição, você escreve em português e vai traduzindo ou já escreve pensando na sonoridade misturando as línguas? 

Bicha, falar mesmo, bem: espanhol, castelhano e inglês – com francês eu flerto, não falo. Já fui para a França com o circo, também. Quando eu fui, fiquei mais familiarizada com algumas coisas. Foram línguas que eu aprendi mesmo na vivência. Algumas coisas eu traduzo porque nessas de jogar as palavras aleatoriamente eu cometo muitos erros gramaticais, ortográficos gravíssimos. Todos os discos tem uns erros que quem fala francês fica assim “Mulher???”, licença poética (risos).

Mas muitas músicas vêm bem misturadas mesmo porque como eu gosto de rimar, então se você tem um leque de línguas, você tem mais possibilidades de rima. Acho que uma figura como Manu Chao me inspirou muito porque ele é uma referência para mim nesse lugar de misturar tudo, assim. Trago essa pitada do francês junto e dou essa miscelânea, como a música “Tous Les Jours” que tem os quatro idiomas que eu gosto de compor em uma música só, você nem sente quando vai de uma para outra e quando vê entendeu o que está rolando ali.

Qual é seu objetivo com o álbum Jaguatirica Print?

Eu acho que esse foi o disco que eu tive mais pretensões mesmo. Já tava aqui em São Paulo, entende, já vinha flertando com a cultura Pop, do popular, não só o Pop gringo que eu também gosto. Então, acho que eu vim com essa vontade de ganhar meu espaço com esse disco. 

Passou a loucura da diva?

Foi, sabe aquele foco que você fala ‘eu quero fazer isso mesmo, eu vou me jogar nesse meio, sim’? Acho que eu tenho potencial para isso e quero me sentir orgulhosa do que eu tô fazendo junto com as pessoas que tão comigo. Tem muita gente que vem pra São Paulo de fora, chega aqui e trabalha sempre com a mesma equipe, eu falei: ‘não, acho que para conseguir fazer o que eu quero fazer, eu vou ter que trazer toda a minha crew mesmo’. Então é um trabalho feito a muitas mãos, porque essa coisa de ganhar meu espaço que eu falo, não é um espaço que é só meu, é de mostrar o quanto tem pessoas fodas fazendo clipe, fazendo direção de arte, fazendo masterização, fazendo mix que você nunca ouviu falar. Eu vim com o meu bonde, queria chegar com o meu bonde e fazer o rolê. E não é fácil, mas eu acho que dá toda essa identidade forte para o trabalho.

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Um olhar sobre identidade, despertencimento e estética

“Mas é isso: meu pai preto, minha mãe branca, eu sou mestiça. Preta da pele clara, ninguém sabe muito bem o que é. Eu cresci do lado da minha família em que todo mundo era branco, então eu não tinha essa representatividade na família, não encontrei essa identidade. É aquela coisa da autoestima de quem está em um lugar sem se reconhecer, sem saber valorizar o seu cabelo.

Tenho dread vai fazer 10 anos. Foi bem nesse momento que eu comecei a andar com a galera do circo e quis trançar meu cabelo. Alisei meu cabelo na infância inteira, dos 9 aos 17 anos. Aí, nesse período, eu falei “ah, não”, sei lá, vi uma propaganda na TV que tinha uma mulher de dread assim, falei “uau, quero!”. Acho que muitas coisas que eu trago de cigana assim – porque o circo tem essa alma cigana, né? Isso faz parte da nossa estética também de alguma forma, essa falta de pertencimento, essa coisa de estar no mundo. Por mais que eu tenha essa coisa do nordeste muito forte, depois que eu vim para São Paulo, acho que esse disco também veio com muita saudade.”

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Tem algo popular muito forte no que a gente faz. São vários gêneros musicais que a gente mistura nesse caldeirão todo. – Luísa Nascim

Eu senti que esse disco traz um R&B também. 

Traz. Isso foi bem proposital porque eu gosto muito dessa cena Pop dos anos 2000. Eu ouço direto Destiny’s Child, Aaliyah, essas figuras. Está voltando com tudo, toda a estética, tudo está super em alta. Nas baladas, você vai na Batekoo e rola bastante esse tipo de som, música Black Pop anos 2000.

E o que você estava ouvindo na época de compor Jaguatirica Print

Todas essas fuleragem, todas. Batidão mesmo, Dadá Boladão, Mc Loma, aí também umas coisas de arrocha, Banda Loba, essas coletâneas de música Brega. Essa galera e essa pegada mais R&B, muito Rap, muito Hip Hop.

Qual foi a faixa do álbum novo que mais demandou da equipe?

“Jaguatirica Print”. Foi uma loucura querer colocar 6 mulheres em uma música só, sabia que ia ser difícil. O beat já era super elaborado, cheio de informação, então a gente fez o beat, mandou para as meninas, elas começaram a mandar as partes delas, a gente fez esse encaixe, esse quebra-cabeça. Deu muito trabalho, foi a última música a ficar pronta, mas valeu muito a pena.

Qual foi o primeiro disco de Reggae que você ouviu?

Cara, eu não sei dizer o primeiro que eu ouvi. O que mais me marcou eu acho que foi Bob Marley, estou querendo lembrar qual álbum… Mas, tenho a sensação de que todos os álbuns dele chegaram para mim na mesma época, de sopetão e eu fui engolindo um atrás do outro, sabe? Eu acho que eu devo ter iniciado por algum desses compilados, uma coletânea, um Greatest hits assim. 

Qual foi o disco que te deu vontade de compor?

Eu acho que o primeiro álbum da Céu. Foi um disco que me arrebatou, inclusive uma das primeiras músicas que eu compus é a faixa Veneno, de Cobra Coral, que é um bregão assim, fiz já meio inspirada por ela de alguma forma, de algumas coisas que ela fazia. Eu acho que ela me deu essa vontade, acho que esse primeiro disco dela, e Manu Chao também, o Clandestino.

3 artistas do norte ou nordeste do Brasil que a gente precisa conhecer.

Olha, tem a Keila, ex-vocalista da Gang do Eletro, que é paraense. Tem a Jéssica Caetano, pernambucana, que está bombando já nos festivais. Quem mais que eu posso falar? Sou suspeita, porque são pessoas que estão no disco e não é à toa. E a Sinta a Liga Crew, que também está no disco, que é uma crew de MCs mulheres que já estão no corre há muito tempo e tem uma história de vida muito forte. 

Ah, eu vou ter que falar da Catarina DeeJah também, que é uma grande referência para mim. Todas estão no disco e não é à toa, são pessoas que eu admiro muito. Só a Keila que não está, mas tem a Luê representando o Pará e eu também sou apaixonada pelo trabalho dela. É, eu diria toda essa galera que está no álbum realmente são pessoas que são meu fechamento, porque eu admiro muito e são referências para mim. Fora elas a Keila, que não está no álbum, mas eu espero em breve fazer um feat com ela.

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