Alírio nas estrelas

De Monte Carmelo para Uberlândia para São Paulo – e para o mundo: a DJ e produtora repassa sua história e reflete sobre o poder de transformação da música

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Fotos: Ivi Maiga Bugrimenko

Ela faz parecer tudo muito fácil, ao descrever os caminhos que a levaram para detrás da cabine de DJ. É quase como se estivesse escrito nas estrelas. Com cinco anos de trajetória, Alírio, 31, já conquistou marcos de carreira que muitos na profissão demoram para conseguir. Logo ao começar a frequentar rolês de música eletrônica, criou uma festa com amigos. Alguns anos depois, se tornou residente de um dos maiores coletivos do Brasil, a paulistana Mamba Negra, além de marcar presença nas principais festas do país. Não demorou muito para embarcar nas primeiras turnês internacionais e figurar em line-ups de festivais ao lado de nomes consolidados. “Foi realmente uma surpresa na minha vida, acontecendo naturalmente, sem muito planejamento, expectativa ou ambição”, conta, enquanto conversamos tomando chá em Berlim, em uma das últimas datas da sua segunda turnê mundial, que rodou por Estados unidos, Brasil, Europa e Argentina.

Por muito tempo, essa possibilidade não passava na sua cabeça, ainda que a música tenha sempre habitado fantasias no seu imaginário. Até os 17 anos de idade, ela vivia em uma fazenda na pacata cidade de Monte Carmelo, no interior de Minas Gerais, longe dos agitos intensos da cidade grande. Lá, o seu contato com música era relativamente restrito, já que ninguém na sua família era especialmente ligado a isso. No máximo, ouvia o que tocava no rádio. As primeiras referências sonoras marcantes, na infância, entraram na sua vida por meio do primo, que morava em Uberlândia, mas passava as férias na fazenda, trazendo na mala CDs e DVDs de divas pop como Madonna e Britney Spears, e grupos como Evanescence, além de outros artistas que fizeram parte das vivências de muitas pessoas que cresceram nos anos 2000.

Foi somente quando se mudou para Uberlândia, para estudar medicina, que conheceu o mundo da música eletrônica. Naquela época, em 2018, a cidade não tinha uma cena consolidada. Os poucos rolês eletrônicos mais estimulantes eram promovidos principalmente pela Function FM, web rádio que se tornou referência no Brasil, na época sediada no município. Em meio a esse contexto, já em 2019, ela se juntou a amigos para criar a Baile.034, coletivo cujo objetivo era levar a cultura ballroom para a cidade do triângulo mineiro, com festas, balls e atividades culturais voltadas à comunidade LGBTQIA+, focadas em música e performance produzidas por corpos marginalizados. O envolvimento com a cena foi o impulso necessário para aprender a mixar, se apresentando em eventos do seu coletivo, em que tocava músicas de ballroom, e outros pequenos rolês de pop na cidade, ainda sem muitas pretensões.

“Sempre procuro algo que liga uma música a outra, não sei dizer muito bem o quê, mas isso acontece. É até meio inconsciente. Às vezes vem numa percussão, num tipo de sintetizador ou na energia que a música me passa”

No fim de 2019, um amigo sugeriu que fossem para a Mamba Negra, coletivo que estava se consolidando como uma das maiores plataformas LGBTQIA+ do Brasil, cujo nome já estava rodando país afora, instigando a curiosidade de pessoas chegadas à música eletrônica. Mal sabia ela como aquela experiência seria impactante. “Essa primeira Mamba foi onde tudo mudou para mim, porque mexeu muito comigo. Eu lembro que fiquei bem surpresa com a sonoridade, com as performances. Foi o espaço, inclusive, que eu tive o insight sobre ser trans. Eu já tinha um envolvimento com a comunidade, mas eu não me entendia enquanto pessoa trans. Eu trabalhava num serviço de atendimento à população trans,  em Uberlândia, só que essa questão não tinha vindo para mim como algo sobre minha identidade. Foi no meio da festa que falei para um amigo: ‘Acho que eu sou trans’. No outro dia, quando acordei, depois da festa, foi quando eu comecei o meu processo”, relembra Alírio. “Você vê outros corpos trans ali, num lugar de protagonismo, muitas vezes em cima de um palco. Isso não é coisa que você vê em qualquer lugar.”

A experiência na rave paulistana não a influenciou somente ao nível pessoal, mas também artístico. Foi lá onde entrou em contato com diferentes sonoridades que a inspiraram a seguir outros caminhos na música eletrônica. O início da formação da sua identidade musical era muito marcado por sons como house, vogue beats, pop, hyperpop e techno – mas sempre de maneira um pouco “mais digerível” para os ouvidos de uma cidade como Uberlândia, onde não existia uma cena que consumia os mesmos tipos de música que em São Paulo. Após a festa na capital foi que ela começou a pesquisar sons que saíam um pouco fora da caixinha, mais pesados, sisudos e enérgicos, algo que, de certa forma, a acompanha até hoje. Alírio passou a explorar outros cantos do vasto mundo eletrônico, descobrindo o que gostava ou não, assimilando o que fazia sentido dentro do seu universo sonoro, que foi soando cada vez mais coeso, apesar de estar sempre em metamorfose.

“Brazilian cuntcore” – este foi o termo que uma pessoa usou para nomear a sua identidade sonora, em um comentário na internet. Ela gostou tanto que colocou a definição em sua descrição no Soundcloud. O som da artista, na verdade, é algo difícil de se colocar em palavras; até mesmo ela tem dificuldade de o fazer. Trocando de gêneros com a mesma maestria que divas pop trocam de looks durante shows, sem que seja possível perceber, ela não se deixa ser classificada por rótulos. Em seus sets, sempre recheados de batidas quebradas e sensuais, mas também do clássico ritmo “four-on-the-floor”, da dance music, é possível ouvir diferentes vertentes da música eletrônica, como techno, house, breakbeat e latincore – além de diferentes subgêneros no meio disso.

“Estamos em um momento em que temos que valorizar o que está sendo produzido na América Latina, que tem uma cena muito forte, inclusive que influencia o que está sendo produzido aqui [na Europa] e as pessoas daqui estão tocando”

Há sempre um fator de imprevisibilidade nos tipos de música que ela toca, que torna suas apresentações dinâmicas e cativantes, prendendo a atenção. Não é possível saber o que vem depois, o que cria certo jogo de tensões, prontamente aliviadas. “Eu sempre procuro algo que liga uma música a outra, eu não sei dizer muito bem o que, mas isso acontece. É até meio inconsciente. Às vezes vem numa percussão, num tipo de sintetizador ou na energia que a música me passa”, comenta. Elementos percussivos, como os que marcam o tribal house, gênero que costuma tocar, são uma constante nas suas apresentações. Apesar das mudanças na sua identidade sonora, uma influência permaneceu desde o início: os sons tocados em diferentes categorias das balls como pano de fundo para performances – vogue beats, que remontam ao começo da sua carreira.

Uma característica evidente na curadoria musical que a DJ traz para as pistas de dança é destacar produções musicais de artistas da América Latina. Entre ritmos sincopados e quebrados, nos sets de Alírio se ouve frases em espanhol e português, assim como samples de funk, que trazem uma identidade latina às narrativas sonoras, mesmo que às vezes de forma sutil. Ela também faz questão de mixar produções de artistas latinos não necessariamente influenciados por ritmos típicos, mas que lançam músicas em outros gêneros, como house e techno. “Eu fui entendendo o lugar político de consumir e tocar essa música que é produzida nesses países, que foge desse eixo da Europa e dos Estados Unidos. Tem muita coisa acontecendo fora. Onde eu vou colocar o meu dinheiro quando vou comprar uma música?”, questiona.

Apesar de terem constituído parte maior da sua identidade no passado, em suas apresentações estão presentes também sons que fazem parte do latincore, gênero musical recente, que ganhou força depois da pandemia, o mesmo período em que Alírio se jogou na construção da pesquisa musical. “Estamos em um momento em que temos que valorizar o que está sendo produzido na América Latina, que tem uma cena muito forte, inclusive que influencia o que está sendo produzido aqui [na Europa] e as pessoas daqui estão tocando”, enaltece. O estilo contracultural, frequentemente originado e tocado em espaços LGBTQIA+, foi popularizado pelo DJ e produtor colombiano CRRDR, por trás das gravadoras Trampa e Muakk. A vertente liga as raízes musicais tradicionais da América Latina, seus vocais, ritmos, percussões e melodias características, ao som acelerado e moderno da música eletrônica, embebendo gêneros como cumbia, guaracha, champeta, aleteo, reggaeton e funk com novas roupagens intensas.

