Além da Lama: o Folk contaminado pela sujeira sonora

Às vezes, o estilo foge de sua delicadeza habitual e o resultado pode ser muito bom

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O Folk, em algumas de suas vertentes, é facilmente associável a uma música aura delicada, apesar de suas raízes que tem muito a ver com o a vida no campo e à música popular (seja ela na Irlanda ou no interior dos Estados Unidos). Talvez graças às sutilezas do violão e às nuances estéticas que este provoca, da possibilidade da harmonização em vocais doces ou mesmo à melancolia provocada pela solitude do instrumento, muitas vezes o Folk se molda com uma sensibilidade terna. É caso, exemplo, da grande maioria dos artistas citados neste breve recorte sobre a herança do violão dedilhado. Todavia, no artigo de hoje, vamos fugir um pouco da introversão e do aspecto mais tranquilo desta vertente musical e apostar na faceta mais suja dos singer-songwriters. E esta sujeira, por sua vez, graças à constante interpenetração de estilos contemporâneos, vai evocar muito além da lama do território caipira: a interferência de ruídos na malha sonora ou mesmo temas obscuros das letras são os temas da nossa pequena seleção de hoje. Pois bem, vamos a ela…

Chad Vangaalen

Shrink Dust, o quinto álbum do canadense Chad Vangaalen, nos surpreendeu muito positivamente no começo deste mês. Sem pudores na hora de compor (e ilustrar ele mesmo suas composições) o músico faz uso de imagens assustadores em suas letras: tratando de forma natural temas que poderiam revelar uma depressão profunda caso permanecessem interiorizados, Vangaalen fala sobre morte, assassinatos, dilacerações e tortura. Isso só pra fazer um resumo simplificado. O seu som também não passa incólume: o que começa com um belo violão dedilhado não demora e se misturar a ruídos de saturação e barulhinhos estranhos de sintetizador. Escute com a mesma coragem do compositor.

Oliver Wilde

Após figurar entre os melhores álbuns do ano passado, Oliver Wilde chega com seu segundo álbum Red Tide Opal In The Loose End Womb, que não deixa nada a desejar em relação ao anterior. A mesma saturação visual de suas capas e clipes, além do uso desmedido do glitch chega à esfera sonora. Um violão, uma voz sussurrada e um lirismo que não recaem ao “fofo” (não que este seja um problema), graças ao complexo arranjo de multicamadas que deixam sua música com aspecto contemporâneo e muito particular.

Woods

Saindo um pouco dos temas melancólicos (quase depressivos) dos exemplos anteriores e chegando a uma atmosfera mais ensolarada, temos Woods, na qual a sujeira das guitarras distorcidas (e desafinadas) do Noise noventista se mesclam as bases de violão, construindo uma identidade própria. Mas a principal fonte da “poeira sonora” de Woods vem da sua produção: adeptos do Lo-Fi, o grupo sempre gravou seus álbuns dentro de um estúdio caseiro montado pelos próprios integrantes e acabou de lançar seu sétimo disco, intitulado With Light and With Love

Diane Coffee

Projeto primo de Foxygen, Diane Coffee é liderado por Shaun Fleming, que assume aqui o protagonismo com sua personalidade andrógina. Do mesmo jeito que nosso exemplo anterior, uma camada suja de poeira de sons saturados nos impedem de esmiuçar o brilho de cada detalhe de cada canção, que, longe de ser um defeito, produz um resultado honesto, humano e de muita qualidade. Sua estreia, My Fried Fish aproveita-se ao máximo das adversidades friamente calculadas (o álbum foi gravado dentro do apartamento com pedaços de bateria e um violão desafinado para fazer as vezes de contrabaixo), numa falta de recursos propositais que ajudam na criação do clima do álbum. Um super clima, diga-se de passagem.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte