Animal Collective: Uma Coletânea de Convulsões

Produção audiovisual do grupo é um passeio pelo melhor da lisergia e psicodelia contemporânea

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Não se pode escrever um livro sobre Psicodelia na música contemporânea sem reservar um capítulo inteiro para Animal Collective. Mais do que uma referência, o grupo americano é uma entidade viva desta estética, que parece descobrir cada vez mais novas formas de expressão dentro deste universo tão próximo do subconsciente humano. Tamanha é a criatividade de seus integrantes, que volta e meia somos surpreendidos pelo lançamento de novos projetos paralelos que se mostram igualmente interessantes e apenas agregam mais importância e renome para o coletivo. É um nome que se mantém atual pela ousadia de seus experimentos e pela constante reinvenção sonora que, em pouco mais de quinze anos, foi distribuída em dez discos de estúdio, quatro EPs, duas compilações e até mesmo um disco audiovisual de 55 minutos de pura lisergia e delírio.

Porém, vamos deixar os discos um pouco de lado e voltar os olhos para uma área na qual Animal Collective sempre mostrou um impecável talento: seus clipes. Sempre envolto de elementos lisérgicos, a produção audiovisual do grupo provoca sensações fortes em seu público, recorrendo a diversos tipos de técnicas, desde a animação gráfica até recortes que podem causar convulsões. Assim, aproveitando que logo menos estaremos diante de um novo capítulo na história do grupo, decidimos relembrar alguns dos vídeos mais pirados e interessantes de sua videografia e perceber como cada composição da banda é, na verdade, um mundo próprio com regras e lógicas próprias.

Por fim, achamos conveniente avisar: siga por risco próprio.

FloriDada

“Este vídeo pode causar convulsões para pessoas com fotossensitividade epilética.” De cara, podemos perceber que, mais do que um videoclipe, este vídeo é um desafio. Mostrado como um single para Painting With, novo disco do coletivo, FloriDada se usa de técnicas de edição e animações 3D mal renderizadas para nos transmitir uma quantidade violenta de informações, que entram em sincronia com a proposta da música. Enquanto para alguns o excesso pode ser um demérito, nesta produção ele se mostra mais como uma qualidade, descobrindo um novo terreno para que Animal Collective possa imprimir sua marca e criar um dos clipes mais perigosos e instigantes de 2016.

Today’s Supernatural

Nossa mente é capaz de criar os monstros mais tenebrosos, mas na cabeça de Animal Collective as coisas sempre tomam uma dimensão maior. A prova mais viva de que o céu não parece ser o limite na hora da criatividade está marcado no clipe de Today’s Supernatural. Pertencente a um dos discos mais subestimados da carreira do grupo, Centipede Hz, a faixa acompanha quase quatro minutos da trajetória pelo deserto de uma criatura assombrosa, que por vezes se confunde com os integrantes da banda. Com um trabalho de maquiagem fantástico, este não é um clipe recomendado para crianças, mas isto também não significa que adultos estejam imunes a se assustarem com este “Frankenstein sobrenatural”.

Bluish

Saindo um pouco do estado de delírio e excesso e entrando num campo mais ameno, Bluish nos envolve ao criar narrativas visuais sobre texturas do subconsciente. Com uma paleta de cores predominante azul, o objeto central aqui é o detalhe do abstrato, sendo que o objetivo não é ficar reconhecendo de onde estes recortes saíram, mas que sensações eles nos trazem. Apesar de bastante lisérgico e psicodélico, este clipe é um ponto fora da curva da produção audiovisual da banda, onde eles parecem respirar com intervalos mais demorados e fornecer menos informações do que comparado com os clipes comentados anteriormente.

In The Flowers

Merriweather Post Pavillion é definitivamente a obra prima de Animal Collective e seus clipes não fogem da brilhante qualidade que permeia este trabalho. Com uma aura mais VHS e repleto de recortes de filmagens cotidianas, o vídeo de In The Flowers traz uma abordagem onírica, no sentido em que tenta mostrar a forma como um sonho se desenrola. É como se tivéssemos pequenos flashes de filmagens familiares que, de vez em quando, são interrompidos por “digressões alucinógenas”, que não sabemos explicar ao certo porque estão lá, mas não nos parecem estranhas. Estamos literalmente no meio das flores que a banda plantou e vivenciando realidades completamente absurdas sem medo de sermos hostilizados, afinal, já estamos completamente submersos em dos mundos de Animal Collective.

My Girls

Também pertencente a Merriweather Post Pavillion, My Girls é talvez a faixa que mais rendeu novos entusiastas para a banda. Seu clipe, de certa forma, evita que fixemos nosso olhar para os integrantes, uma vez que eles estão totalmente coloridos de preto. O vídeo mistura uma espécie de temática científica ao colocar no fundo texturas que se assemelham a lâminas de microscópios, quase como se estivéssemos investigando e analisando a banda. E é claro, tudo isto revestido com um intenso flash de takes que coloca este vídeo no mesmo patamar de FloriDada, no que diz respeito ao perigo e risco de convulsões que ela pode provocar. Mais um ótimo exemplo de como a banda não tem medo de explorar os limites humanos naturais ao despertar nossa curiosidade mesmo que para algo nocivo.

Peacebone

Strawberry Jam é uma geléia de referências e um dos melhores discos da banda. Dentro dele, a faixa instigante Peacebone serve de trilha para um dos poucos clipes do grupo que possuem alguma estória, não que isto implique em uma linearidade coesa. Somos convidados a passar um dia novamente com estas figuras monstruosas, sem ao certo saber para onde estamos indo ou o que esperar deste roteiro. De qualquer forma, é um trabalho primoroso que mescla o gênero de romance com terror, sem necessariamente se manter excessivamente preso às regras de cada um.

Water Curses

Escondido entre dois discos colossos da psicodelia contemporânea (Strawberry Jam e Merriweather Post Pavillion), o tímido EP Water Curses contém um exemplo de clipe em que a vontade de experimentar é maior do que o contéudo em si. A faixa com o mesmo título do registro brinca com truques de filmagens bastante exarcebados, principalmente com efeitos de pixelização. É um clipe que procura exaltar nos espectadores as mais diversas sensações, sempre levando este ideal às últimas consequências. Pode parecer um trabalho bastante amador, mas é um ótimo exemplo de como Animal Collective parece estar sempre preocupado em causar a maior quantidade de tipos de reação possível em seus fãs, mesmo que para isso apele para um extremismo nocivo do audiovisual.

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MARCADORES: Compilação

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.