Arctic Monkeys: Culpados pelo Indie Ruim dos Anos 2000?

Segundo Ed Nash (Bombay Bicycle Club) banda foi responsável pela saturação do mercado Indie

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Em uma recente e polêmica declaração, Ed Nash, baixista do Bombay Bicycle Club, disse que os culpados por surgirem tantas bandas ruins no meio Indie nos últimos anos foram Alex Turner e sua turma, principalmente após o lançamento de seu disco de estreia, Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not.

“Quando Arctic Monkeys estourou em 2006, surgiram tantas bandas Indie que o mercado ficou saturado”, explica Ed, em uma recente entrevista ao site Gigwise. “A quantidade de bandas ruins era inacreditável. Houve um tipo de reação a isso e acho que esse é o motivo pelo qual você não encontra muitos Indies nas rádios ou ocupando a posição de headliners em festivais. O Indie era o maior gênero daquela época e começaram a aparecer coisas terríveis”, continua o músico.

Para mim, um grande erro, mas – em partes – Ed não está totalmente errado. Explico: Mesmo que o “fenômeno Indie” tenha ganhando popularidade no começo dos anos 2000, com The Strokes, Yeah Yeah Yeahs, Interpol e outros tantos nomes, foi somente a partir da metade daquela década que a Internet se tornou de vez o principal meio difusor das bandas independentes da época, inclusive Arctic Monkeys. A principal mudança que ocorria então estava na Web assumindo o papel que antes foi da TV ou do rádio, não exatamente em uma banda que se destacou demais no meio e fez com que todos seguissem cegamente sua sonoridade – até porque isso também havia sido feito meia década antes pelos nomes citados há pouco.

Alex e companhia podem até ter sua parcela de culpa, no que diz respeito a popularizar a música Indie, mas não são exatamente os responsáveis por fazer com que outras tantas bandas surgissem. É tudo uma questão de oferta e demanda. A demanda era alta para este tipo de sonoridade (principalmente pelo espaço que a Rede dava às novas bandas) e não demorou para que surgisse a grande oferta que aconteceu – e ainda acontece. A tal “saturação do mercado” de fato aconteceu e por isso muitos dos nomes surgidos na época realmente ficaram de fora das rádios (mas como já vimos, esse já não era o meio pelo qual elas se promoviam) e dos grandes festivais (que até hoje são dominados por grandes nomes, ou pelo menos por aqueles que conseguem atrair público). Ainda assim, isolar todo o que acontecia naquele ambiente e colocar a culpa em somente um elemento que estava presente nele me parece um erro no mínimo grosseiro.

Vale a pena dizer também que, juntamente ao boom da música, veio o boom da cobertura cada vez mais especializada dela – outro fenômeno que surgiu graças a Internet e àquele período (e a Arctic Monkeys também?). O que já havia começado há alguns anos se intensificaria a partir dali e cada vez mais novos sites e blogs se focariam um nicho bem especifico – nada diferente do que acontece ainda hoje. A proliferação de tantas bandas novas fez com que o principal papel destas publicações fosse basicamente filtrar e trazer à tona a música que mais combinava com o perfil do seu público – também nada diferente do que acontece hoje em dia.

É claro que bandas ruins surgiram. Isso é inegável, porém a relação causa-efeito (no caso, culpar a banda por isso) não faz sentido e, se a lei de oferta e demanda se aplica aqui, a máxima que o mercado se autorregula também cabe como uma luva em nosso exemplo. Muitas das tais bandas “ruins” da época já não existem mais. Uma vez que o público não adere aos tais grupos, sua longevidade se torna virtualmente impossível (é claro que outros tantos motivos podem colaborar ou ser pivô do fim desses tais artistas).

O que Ed parece dizer é basicamente que Arctic Monkeys de alguma forma revolucionou (de uma maneira ruim) o mercado. Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not pode até ser um divisor de águas, no que diz respeito à popularização da música Indie em meios “não Indie”, mas de forma alguma foi um disco que revolucionou o mercado como um todo. O que de fato aconteceu ali é que a Indústria já rumava para esse caminho e o estopim dessa nova fase (a que estamos vivendo agora) foi o tal disco (e isso é muito discutível). No fim das contas, o que gera a grande quantidade de música ruim que vemos hoje a própria saturação de um mercado que cria muita coisa – eventualmente obras que ficam abaixo da média. E a pergunta que fica é: Será que não estamos criando mais do que a nossa própria capacidade de consumir?

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts