Álbuns para ouvir com “tempo”

Quando ouvidos com cuidado e atenção, alguns discos revelam boas surpresas

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A primeira descrição que encontrei para a palavra “tempo” condiz com a subjetividade de sua abstração: “série ininterrupta e eterna de instantes”. Se, por um lado, quando pensamos em escrever um artigo que reunisse alguns álbuns para ouvir “com tempo”, ou seja, que compilasse alguns trabalhos nos quais atenção e disposição do ouviente seriam requisitos para sua completa apreciação, podemos ver que, afinal, a releitura eterna de bons trabalhos acabam revelando novas instâncias de sua expressão, antes inauditas. Como quer que seja, assim como obras de arte são complexas e pollisêmicas, diversos são os tipos de “tempo” necessários para apreciá-las. Por isso, reúna alguns instantes para si próprio e aproveite, com calma, as sugestões a seguir:

Ben Frost – A U R O R A

A primeira frase na resenha de André Felipe de Medeiros sobre o segundo álbum de Ben Frost é taxativa: “A U R O R A não é um disco gostoso de ouvir”. De fato, este não é um álbum convencional e, aqui, o tempo que precisamos para ouvi-lo condiz com a predisposição mental para embarcar nessa aventura, e o preço a pagar por isso é mais do que compensatório. Se, por um lado, A U R O R A não causa um prazer imediato, como bem colocado por André, de outro, o é porque pretende expandir os limites de sua expressão. É justo chamar Ben Frost de artista musical, na medida em que faz de sua música uma experiência sensorial extrema. Sem dúvida, Frost faz parte da geração pós-John Cage que aprendeu a valorizar a musicalidade do silêncio, do ruído e, acima de tudo a experimentar e investigar os usos não convencionais da maneira produzir som, que encontrou o poder expressivo da música além das harmonias cativantes e das letras acessíveis e ,assim, subverte a funcionalidade de sua música em nome de uma expressão única. Boa viagem.

Keaton Henson – Romantic Works

Se em Ben Frost precisamos de tempo para absorver o turbilhão de informações que este nos oferece, em Keaton Henson essa experiência se dá de modo praticamente oposto. Romantic Works é uma obra instrumental composta, essencialmente, por um piano e um violoncelo. Caso não detenhamos o olhar sobre ele, Romantic Works corre o risco de passar com seus belos detalhes despercebidos. “Fragilidade” é uma palavra recorrente nas descrições do trabalho de Henson, e, de fato, isso exige um olhar cuidadoso e sensível por parte do ouvinte, que não vai se arrepender se deixar-se levar pela dimensão de sua alma. Por ser instrumental soa abstrato, mas é justamente nessas propriedades fugidias que reside o imenso bom gosto e a imensa dedicação que o artista tem com sua própria obra. Vale a pena respirar fundo e ouví-lo com calma.

Sufjan Stevens – Carrie & Lowell

Diferentemente das duas obras anteriores, Carrie & Lowell é escolhida para essa lista justamente por conter uma profundidade em suas letras difícil de captar em apenas uma audição. Um dos trabalhos mais bonitos desse ano, e também um dos mais tocantes da carreira de Sufjan Stevens, não é instrumental (e, portanto, não é tão abstrato quanto os outros deste artigo), mas tampouco poderia ser descrito como “palavroso”. Composto em um período de luto enfrentado pelo músico por ocasião da morte de sua mãe (com a qual teve uma relação problemática), Carrie & Lowell vem carregado de metáforas e de histórias reais, que encontram o balanço poético à medida em que o músico vai encontrando o perdão. Por isso, deve ser ouvido e re-ouvido a fim de sempre revelar uma nova dimensão de sua beleza, que pode estar em suas letras, seus arranjos ou sua interpretação. Empresto novamente as palavras de André: “Alguns artistas chamam a atenção pelo barulho que fazem ao tentar comunicar suas verdades. Cantando sussurrado, Sufjan Stevens compartilha sua história, crença e sinceridades em caráter de envolvimento. Mais do que espectador, o ouvinte vira participante.” Para ser cúmplice de um momento tão delicado, belo e verdadeiro, é preciso, portanto, tempo e generosidade.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte