Akira Presidente: pelos sonhos e para calar os demônios

Em “Big Fa7Her”, o rapper carioca reafirma sua sonoridade, incorpora novos elementos e celebra uma trajetória traçada com os pés no chão

Loading

Fotos: @viltumotta / @eon.bill

Não é só pelos sonhos, é para calar os meus demônios”, a primeira frase do disco Big Fa7Her, de Akira Presidente, sintetiza a fase atual do artista. Com uma carreira consolidada e prestigiada, o carioca apresenta seu novo álbum como uma forma de cura e de consagração de aprendizados.

A vivência urbana foi seu guia para o caminho do rap. Além da influência dos amigos mais velhos, o basquete, os filmes e os CDs foram essenciais para Akira se identificar com o movimento hip-hop. “Nos anos 90 e 2000, fora a questão da resistência, o rap tinha um certo quê de malandragem para viver. Era muito associado com o crime, mas ele era muito sobre você viver na cidade e sobre sobreviver na selva e não ser uma presa. É o instinto de sobrevivência de uma maneira ritmada. Eu sentia que precisava de algo mais de tudo que eu já tinha, e o rap me deu esse algo mais. Eu virei MC por ser a forma que encontrei de me expressar.

De lá para cá, ele venceu a 1ª Batalha do Real, que acontece na Lapa, no Rio de Janeiro, e entre discos e mix tapes, lançou 12 trabalhos. Em 2015, com o lançamento do selo Pirâmide Perdida, Akira entrou para o catálogo ao lado de nomes como Djonga, BK’ e Sain e fez parte do movimento que revolucionou o rap nos anos 2010 ao trazer para o protagonismo jovens negros que contavam sobre as suas vivências cotidianas com letras carregadas de raiva, aspiração e sagacidade para viver. “Falo isso para os caras, eu tenho muito orgulho das pessoas que criamos na época da Pirâmide Perdida […]. Não criamos apenas MCss, criamos pessoas para a arte e para o mundo, isso é nosso maior trunfo. Nós éramos o caos e criamos pessoas que queriam ser melhores e queriam outro mundo. Fomos essa trilha sonora, e acho que ainda somos. O que você ouve constrói o que você vai ser. A Pirâmide conseguiu abrir portas e mantê-las abertas.”

Em agosto deste ano, Akira lançou Big Fa7Her, quase uma década após Fa7Her (2017), retomando alguns elementos sonoros característicos, como o boom bap, mas abrindo espaço para a influência do trap. O disco conta com participações de nomes como FBC, VND, LEALL, Yunk Vino, CHF, CESRV, Ainá e Nandi, mesclando versos introspectivos e confessionais a rimas efusivas, que celebram a jornada. Akira examina suas vivências com a satisfação de quem conquistou sem renunciar ao que acredita – e que segue aspirando, com os pés no chão e a cabeça tranquila.

Agora morando em Búzios, Akira conversou com o Monkeybuzz sobre seu novo disco, sua carreira, o momento atual, motivos para ter medo e coragem – e sobre se manter são em meio às loucuras do mundo.

Akira, como o rap te encontrou?

Eu treinava basquete no Fluminense e tinha uns parceiros meus que gostavam de rap. Eles tinham uns 15 anos e eu uns 12. Eles treinavam ouvindo rap e foi uma sonoridade que me pegou. Não entendia nada do que estava sendo dito, mas a timbragem me chamou atenção. Além disso, o próprio basquete e a cultura me cativaram. Quando assisti Boyz n the Hood, tive o contato do visual da cultura e consegui entender as semelhanças. Até então, ver clipe na MTV era uma coisa, mas com o filme foi possível ter uma noção visual e estética da vivência. E eu estudei com um parceiro da Glória, o Gugu, que o pai dele trabalhava na Receita Federal, se não me engano, e ele sempre pegava uns CDs e aparecia com uns gringos. Ele nem ouvia rap, ele gostava de música baiana, o bagulho dele era micareta, então ele me dava os CDs. Foi uma coisa meio que completando a outra, o início no basquete, os filmes dos anos 90 e 2000 e essa maneira de ter acesso à música pré-internet. Como eu não estava no meio e não me relacionava com pessoas do rap, essas foram as maneiras que me inseri na cultura.

Quando foi que você percebeu que gostaria de estar ativamente na cultura também fazendo rap?