Não somente na seleção musical, mas também na forma como ela apresenta esses sons, foi que Alírio ganhou destaque no cenário nacional. Este é, inclusive, um dos fatores que, segundo ela, podem explicar como sua carreira de DJ deu tão certo, tão rapidamente. “Eu acho que tem muito a ver com sensibilidade. Eu me considero uma pessoa extremamente sensível e observadora. Isso tem a ver também com o meu trabalho como psiquiatra, eu estudo psicanálise. Eu trabalho muito a minha escuta, isso é algo que veio antes de ser DJ. Quando você está ali, conduzindo uma pista de dança, tem que ter. Isso te ajuda, porque você tem a sensibilidade [de saber] para que lado que vai, o que as pessoas estão sentindo – essa coisa com o público. Sou muito boa nisso”, explica a artista, que ficou em segundo lugar em um ranking da revista especializada Mixmag de DJs brasileiros para se ficar de olho em 2025.

Dividindo sua vida entre festas e atendimentos como psiquiatra, onde encontra estabilidade financeira, a DJ também enxerga a relação da psicologia com a música eletrônica mais do que apenas da posição de artista. “Tem outras funções, além disso, da diversão”, enfatiza sobre os papéis sociais e psicológicos que as festas cumprem. “É como um recurso para o nosso imaginário, para expressão, para conhecer pessoas, criar uma rede. É um espaço onde a gente coloca para fora as coisas. Tem isso de construir emoções, que acho que é uma coisa para saúde mental também. Eu faço muito essa ponte. É um espaço onde é produzido cuidado, nesse sentido das relações que você faz ali, das conversas”, diz.

Foram essas conexões sociais um dos grandes motivos que a atraíram aos rolês e a fizeram mergulhar tão fundo nesse universo. A comunidade que encontrou frequentando as festas de música eletrônica foi onde ela construiu grande parte da sua rede atual de amigos e onde pôde fazer ecoar sua voz. Como a DJ bem lembra, historicamente, a música eletrônica vem de um lugar de marginalidade, nascendo dentro de comunidades LGBTQIA+ e pretas. “Ela é uma maneira de se expressar, de produzir arte para também externalizar essas coisas que a gente vai vivendo enquanto uma comunidade, que sofre toda essa violência da sociedade. A música eletrônica é uma maneira de expurgar”, afirma a artista, que acumula passagens por festas e clubes como Tesãozinho Inicial (SP), Chernobyl (SP/Berlim), Bicuda (SP), Kode (RJ), Nbomb (PE), Silicose (MG), Banana Frita (AM), Atrita (CE), Deseo (AR), Tresor (Berlim), Pornceptual (Berlim), Herrensauna (Berlim) e Basement (NY).

Nessa plataforma, ela também achou uma maneira de exprimir a sua identidade, algo que faz por meio da criação de histórias. “É através dessas narrativas que eu construo tocando que falo muito sobre mim também. O meu som fala até sobre a questão de gênero. Quando eu estou tocando, passo muito essa energia feminina, uma coisa sensual. A minha música mostra muito isso – quem eu sou, o que quero representar como DJ. Eu acho que isso, inclusive, é uma das coisas que me diferencia”, afirma Alírio, que é especialmente popular entre o público LGBTQIA+.

Essas narrativas às quais se refere estão profundamente ligadas àquelas fantasias que se criam nas pistas de dança, nas expressões individuais e do coletivo, na troca entre DJ e público. “É tipo um videoclipe, só que ao vivo”, compara a artista, remetendo às performances às quais assistia enquanto crescia. Ao se dar conta dessas singularidades ligadas ao ofício da mixagem que ela teve certeza de que queria seguir o caminho da música de pista de dança, uma ideia que foi amadurecendo aos poucos, depois do início despretensioso de sua carreira.

“A música mudou totalmente a minha realidade. É como se eu tivesse, nesse processo de estar com a música na minha vida e circulando por esse ambiente, me conhecendo cada vez mais também, podendo ser quem eu realmente quero ser, entendendo isso. Ela representa esse potencial de transformação e de destruição. Destruição de algo que eu era antes e, assim, reconstruir essa nova pessoa”

Alírio cita como principais influências no mundo eletrônico DJs trans que estão tocando há mais tempo, nas quais ela se espelhou. Nomes consolidados, como Ariel Zetina, Juliana Huxtable, Bored Lord, Introspekt, Octo Octa, Eris Drew e Paulete Lindacelva são algumas das artistas que a inspiraram para além da sonoridade, mostrando a força de pessoas trans trabalhando na indústria da música eletrônica. Uma presença constante nas suas apresentações, por exemplo, são músicas de Zetina, DJ de Chicago, o berço do house nos Estados Unidos. Há, inclusive, uma música dela que a marcou, “Have You Ever”, com a qual abriu um set na Mamba Negra, em 2022, intimamente ligada à militância trans. “Para nós, que viemos de uma dificuldade, de uma realidade onde não é muito fácil acessar as coisas, fazer uma tour, viajar para fora como artista é uma de posição de muito privilégio. Quando nós vemos pessoas de uma realidade parecida com a sua fazendo isso, você começa a acreditar que é possível para você também”, frisa.

Em 2024, ela recebeu um convite para tocar pela primeira vez em um festival, no Whole, evento LGBTQIA+ que ocorre anualmente na Alemanha. Foi neste momento que ela contemplou a possibilidade de levar a carreira de DJ como opção profissional. Escalada para ser parte da programação do palco organizado pela Mamba Negra, ela tomou a decisão de correr riscos e largar o emprego fixo que mantinha como psiquiatra em um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), na Cracolândia, para se jogar na vida de discotecária. “Meu inconsciente trabalha muito por mim, nas coisas que eu quero, mesmo antes de eu saber que eu quero. Vou fazendo alguns movimentos na minha vida, que depois, quando eu decido o que eu quero fazer, ou quando aquilo se torna consciente, já planejei bastante para que isso começasse a acontecer, antes disso. Isso é muito claro nessa trajetória minha com a música”, analisa a DJ, que também é residente das festas Buero (SP), Versa (SP) e Hrny (BH).

Entre os maiores coletivo de música eletrônica do país, a Mamba Negra foi peça-chave na sua carreira. Foi muito natural, como tudo nessa trajetória. Depois de se mudar para São Paulo, após o fim da pandemia, em 2021, ela começou a frequentar as raves do grupo paulistano, uma força motriz da cena da capital. Ao passo em que foi se descobrindo como DJ, o seu som também foi absorvendo as sonoridades que testemunhava nas festas, quase como uma relação de simbiose. Não demorou muito para sua estreia em uma das pistas mais fervidas da cidade, em setembro de 2022. Após tocar repetidas vezes nos eventos, ocorreu o inevitável – ela se tornou residente da festa. Nem houve convite formal para isso; foi, na verdade, tudo muito espontâneo. Sua identidade hoje representa bem a sonoridade da Mamba Negra. É por isso que ela é figura carimbada nos line-ups de showcases que o coletivo promove em cidades do Brasil e outros países. No dia 20 de abril, ela toca no festival da Gop Tun, em São Paulo, em B2B que está se tornando cada vez mais frequente, ao lado de Cashu, uma das criadoras do coletivo, com quem possui uma sinergia musical orgânica.

“A minha produção musical tem muito a ver com o que eu tenho pesquisado e ouvido, tem uma ligação muito forte. Mesmo as colaborações, elas têm muito da minha identidade enquanto DJ, do que eu toco. A produção musical vai enriquecendo o nosso trabalho enquanto DJ”

O público tem recebido muito bem seu som em pistas mundo afora, principalmente em festas onde não é permitido tirar fotos e fazer vídeos, uma tendência internacional capitaneada por Berlim. Nesse contexto, ela encontrou uma forma diferente de se conectar com o outro lado da pista de dança. “Isso é muito bom, porque as pessoas ficam entregues ao momento, dançando. Acho que deixou tudo muito mais fácil. Isso muda a experiência, tanto para o DJ quanto para a pista de dança”, analisa. A artista acredita que essa troca mais íntima possa ser uma explicação para quantidade de pessoas que comentam sobre o seu som após as apresentações lá fora. Ela conta que no dia em que tocou na Fandango, em Berlim, por exemplo, duas pessoas que produzem festas e a viram tocar a chamaram para se apresentar futuramente nos seus rolês. Por cada lugar que passa, vai plantando sementes e conquistando por meio do seu talento e carisma. Muito do seu sucesso natural se dá também dessa forma – um efeito em cadeia, em que uma gig que leva a outra, e a outra, e a outra.

Mas nem só de gigs vive uma DJ. Em 2022, Alírio começou a produzir de forma simples, criando edits e mashups, sem nem mesmo utilizar programas ou fazer composições, usando apenas o equipamento de DJ, juntando uma música com outra. Dessa forma, passou a lançar faixas pelo Soundcloud. Principalmente ao lado de Guza, DJ e produtor de São Paulo, foi que ela passou criar faixas mais autorais, que saíram em trabalhos de gravadoras como Choccy Biccy (Reino Unido), Volquete (Argentina), AUX1 (Espanha) e TTT (Brasil). “Unique Tribal” é a mais conhecida de suas músicas, acumulando mais de 45 mil reproduções no Soundcloud. Trata-se de um mashup de tribal house das músicas “Primera Txa”, de Yarinka Collucci, e “Alien Superstar”, de Beyoncé. “A gente brinca que acho que até a Beyoncé se já ouviu esse remix”, compartilha, entre risadas.

Foi essa música, em específico, que levou Dimas Henkes, organizador do álbum de remixes do lendário duo eletrônico paulistano Noporn, “Adoro DJs”, a convidá-la para participar do projeto. Em dezembro de 2022, em parceria com Guza e Mari Herzer, a artista colaborou no disco de estreia da gravadora Perfecto Estado, em que fizeram releitura da faixa que dá nome ao trabalho, originalmente parte do álbum Contra Dança, de Lucas Freire e Liana Padilha. “Sou bem fã do Noporn. Foi muito especial para mim e muito simbólico fazer parte desse projeto”, celebra Alírio. “A minha produção musical tem muito a ver com o que eu tenho pesquisado e ouvido, tem uma ligação muito forte. Mesmo as colaborações, elas têm muito da minha identidade enquanto DJ, do que eu toco. A produção musical vai enriquecendo o nosso trabalho enquanto DJ”, ressalta a artista.

Como uma forma de dar vazão a esses projetos autorais e de amigos DJs e produtores, ela fundou, ao lado de Guza, Tuxe e Lady Letal, a Tandera Records, no início de 2024. Em pouco tempo, a gravadora também se tornou uma plataforma para promover produções da América Latina. Como tudo que ela toca parece dar certo, a primeira coletânea do projeto, “Paz na Terra”, figurou na lista do Bandcamp de melhores lançamentos latinos de junho de 2024. O álbum conta com participação de nomes de diferentes cenas do circuito nacional, como Badsista, Dandarona, alys(alys)alys, DJ Bassan, Ananda, Fortunato, Clementaum, Idlibra, TYV, Pr.a.do, Capetini, além de colaborações internacionais, como da argentina Rattlesnakke. As faixas abarcam diversos gêneros, como vogue beats, house, hard techno, funk e até sons influenciados por guaracha. “Quando a gente escolheu esse nome Paz na Terra, foi nesse sentido, porque existe uma cisão entre cenas do underground, que não conversam entre si. Tem um recorte também social. Eu pensei, ‘Por que a gente não faz uma coletânea que tenta colocar nomes dessas cenas diferentes no mesmo trabalho, em que as pessoas vão conhecer o trabalho um do outro, vão abrir um pouco a mente para isso?’”.

Ao refletir sobre o futuro, ela diz que pretende se dedicar mais à produção musical autoral, algo que tinha vontade de fazer há tempos, mas não conseguia por falta de tempo. No fim de 2024, ela deu seus primeiros passos, com estreia solo na coletânea “˚ ཐི⋆ ♱ XOXO II ♱⋆ཋྀ ˚”, da gravadora colombiana Muakk, co-fundada por CRRDR, com a faixa “How to Make a Lasagna”. O que parece cada vez mais certo para ela é seguir no mundo da música, onde caiu quase por acaso, mas se encontrou. “[Quero] continuar nesse caminho, como DJ, sendo verdadeira com o que eu faço, deixando as coisas acontecerem no tempo certo, com naturalidade. Vamos colhendo com o tempo, chegando em lugares que nem imaginávamos, que sonhávamos”, pondera a DJ, que já tem planos para nova turnê mundial no verão deste ano no hemisfério norte. “A música mudou totalmente a minha realidade. É como se eu tivesse, nesse processo de estar com a música na minha vida e circulando por esse ambiente, me conhecendo cada vez mais também, podendo ser quem eu realmente quero ser, entendendo isso. Ela representa esse potencial de transformação e de destruição. Destruição de algo que eu era antes e, assim, reconstruir essa nova pessoa”.

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ARTISTA: Alírio