Arlo Parks e a emoção criadora

Glastonbury, capa da NME e turnês pelos Estados Unidos: 2020 seria o ano da jovem britânica decolar de vez; mas, conversando com Arlo Parks, fica evidente que ela já voa segura

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Fotos: Charlie Cummings

Tudo é muito novo para Arlo Parks. No fim de 2018, a música “Cola”, com letra sagaz – “I’ll miss your T-shirt in the rain / The one the makes you look like Gerard Way” – começou a aparecer em rádios britânicas e logo pipocou de diferentes maneiras para o público. “Meu uber tava tocando isso. Estou obcecado!”; “Obrigada, algoritmo do Spotify”; “Achei esse som em uma entrevista que a Lilly Allen fala que ama essa música”. Esses são alguns dos comentários no videoclipe da faixa no YouTube. Não importa a maneira com que a jovem chegou aos ouvidos das pessoas, o caso é que o novo ouvinte provavelmente será fisgado pela voz doce, as letras emotivas e a batida delicada.

“Eu sempre digo que é uma mistura de vários gêneros: um pouco de Soul, de Indie e de Pop, criando um mundo próprio. Mas o principal (da música) é que ela é emotiva, ‘sensitive music’ eu diria.”, conta Arlo em entrevista ao Monkeybuzz. A maioria das canções do ainda pequeno catálogo nasceu em uma fase na qual a cantora ouvia muito Elliott Smith e Erykah Badu. E a fusão faz muito sentido.

Arlo ainda não completou 20 anos e ainda lançou um álbum de estreia e, ainda assim, já é um dos nomes mais promissores do atual som que vem do Reino Unido. A jovem subiu, profissionalmente, ao palco pela primeira vez em 2019, no The Great Escape, evento realizado em Brighton, com diversos shows e palestras – a maior vitrine para novos nomes da música britânica. Dois meses depois, subiu ao palco de um festival pela primeira vez. Logo de cara: Glastonbury, que dispensa comentários. Em 2020, por motivos óbvios, o festival não aconteceu, mas a BBC criou um especial televisivo com as performances mais marcantes do evento. Além disso, convidou alguns poucos nomes para apresentarem versões acústicas na fazenda onde o evento seria realizado. Arlo marcou presença.  “Foi estranho, só eu e várias vacas em volta, mas foi muito bonito. Aparecer na TV cantando para milhões de pessoas foi uma benção. Ano passado, quando me apresentei no Glastonbury, tinha terminado minhas últimas provas. Foi a minha primeira vez em um festival. Senti muita gratidão por ter acontecido do jeito que aconteceu. E ainda consegui ver shows de Tame Impala, Idles e Loyle Carner”, lembra ela toda entusiasmada.

O pai da cantora é nigeriano e a mãe, nascida na República do Chade, no centro-norte da África, cresceu em Paris. Arlo chegou a aprender a língua francesa antes da inglesa e, durante a infância, ouvia álbuns de Jazz que o pai colocava em casa. A paixão pela música também chegou pelo o tio, que a presenteou com sua coleção de discos. Crescer com esses empurrões instigaram as primeiras composições, desenvolvidas, em muita pretensão em seu quarto. Com o passar dos anos, a música se tornou um assunto mais sério. “Sendo honesta, me sinto inspirada por artes, pessoas e as relações entre elas. Eu me inspiro bastante indo a galerias, olhando para pinturas, assistindo a filmes. Em especial os de Hitchcock e David Lynch. Na real, eu posso encontrar inspiração em qualquer lugar”.

Em maio, Arlo lançou “Black Dog”, single que colocou ainda mais os holofotes sobre ela – e algo como último teste frente a crítica e público de que ela é uma das melhores letristas da atualíssima geração. A NME – que, na última semana, estampou Arlo na capa – classificou a canção como “a mais devastadora do ano”. “I’d lick the grief right off your lips” / “Eu lamberia a dor dos seus lábios”, diz o primeiro verso. “Essa música nasce do olhar de um amigo que quer ajudar o outro a enfrentar a depressão. A letra foi baseada em um poema que eu escrevi, sobre amigos que enfrentam problemas com a saúde mental. Quis falar de quando uma pessoa que você ama está sofrendo e o quanto isso pode ser difícil”

Um mês depois, ela lançou uma brilhante versão de “Creep”, do Radiohead, arriscado tiro – para uma canção já tão entoada por aí – que acertou o alvo. Arlo canta de maneira autêntica, coloca frescor e novidade, criando nova atmosfera para uma música que segue viva na cabeça do mundo todo a partir da marcante voz de Thom Yorke. E qual é o cover preferido de Arlo Parks? “Caramba. Essa é difícil, mas acho que ‘All Along The Watchtower’, do Jimi Hendrix, só porque é icônica. É o Hendrix fazendo um cover de Bob Dylan. Quão incrível é isso? E meus covers favoritos são quando o artista faz uma versão dele, tipo, não copia a música original”. Exatamente o que ela fez com “Creep”.

Em um ano e meio de carreira são dois EPs e alguns singles, todos gravados na casa de amigos ou em Airbnb. Ela nunca gravou em estúdio (!). Até mesmo a ótima “Eugene” foi gravada na casa de um amigo e lançada em fevereiro – e ganhou um clipe fofíssimo com a direção do rapper londrino Loyle Carner. “A gente se conheceu no Latitude Festival e, nesse dia, ele comentou que tinha vontade de dirigir algumas coisas com o irmão. Um tempo depois, ele ouviu ‘Eugene’ e perguntou se poderia fazer o clipe e eu disse que sim. Quanto ao processo de criação foi tão livre, colaborativo e divertido. Eu amei. E o curioso é que o primeiro show que eu fui na vida foi do Loyle Carner, então trabalhar com ele foi meio que um ciclo se fechando”

A pandemia forçou uma mudança de planos em todo o planeta e, com Arlo, não foi diferente. Ela iria abrir a turnê americana de Hayley Williams e seriam os primeiros shows dela nos Estados Unidos. “Eu tive altos e baixos durante esse momento estranho que estamos vivendo. No começo eu escrevi muito, vários poemas e tentei entender o que estava acontecendo e coloquei isso em música. Foi bem produtivo para mim. Li bastante, tipo coisas que lia quando era adolescente (não muito longe) e processei coisas que aconteceram na minha vida”.

Se 2020 não fosse o que tem sido, Arlo muito provavelmente teria lançado seu primeiro álbum – ou, no máximo, estaria com o material pronto para um lançamento no início do ano que vem. “Eu estou escrevendo no momento. Não tenho data, porque o mundo está muito maluco. Mas vai ser intimista, será sobre pessoas e fatos que me moldaram. Meio que minha vida até agora. Mas vamos ver, podem existir músicas sobre sonhos com uma pegada mais experimental, vamos ver. Pode ser qualquer coisa, eu estou aberta a pensar e testar”.

Além do aguardado álbum de estreia, quando o caos passar, Arlo quer honrar a longa lista de shows que haviam sido programados para 2020. Aguardamos uma oportunidade para um show por aqui. “Assim que eu puder, vou estar no Brasil, é meu sonho desde criança. Mal posso esperar”.

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ARTISTA: Arlo Parks