Me falaram uma vez que você não ouve rap, ele vira um estilo de vida. Todo gênero musical tem essas peculiaridades, mas quando eu senti e entendi o rap, aquilo me trouxe um despertar e uma nova maneira de ser. Nos anos 90 e 2000, fora a questão da resistência, o rap tinha um certo quê de malandragem para viver. Era muito associado com o crime, mas ele era muito sobre você viver na cidade e sobre sobreviver na selva e não ser uma presa. É o instinto de sobrevivência de uma maneira ritmada. Eu sentia que precisava de algo mais de tudo que já tinha, e o rap me deu esse algo mais. Virei MC por ser a forma que encontrei de me expressar. Tenho algumas dificuldades para me abrir e falar muita coisa que penso, o rap me deu essa abertura de poder falar certas coisas sem eu me criticar ou me culpar tanto. O rap é meu canal para botar para fora aquilo que penso, sinto e uma versão minha mais exposta, uma camada mais frágil que eu não acesso no meu dia a dia. É a minha maneira de falar quem sou e me portar para o mundo.

Agora falando um pouco sobre Big Fa7Her, quase 10 anos o separam de Fa7Her. Quais são as temáticas ou os assuntos que você fala no novo disco, mas que naquela época você ainda não estava pronto para transformar em música?

São 10 anos de diferença e eu sou uma pessoa melhor do que há 10 anos, e isso não tem como desassociar do meu rap. Eu sendo uma pessoa melhor, me sentindo melhor, faço coisas melhores para mim e para as pessoas que amo. E isso, consequentemente, influencia minha escrita e minha caneta. Esses 10 anos foram de renascimento, mais uma descoberta, mais uma fase acessada, uma nova parte desbloqueada do cérebro, da alma e do coração. Mas não é fácil esse processo. Ao longo desses 10 anos foram muitas dúvidas, perdas e coisas que tiram a gente do foco. Hoje, tenho uma energia mais equilibrada do que há 10 anos, mais proativa do que reativa ou instintiva. Esse tempo me deu essa paz, eu tenho estado melhor comigo mesmo e a minha música reflete isso.

“Tenho algumas dificuldades para me abrir e falar muita coisa que penso – o rap me deu essa abertura de falar certas coisas sem me criticar ou me culpar tanto. É meu canal para botar para fora aquilo que penso, sinto. Uma versão minha mais exposta, uma camada mais frágil que não acesso no meu dia a dia”

Ao lançar o disco, você afirmou que entre os objetivos do disco estão: resgatar elementos da sonoridade desse período e agradecer aos fãs. De onde você sentiu essa necessidade de resgate e quais elementos você quis reviver daquela época?

Os meus últimos trampos foram colaborativos e foram mais do momento. Eram trabalhos com os beats do MAD GUI, CHF e Ralph e foram composições meio egoístas, do tipo: “quero trampar com isso e vou fazer isso”, e eu sabia que boa parte do meu público ia gostar. Foi um caminho que decidi por uma questão da minha busca, de entender o que eu precisava limpar e jogar fora e o que eu precisava segurar e manter. Fui trazendo o boom bap de novo e por isso que falo que foi egoísta, porque eram coisas que eu senti que precisava fazer. Até me sentir feliz de estar fazendo rap sujo e foda-se os outros, me senti meio contra o mundo, aquela coisa adolescente, sabe? Foram trampos de redescobrimentos e feridas.

Big Fa7Her foi uma maneira de mostrar que eu tenho esse carinho e essa dívida de gratidão eterna com a rapaziada. Foram quase 10 anos do Fa7Her, que foi um disco que marcou uma geração, e o novo foi uma maneira de falar: “obrigado, estamos juntos 10 anos depois”. É um sentimento de gratidão e orgulho, de falar mesmo após 10 anos que eu ainda tenho eles aqui. Posso me dar ao luxo de pegar um projeto, trazer pessoas que sou fã e buscar uma sonoridade com grave, uma coisa mais barulhenta e trazer alguns elementos mais próximos do trap do que ficar mais preso ao boom bap. E ter essa liberdade para me aproximar de outras sonoridades pode facilitar novas pessoas de gostarem de certas coisas que eu faço. O experimental te faz, às vezes, ficar um pouco à frente do resto e isso é ótimo, mas, às vezes, dificulta um pouco você ser absorvido. Hoje – mesmo com todas as ambições, dificuldades ou lamentos – sou um artista consolidado. A consolidação da minha obra me permite revisitá-la, e a nostalgia é boa.

Falando um pouco das participações, como foi fazer a gravação em família de “Éramos Reis”, com a Ainá e a Nandi?

Foi um privilégio e luxo. A Ainá é minha parceirona, estamos juntos sempre. Ela tem o trampo dela de DJ e sempre buscou a felicidade dela e a maneira dela de estar no mundo também. E a Nandi é o somatório dessas vontades, é muito mais preparada. No dia do show do Circo Voador, eu a Ainá estávamos com as mãos suando. Na passagem de som, troquei uma ideia com a Nandi de como íamos fazer e na hora ela tirou de letra. Entrou, deu boa noite, cantou e depois desceu para ficar com a prima. É um privilégio de ter minha esposa e minha filha no disco. Pelo aquilo que luto, rimo e brigo, é um exemplo na prática. É ótimo não ter uma pressão em cima da Nandi e ver ela se permitir a curtir isso. Eu vejo como entrar no mar, eu vou de mãos dadas nos primeiros passos para ela entender se vai querer nadar, surfar ou ficar na areia, ela que decide. Mas eu tenho que dar os primeiros passos com ela, não posso deixá-la na beira para se virar. Eu e a Ainá estarmos juntos nesse processo é uma forma de proteger e mostrar que ela tem nosso apoio. Ela tá crescendo e vai construir a vida dela. Além do amor em família, acho que a música vai ser o nosso principal denominador em comum e uma forma da gente estar sempre próximo.

Big Fa7Her foi uma maneira de mostrar que eu tenho esse carinho e essa dívida de gratidão eterna com a rapaziada. Foram quase 10 anos do Fa7Her, que foi um disco que marcou uma geração, e o novo foi uma maneira de falar: ‘obrigado, estamos juntos 10 anos depois’”

Como surgiu a ideia da capa?

Eu tinha essa foto que a Ainá tirou em algum dia dos pais. Essa foto me lembrou alguns elementos da capa de Fa7Her, de quando a Nandi chegou da maternidade. Essa foto me trouxe esse link, dela maior, nós dois olhando para o horizonte em um lugar novo, em Búzios, que é uma cidade que escolhemos morar. Essa foto me passou a sensação de estar olhando para frente e ter a Ainá cuidando das nossas costas, I got your back, ao mesmo tempo em que estamos olhando para o futuro, para o infinito, e que vamos estar juntos. Nisso, eu falei com o Flipon para construir a arte da capa. Quando ele mandou, vi que ficou foda e deu um alívio ver o trabalho finalizado, porque a capa é a materialização do disco. Ela me tocou porque a foto continuava lá junto com a arte do meu irmão. Lavou a alma.

Retomando uma parte que você falou que é um artista consolidado, o que você aprendeu com o amadurecimento na cena?

De uns anos para cá mudou muito a maneira de se trabalhar música e de vender música.  Uma coisa que acho que foi vantagem minha, de estar há mais tempo, é que me sinto preparado para subir. Consigo ser eu mesmo em um mundo que não tem muita personalidade e isso é o que me mantém vivo e relevante. A confiança de entender o que estou fazendo e de saber que eu não preciso fazer tudo que estão fazendo. Sei que a novidade é sempre mais agraciada, mas vi tanta gente chegando que não está aqui. Hoje estou mais pronto para poder dizer certos “nãos” e para poder abraçar o novo. E não criei minha carreira em cima de ter que ficar falando meia merda na internet para ter um corte, virar pauta e assim a galera ouvir, sem querer, minha música. A gente tá perdendo alguns questionamentos como: “Por que acho esse cara foda? Por que tô seguindo essa pessoa? Por que a opinião dele importa tanto para mim e vira tanto a minha opinião?”. Todo mundo tem amigo que hoje em dia tá fodido de cabeça por conta de jogo. Saímos da revolução do smartphone para virar alvo e vítima do algoritmo. Estamos com a mente muito fodida, as pessoas estão perdendo certos valores e estão glorificando qualquer merda. É uma quantidade de novas informações que não tem fundamento, estamos com tanta pressa e, ao mesmo tempo, com uma preguiça fodida para fazer a vida. É uma coisa que retomo, estou no meio dessa loucura, afetado por ela, mas não me sentindo louco. Estou bem, por não ser tão novo de estar ali, mas continuo inserido nisso e consigo ter discernimento. Nós é a câmera analógica que vagabundo tira foto no rolé no lugar do celular, tá ligado? Tá ainda ali, não jogaram todas fora. E é esse equilíbrio que precisamos ter.

Ainda nessa parte de análise de cenário, você esteve no movimento da Pirâmide Perdida que foi relevante para transformação nacional do rap. Passados esses anos, como você analisa o impacto desse movimento e naquela época vocês tinham consciência de que estavam mudando o jogo?

