Alternativa com “a” no final

Como Ana Garcia e seu festival Coquetel Molotov levam música para fora do eixo Rio-São Paulo enquanto lutam contra a desigualdade de gênero no mercado musical.

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Fotos: Gabriel Garcia

MB

O Coquetel Molotov está na ativa há 15 anos em Recife e sabemos que não é fácil fazer um festival durar tanto tempo, ainda mais com uma estrutura independente. Qual é o segredo para manter essa máquina funcionando?

ANA GARCIA

Tomo um Lexotan 6 mg [risos].

Apesar da brincadeira, existe uma longa história por trás do sucesso de Ana Garcia e seu estimado Festival Coquetel Molotov. Ela começa na sua infância e, por incrível que pareça, tem na música clássica o seu ponto de partida. Por ter pais musicistas, visitas aos teatros da cidade, aos concertos de orquestra sinfônica e aos camarins desses eventos eram rotineiras durante os primeiros anos de sua vida. Tudo acontecia ali: praticamente na sala de estar de sua própria casa.

Ainda adolescente, no entanto, viu essa sala de estar voar até o norte do globo. Ao lado de sua mãe, Ana foi morar nos Estados Unidos e ali permaneceu por quase uma década. Ao retornar para sua terra natal, ela assistiu de camarote um feito heróico da mulher que a criou, Ana Lúcia Altino. Percebendo que a música clássica estava minguando no país, a pianista juntou forças para erguer um festival que celebrasse o gênero erudito por aqui. Mal sabia ela que sua filha usaria essa experiência como exemplo para, posteriormente, fazer o mesmo pela música alternativa em Recife. “Porque eu não posso fazer um desses? Se minha mãe consegue — e ainda traz músicos excelentes para tocar aqui — por que eu também não posso?”, relembra a respeito da inspiração materna.

Mas, antes de o Coquetel Molotov tornar-se um festival de fato, ele era um programa de rádio. Na faculdade de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, Ana aproveitou o laboratório de radiojornalismo para dar vazão a sua paixão por música. Ao lado de alguns amigos, todos universitários, com apenas 23 anos, tomou coragem para materializar aquela iniciativa em um evento com proporções muito maiores e com uma nova missão: dar visibilidade para bandas independentes. O desafio era grande, mas eles foram surpreendidos pela primeira edição criada a partir da inscrição em um edital.

“Achamos tudo muito legal à princípio, e quando percebi que era muito, mais muito legal [risos], já estava completamente mergulhada nesse mundo.” Não demorou para que Ana virasse produtora e curadora dos projetos Ouvindo e Fazendo Música, que ocorre todos os finais de semana no MEPE — Museu do Estado de Pernambuco, e do Virtuosi, festival internacional de música clássica que acontece também em Pernambuco. É empresária do cantor e compositor paulistano Thiago Pethit e também faz assessoria de imprensa para outros músicos.

Mesmo agora, que já está 100% integrada ao universo da música alternativa, alguns desafios permanecem. Apesar da mudança de consciência que vem acontecendo nos últimos anos, os homens ainda dominam o mercado e estão em maioria. Na contramão desse conservadorismo masculino, Ana lembrou da foto que seu diretor de palco mandou da equipe técnica deste ano do Coquetel Molotov: 80% do time são mulheres. “Na cabeça dele, era aquele pensamento: ‘precisamos de pessoas de qualidade, não importa o gênero’, mas sempre tentei mostrar que, se ele não ficar atento, os homens sempre serão privilegiados”, argumenta.

“Quero que a gente chegue a um momento em que não seja mais necessário ter essa preocupação de colocar mulheres nos holofotes. Quero que isso seja orgânico, que o equilíbrio seja natural. Mas, enquanto isso não acontece, temos que chamar atenção, realmente.”

Vários festivais seguem o exemplo: O DoSol (que acontece em Natal) e o Bananada (Goiânia) também compartilham dessa postura combativa frente a desequilíbrio de gênero no mercado musical. Mas, segundo Ana, ainda há um longo caminho a ser trilhado. “Tem lugares que sofrem mais. Na música clássica, por exemplo, as orquestras ainda são muito dominadas por homens. Você também vê isso na música eletrônica, muitos DJs homens, etc.”

Vale lembrar que não é só a favor do feminismo que a produtora lança mão da sua plataforma. A sustentabilidade também está sempre em pauta. Diferente de grandes festivais que ignoram o assunto, no Coquetel, são tomadas várias medidas práticas para diminuir o impacto do evento no meio-ambiente. O copo “Eco” é um bom exemplo: todos têm que comprar e consumir todas as bebidas nele ao longo do dia. Além disso, quem for de bicicleta, paga meia-entrada. “Depois de uns anos, você entende que o festival também pode servir como um meio para educar. Poxa, em que outro momento que você tem a oportunidade de reunir um público de 8 mil pessoas para pensar sobre coisas que são realmente importantes? Não é só sobre música que estamos falando”.

É também sobre geografia. Note, o Coquetel Molotov é um dos festivais de música alternativa que fogem do eixo Rio-São Paulo. “O público do nordeste deseja novidade. Eles participam muito, até nas redes sociais. Azealia Banks veio para Recife porque eles criaram uma hashtag. Se não tivessem feito isso, eu não sei se ia acontecer essa loucura de trazer ela pra cá. Porque, realmente, isso é uma loucura”, ri.

“É uma experiência que pode até chegar a outras cidades, mas nunca estará lá por completo. O Recife é acolhedor.”

Não à toa, o evento tem conseguido reunir a mesma quantidade de pessoas das festas de Axé que acontecem na capital do estado de Pernambuco.

Ainda assim, angariar patrocinadores de peso não tem sido fácil. “Precisamos de mais credibilidade frente às grandes empresas para desenvolver as coisas com o porte que elas, verdadeiramente, devem ter. A cultura é sempre o primeiro lado a ser cortado e, geralmente, as pessoas não entendem a responsabilidade e a importância da música autônoma”, explica. “A gente começa todo ano sem saber direito, sem nenhuma garantia que vai acontecer.”

MB

Mas e se você pudesse voltar no tempo para mandar uma mensagem para você mesma antes da realização do primeiro festival, o que diria?

ANA GARCIA

Para de chorar que vai dar tudo certo. É isso. Todo ano a gente se estressa muito, é muita responsabilidade, choro muito e aí eu preciso levar um tapa na cara pra lembrar que vai dar tudo certo.

E dá.

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ARTISTA: Ana Garcia
MARCADORES: Perfil

Autor:

alguém que curte e trabalha com música