Ale Sater, de volta para o futuro

Músico do Terno Rei fala sobre recém-lançado “Fantasmas”, seu segundo EP solo – de músicas compostas durante os últimos oito anos e “mais solto e alegórico” do que o antecessor

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Fotos: Thaís Jacoponi

Em 2016, Ale Sater, vocalista e baixista da banda paulistana Terno Rei – que havia lançado o álbum de estreia Vigília (2014) e se preparava para colocar na rua o segundo trabalho, Essa Noite Bateu Com um Sonho –, decidiu que lançaria Japão, o primeiro EP de sua carreira solo. O músico chegou de mansinho, quase como se pedisse licença para contar sozinho aquelas histórias. São seis faixas que constroem uma atmosfera intimista, com letras de teor autobiográfico e camadas sonoras melancólicas.

Quase cinco anos depois, o cenário é bem diferente. Ale é nome conhecido no circuito alternativo brasileiro, e Violeta (2019), mais recente álbum do Terno Rei, elevou a banda a um lugar de destaque – virando a chave para o que viria dali para frente.

Intitulado Fantasmas, o novo EP solo do cantor, lançado hoje (19/03), nasce após um processo expurgatório, algo como um fechamento de ciclos que crava pontos finais e abre espaço para novos começos – ainda que isso tenha sido feito a partir de uma revisitação ao passado. “Essas músicas são antigas e espaçadas, tem faixas de 2013, 2016, 2017, mas eu sempre curti e nunca tive tempo e recursos certos pra mexer nelas. Aí nos três primeiros meses de pandemia, que tava tudo muito incerto, eu tava muito assustado, trancado no quarto, resolvi mandar para produtor (Gustavo Schirmer) umas demos e fomos produzindo a distância. Na primeira oportunidade que eu tive de ver ele pessoalmente a gente gravou em dois ou três dias. São músicas que eu gosto e resolvi aproveitar aquele momento de hiato para colocar para fora direitinho, produzir e tudo mais”, conta Ale, em entrevista ao Monkeybuzz.

As quatro faixas que formam Fantasmas trazem harmonias (e letras) que flertam mais com o universo Folk, se afastando do trabalho que a banda de Ale apresenta, principalmente em Violeta. “São faixas que não cabem na banda, até já tenho umas novas que também não encaixam na banda. Eu diria que elas são mais pessoais. Elas têm cara de projeto solo mesmo e aí eu espero o momento. E o lance de fazer esse EP agora é pra reviver também, sabe? Porque eu fiz o Japão e não toquei muito ao vivo, fiz uns 5 ou 6 shows. Acho que esse EP abre o caminho para um disco mesmo, uma coisa mais completa”.

As referências sonoras, logo à primeira audição, mostram-se diretas – um encontro entre os Folks clássico e eletrônico, referências da MPB e Bossa Nova, além de toques modernos. “Nick Drake e Radiohead são 100% referências de um lado. Tem bastante presença de violões, alguma coisa de beat eletrônico, que foi uma parada que o Schimmer trouxe, e uma referência que eu tenho que é grande pra caramba é o Bon Iver. Eu curto e acho que pinta um pouco dessa referência. No lado brasileiro, são mais nomes que ouço desde sempre, minha criação mesmo, tipo Tom Jobim, João Bosco, Toquinho e Vinicius. Jorge Ben, nas letras abstratas, que eu gosto muito. A gente sempre vai se reciclando, mas acho que esses nomes são os que mais me pegam”, conta Ale, que vê o minimalismo como mote musical principal do repertório. “Por exemplo, na faixa ‘Caminhão’ tem uma referência mais Pop Rock, com uma bateria limpa, uma guitarra quase limpa, synth, baixo. É uma estética mais ‘boazinha’, sabe? No Japão eu era mais novo e tinha menos recursos, foi mais para começar. Acho que a maior diferença entre eles é que o Japão é muito mais confessional biográfico e o Fantasmas é mais alegórico. Tem uma coisa que até com os álbuns do Terno Rei, eu tenho uma preocupação de que a obra tem que falar como um todo, ter uma homogeneidade, um conceito inteiro. E agora nesse EP mesmo, já tem esse novo momento, que eu tô querendo pular pro lado mais eclético tentando me arriscar pra não ser um conceito tão fechado. Então, o primeiro é confessional e fechado, e o segundo é mais solto e alegórico.”

Viagens (paradas e em movimento)

"Normalmente, não sento para escrever, tem vezes que eu faço isso, mas não é o que mais acontece. Sou mais eu brincando no violão ou uma ideia fixa que já tá rolando na minha cabeça. Mas geralmente vem de uma ideia geral, ela acaba desabrochando, fico cantarolando e gravo. E depois eu ouço e exercito em cima da parte boa. Uso muito o celular para gravar ideias e, agora, mais o computador para fazer direitinho. É uma métrica muito clara: quando eu ouço repetidas vezes aquela demo de 1 minuto e ela é boa, aí eu sigo nela. Acontece de eu ter muita ideia armazenada e usar, por exemplo, uma viagem longa de 8 horas no carro e ouvir tudo. Às vezes aparece uma coisa que eu nem lembrava e que eu não dei valor num outro momento, mas aí ela vira uma música. E, se algo na letra me fascina, eu sigo".

Ao ouvir Fantasmas, experimente o exercício de fechar os olhos e ouvir com atenção. A sequência de faixas ajuda a desenhar um cenário parecido com o de um dia vivido no passado, nostálgico, como uma casa antiga e cheia de histórias – principalmente na faixa “Nós”, carro-chefe do projeto. Já o nome Fantasmas é uma escolha simples e certeira, que reafirma essa sensação, por motivos que, embora diferentes, também ressoam essa ideia de passado, memória, suspensão. “Acho que tem alguns motivos e o primeiro é porque elas são velhas. Eu gosto muito delas, mas não couberam no meu primeiro EP solo e elas são meio que fantasmas. Direto eu tava tocando e pensava ‘vou tocar aquela de novo’. E como eu não tinha levado a ideia para frente ficava aquele fantasminha. Outra é que eu curto meio essa linha de música que tem um pouquinho de drama e de suspense. Até o Jeff Buckley tem bem esse lado com a guitarra que sobe, que até parece trilha de terror. E quando eu tava pensando em qual poderia ser o nome do EP, tem a letra da Nós que tem a parte ‘espante os fantasmas que vejo’ e segui esse conceito”.

“Peu”, abertura e segundo single, talvez seja um dos melhores trabalhos de Ale até aqui e encanta por contar uma história com qual é possível se identificar, seja por experiência própria ou por se colocar no lugar do personagem. “’Peu’ é uma ideia… A vida toda, em que eu escrevo e componho, a gente acaba sendo meio confessional, biográfico, e isso tem a ver com o título. Mas essa música não tem relação com uma experiência que eu tive, é mais uma coisa alegórica, é um pai conversando com um filho, ela é 100% fictícia. E pensando na estrutura dela, as quebras e como ela desenvolve ajudam a dar esse significado dela. É a composição que eu mais gosto”. conta Ale. A faixa ganhou um clipe dirigido por Gabriel Rolim, que também assina o álbum visual.

O repertório a ver com tempo, mas também com movimento – nada parece fixo e tudo é permeado pelo desejo de abraçar o mundo. Se em “Peu”, há a busca por ver e mostrar lugares, “Nunca Mais” desperta a visão de sonhos, e em “Nós”, ele escreve cartas do trem. Sempre indo e vindo, chegando ou partindo. “Eu acho que esse sentimento é uma coisa que já não vive tanto em mim, mas, quando fiz essas músicas, eu tava numa pegada meio beatnik, tipo o livro On the Road. Tinha uma coisa do espírito aventureiro, caminhoneiro, de querer rodar o Brasil todo e ver todos diferentes céus. Acho que é isso que dá a ideia de movimento, a vontade de ter aventuras”.

Ironicamente, o processo de produção do EP não foi tão dado a movimentos e encontros– mas foi como deve ser, principalmente em tempos de pandemia. “Foi bem fechado. O Schimmer, que é o produtor, a Thata, minha namorada, fez toda a parte de arte, e o Gabriel Nathan, que mixou e masterizou, é um parceiro do Schimmer de Curitiba. Até os instrumentos, eu toquei quase tudo, o Schimmer tocou também umas coisas. No futuro eu quero fazer uma coisa maior, um disco completo e quero chamar mais gente”.

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