Eu falo isso muito com o Djonga quando encontro com ele. Ali foi o metaverso e um crack no sistema. Não era para acontecer, não era para gente dar certo, o rap era totalmente diferente em meados de 2010. Pô, com todo respeito, eu sou irmão e amigo de todo mundo que estava nessa geração, mas era aquele rap de brancão, música bonitinha e até os caras que eram mais de quebrada preferiam ser mais água com açúcar. Era só música de amor, mano, era só música para playboy. O que trouxemos foi a representatividade para uma nova geração. Quando a gente criou esse underground virando mainstream, deu essa quebra. Todo mundo que fazia rap naquela época não podia fazer o que a gente estava fazendo, porque era um bando de brancão, só rimavam água com açúcar e um ou outro era mais malandro. E isso não estou cagando marra, a cena era dessa forma. Nós trouxemos a rapaziada para pista. Demos essa virada, trouxemos o rap e foi em um sentido de: “Calma aí! E os pretos? Cadê nossa rapaziada? E o que a gente fala?”. Tiramos a galera que pagava 10 conto para ver a gente em uma casa da Zona Norte, para frequentar o Circo Voador. Quando trouxemos isso, demos alívio para uma galera que era mais suja a mais rua. Pegamos uma galera que era distante da idade dos Racionais e não era tão apegada na geração do Emicida, que tinha o discurso mais lapidado. Nós tínhamos o orgânico, a raiva e uma coisa muito de rua e coletiva. A Pirâmide teve esse grito de liberdade e conquista. Aquele grito de: ‘Agora fudeu! É a nossa vez’. A mulherada ficava muito à vontade nos nossos shows, podiam dançar, usar a roupa que quisesse e a rapaziada podia usar o cabelo que quisesse, a roupa que quisesse porque estavam num lugar livre. Ao mesmo tempo, eu achava muito foda a autoestima, a vontade de se vestir bem e de estar bem, não tinha a necessidade da foto, do look, de você usar uma roupa de R$ 8 mil num show do Travis Scott porque tu quer usar a roupa melhor que a dele, por exemplo, isso para a gente era idiotice. Nós lutávamos para ser ouvidos. E o quanto o BK’ e o Djonga chegaram, por exemplo, tá criando a cena que são vocês hoje. É uma galera que tem outra mentalidade. Falo isso para os caras, eu tenho muito orgulho das pessoas que criamos na época da Pirâmide Perdida, saímos da raiva e hoje em dia trampam em assessoria, jornalismo, foto e edição. Não criamos apenas MCs, criamos pessoas para a arte e para o mundo, isso é nosso maior trunfo. Nós éramos o caos e criamos pessoas que queriam ser melhores e queriam outro mundo. Fomos essa trilha sonora e acho que ainda somos. O que você ouve constrói o que você vai ser. A Pirâmide conseguiu abrir portas e mantê-las abertas.

“Consigo ser eu mesmo em um mundo que não tem muita personalidade e isso é o que me mantém vivo e relevante. A confiança de entender o que estou fazendo e de saber que eu não preciso fazer tudo que estão fazendo. Hoje estou mais pronto para dizer certos ‘nãos’ e poder abraçar o novo”

E no meio das mudanças de carreira você criou a Melhoria Music. Como está essa sua nova fase?

A Melhoria Music foi a resposta para esses anos de rap, em que gravei em mil circunstâncias e condições diferentes. Hoje em dia eu quero ser dono do meu tempo. Não posso ser dono de tudo, mas quero ser dono do meu tempo. Acho que hoje, não sei se eu renderia se não tivesse o meu ritmo de trampo. E essa é uma dica que dou para diversos amigos meus, de após um tempo ficar independente para seguir o seu ritmo. A autonomia conta muito, antes do “Big Fa7Her” soltei 5 projetos e se eu tivesse em outro lugar isso não seria possível, teriam outros artistas e processos nesse meio. Hoje, até para minha longevidade de continuar trampando, passa muito por isso, por eu estar bem, feliz, controlando o meu tempo e gravando como eu quero.

Para finalizar, o que te dá medo e o que te dá coragem?

Cara, o medo está mais relacionado com a minha filha. Sempre que saio de casa eu só penso em voltar. Quero sempre estar do lado dela e da Ainá. Ao mesmo tempo, elas que me dão energia. A mesma fonte que me dá medo de não ter é o que me dá energia, é a nossa vida que construímos. Hoje em dia as minhas alegrias vêm muito mais de dentro da minha casa do que de fora e isso é uma coisa que recomendo para todo mundo, tentar brigar muito para ter isso. Assim, você tem uma vida muito mais feliz e muito mais equilibrada para lidar com o externo.

Loading