Aphex Twin, um Mito Genioso

Excertos, ideias e opiniões sobre o nome mais inventivo e produtivo da música Eletrônica

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O que define a genialidade na música? Boas ideias? Conseguir encaixar um solo de guitarra após uma pausa precisa na música? Criar um aplicativo “revolucionário”? Tão amplo quanto a abstração que esta discussão nos propõe, podemos dizer que o substantivo é um dos mais utilizados atualmente devido ao mundo midiático em que estamos inseridos. Gênios surgem e desaparecem na mesma velocidade que o Buzzfeed cria novos artigos, logo, podemos nos ver confusos em meio a tantos “extraordinários” e nos indagamos: “Somos bons o suficiente?”. O questionamento parece natural quando o assunto em questão é Aphex Twin.

Mais do que um produtor de música Eletrônica que ganhou atenção novamente na mídia após uma campanha bem-sucedida do Kickstarter ou pelo anúncio, após um hiato de 13 anos, de seu novo disco, Syro, Aphex Twin é um músico “cult”. Vale ressaltar que esse período de reclusão não significou falta de produção, pois Richard D. James, humano por trás do mito, sempre afirmou que a música é “um trabalho em progresso”, ditado pertinente, um dos poucos que o músico gosta de incorporar a sua vida – “afirmações fechadas são chatas, tornam as pessoas iguais e desinteressantes” -, pois este nunca parou de fazer sons e música, necessariamente nesta ordem. Sua história é rica em detalhes e nuances, mas dificilmente não conseguimos atribuí-lo ao título verdadeiro de “gênio”, ou seja, aquele que possui uma capacidade intelectual extraordinária e é por isso o alvoroço da mídia e fãs pelo seu retorno.

Desde pequeno, o infante Richard gostava de construir circuitos, sejam eles de calculadoras, rádios ou sintetizadores. O que aprendia de prático no colégio era incorporado aos seus projetos pessoais, sempre livres devido o livre-arbítrio que os pais lhe apresentaram logo cedo – ele podia fazer o que bem entendesse nos arredores de sua casa – e não é à toa que ele se tornaria um eterno curioso e constante produtor. Curiosamente, sua vontade inicial era criar sons e não músicas; tirar barulho do que pudesse ser programado ou captado; desejo que moldou o que hoje conhecemos como seu som, algo como música Eletrônica ambiente e ácida. Seus trabalhos como DJ na adolescência lhe dariam a bagagem para entender o que estava tocando na época e o que ele poderia criar a partir de seu histórico. Chega a ser dificil de verdade definir as trilhas, não músicas, compostas por Aphex Twin: são sonhadoras, futuristas, excêntricas? Todos estes adjetivos cabem bem na sua extensa discografia.

Richard pode ser considerado um gênio não só pela sua capacidade logo cedo de construção de máquinas sonoras ao seu favor, algo que só evoluiu com tempo, como uma recente entrevista à Rolling Stone afirmou: “Aphex usa robôs em suas composições”. Tal atribuição vem, por exemplo, por mais uma entrevista concedida em 1993 ao famoso réporter de raves inglês Simon Reinolds, raridade de um ser tão adverso à abertura em palavras. Nela, que pode ser lida aqui, o música afirmava naquele tempo – que ainda se mostrava um embrião ao excesso de informação – que conseguia “ouvir cerca de 6000 discos em um ano e saber todos de cor” e que, assim como Mozart afirmou uma vez, construía as músicas em sua cabeça. Muitas vezes, criava trilhas que ele descartava por “já ter ouvido em algum lugar” para depois retornar à produção por ter “efetivamente escutado em sua cabeça somente”. Se perdia no próprio fluxo constante de ideias e era considerado maluco há 21 anos , um drogado desvairado. Incompreendido como muitos gênios já foram – Einsten, Hawking e Hendrix, só para considerar alguns.

A incompreensão chega em sua própria expressão, a música. Escute por exemplo o seu “primeiro” LP (porque sua biblioteca musical criada excede a capacidade da maior parte da população em absorver músicas – muito som para pouco tempo de vida) e tente não se ver em uma trilha-sonora espacial perfeita para qualquer filme futurista como Blade Runner, Vingador do Futuro ou Minority Report. Selected Ambient Works 85-92 é uma das obras mais brilhantes já feitas na música, perceba as suas nuances sonoras, atmosferas e ambientes criados virtualmente, todos conduzidos com batidas descompassadas e inovadoras até hoje e tente não se chocar com seu expressionismo sentimental (a passagem pela melancolia, euforia e tristeza, todos sentimentos que Aphex construía muitas vezes sem nem os sentir verdadeiramente). São lapsos de ideias, eurekas, como gostamos de falar. Vale ressaltar que o trabalho contém faixas com quase 30 anos de idade. Isso porque estamos na “nova fronteira sonora da música”, a Eletrônica – para onde podemos expandir daqui?. Tal pergunta foi feita por Richard ainda jovem e respondida logo em seguida.

A progressão de trabalhos excêntricos, seguidos por artes ainda mais irônicas (como os discos I Care Because I Do, Richard D. James ou o EP Windowlicker, todos com seu rosto deformado e demoníaco sob as mais diferentes situações), nos mostra também que estamos lidando com um artista egocêntrico. Entrevistas escassas e sempre diretas, objetivas, ríspidas e secas, a sua saída de cena por “não aguentar mais o fãs” ou simplesmente uma situação em 1996 que, para contrariar os seus vizinhos que não aguentavam mais seu maquinário barulhento,o levou a fazer a festa de lançamento do disco com seu nome em seu apartamento. É um direito dele ser tão agressivo com a imprensa ou seus consumidores? Talvez, mas é a provável resposta de um músico que funciona à sua maneira e nas suas particularidades; seu ego. É por isso que seu retorno à cena musical é tão interessante, mas também sincero.

Mais velho e calejado, com filhos (um deles, o prodígio de cinco anos de idade que já “baixa programas de música no Pirate Bay e tem uma conta no Soundcloud”, Aphex Twin tornou-se mais “sentimental”. A aura ao redor do seu nome, que já teve discos fictícios mostrados em desenhos japoneses ou projetos orquestrados experimentais pelo Creators Project, fez o músico ficar um pouco menos “chato”. Seu projeto do Kickstarter para o lançamento de um disco perdido da década de 1990, Caustic Window, desejava modestamente 9 mil dólares e conseguiu mais de 60 mil, o que o encantou por saber que o disco estaria disponível de uma forma ou de outra na Internet, mas que não impediu as pessoas de continuarem a pagar e levando-o a “recuperar as experanças na humanidade”, segundo as suas palavras. Irônico ou não, era o ânimo que ele precisava para voltar à cena. Syro é a sua primeira obra lançada oficialmente em muito tempo e, possivelmente, a “sua mais acessível”. No trabalho de arte do álbum, temos todos os custos envolvidos na sua confecção, todos os instrumentos usados, Richard sabe que a Internet é um livro aberto, pra quê esconder-se atrás de seu trabalho?

Óbvio que a fórmula mágica para criar o seu mais recente trabalho não está lá, mas todos os ingredientes para experimentação estão expostos. O workaholic produtor era conhecido no início de sua carreira por não dormir – “se eu posso viver 100 anos, se não dormir, vivo 200 anos” – e, talvez, esta seja a nuance que define realmente o que é o seu som. Nosso corpo precisa biologicamente do descanso para o escapismo, para poder descansar e realmente sonhar. Ao confundi-lo, enganá-lo, começamos a delirar, o chamado “daydreaming”, e, dentro da lógica de atmosferas, ruídos, futurismo, vanguarda e música Eletrônica, o produtor encontrou uma forma de sonhar de olhos abertos, criando texturas e trilhas-sonoras de sua imaginação.

Sim, Richard D. James é um gênio de seu tempo. No entanto, como todos os que carregam esta alcunha, é complicado entendê-lo verdadeiramente. Logo, a nossa dica é: troque a compreensão pela sensação e você entrará em uma viagem sonora sem volta. Todas as faixas presentes neste texto foram tomadas de diferentes trabalhos de sua carreira, portanto, tente seguir esta ordem para se envolver de cabeça e abrir sua percepção para o famoso, oculto e excêntrico Aphex Twin.

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ARTISTA: Aphex Twin

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.