As 3 instâncias de NOG4YRA

Integrante do selo BICUDA, produtor porto-alegrense se inspira na psicanálise de Freud para criar as faixas de seu recém-lançado álbum de estreia

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Fotos: Clara Vasques

Nem um ano se passou desde que Una Nogueira começou a produzir suas faixas e o porto-alegrense já ganha destaque não apenas na cena local de sua cidade, mas na capital paulista. O BICUDA – selo, festa e rádio –, que nasceu a partir de idealizadores da famosa festa de São Paulo, abraçou o trabalho que inaugurou a trajetória do produtor pelo universo da música eletrônica.

Una, que assume o nome de NOG4YRA, lançou, em julho, seu primeiro álbum, 3 Instâncias, composto durante os primeiros meses do isolamento social provocado pela pandemia do COVID-19. O trabalho tem inspiração na investigação da psique humana, especialmente em discussões levantadas por Freud no início do século 20. Estudante de psicologia, o produtor trans não-binário constrói um rico cenário em sua obra de estreia, que já está disponível nas plataformas de streaming.

Para saber um pouco mais sobre sua curta e rica trajetória – que já conta com um set para a Mamba Negra e uma faixa para a coletânea CONVID-19 – o produtor bateu um papo com o Monkeybuzz.

Quando você começou a produzir e a discotecar?

Em agosto de 2019, comecei a produzir com uma DTX. Foi o primeiro contato que tive com a produção, logo depois, ainda no mesmo mês, comecei a tocar. No início, brincava com a CDJ quando tinha a oportunidade, em afters e tal. Com o passar do tempo, fui estudando e me aproximando mais, até tocar na TTTT, que foi minha primeira festa. Na verdade, desde o início, meu maior interesse era produzir mesmo, sempre tive muita vontade de fazer música, criar beats que eu tinha em mente, botar para fora e poder manipular os sons. A produção de fato começou em dezembro, quando fui realmente estudar e aprender, Até lancei uma track no meu Soundcloud naquele mês, ainda em 2019.

Como foi entrar e participar da cena de música eletrônica de Porto Alegre? No que você acha que ela se diferencia das demais no Brasil?

Me inserir nesse meio foi mais de boa do que eu imaginava. Eu acho a galera daqui bem acolhedora com novos DJs e produtores. Tive a sorte de ter muito suporte de amigos que já estão há bastante tempo nesse corre e que fizeram muita diferença nessa minha caminhada. Talvez por Porto Alegre ser uma capital menor, acho que rola uma maior aproximação da galera. O coletivo TTTT e a Plano foram fundamentais para eu conseguir me inserir de alguma forma, porque me deram essa chance de mostrar meu trabalho, assim como de outros DJs emergentes. Nunca tive a oportunidade de ter um contato maior (que não virtual) com a cena de outras cidades e estados, mas acho que Porto Alegre tem uma potência de artistas performances, DJs e produtores muito grande e de qualidade, sabe. Os coletivos daqui movimentam muita coisa massa e de alguma forma sempre tentam pensar numa perspectiva de coletividade maior, seja nas festas presenciais ou virtuais, tentando atingir um espaço que beneficie desde os DJs até a galera do corre da segurança, das vendas de bebidas, e todos que estão envolvidos de alguma forma com o movimento da cena.

A cena de músicos transgêneros tem crescido nos últimos tempos dentro e fora do Brasil, às vezes alcançando visibilidade até mesmo no mundo mais Pop. Além do óbvio talento desses produtores, a que você acha que se deve esse crescimento?  

Acredito que com o passar do tempo a música tenha se tornado mais receptiva a outros corpos que não cis, se desprendendo um pouco desse padrão cisnormativo. Mas é difícil falar disso no país que ainda é o que mais mata pessoas trans, fora que, de alguma forma, ainda estamos numa “bolha”, considerando que, no mainstream, essa representatividade ainda não é o suficiente. Ainda precisamos de mais pessoas trans na música e em todos os lugares.

“Com o passar do tempo, a música tem se tornado mais receptiva a outros corpos que não cis, se desprendendo um pouco do padrão cisnormativo. Mas é difícil falar disso no país que mais mata pessoas trans. Estamos numa ‘bolha’. No mainstream, essa representatividade não é o suficiente. Ainda precisamos de mais pessoas trans na música e em todos os lugares”

Como foi fazer parte da coletânea CONVID-99? E estar no meio de tanta gente que vem se destacando nesse cenário alternativo?

Poder participar desse VA foi um divisor de águas para expor e dinamizar meu trabalho. Foi uma grande honra participar de uma coletânea com artistas da quais eu sou fã e que são referências para mim. Essa oportunidade veio em um momento em que eu tava 100% focado na produção e com uma vontade muito grande de mostrar o que eu tava fazendo nesse processo de quarentena. Foi tudo!

Sua formação em psicologia desempenha algum papel na sua criação artística? Te traz alguma ferramenta nova para entender sua criação ou entender como as pessoas vão se relacionar como ela?

Com certeza. Eu tenho uma conexão muito íntima e de afeto com a psicologia, e, espontaneamente, ela se envolve nas minhas criações. Sempre que produzo algo tento unir com o que eu estudo. Acho que dá um teor bem diferente em relação à forma como vejo as produções, como se, de alguma maneira, inserir alguns conceitos trouxesse um novo teor à musicalidade. Uma reação que transpõe a música, porque ela mexe com nossas pulsões, e acho legal poder jogar com isso.

No seu release, você fala sobre id, ego e superego. Como essas estruturas da psicanálise freudiana se traduzem na sua obra?

É bem sobre isso de a música mexer com as nossas pulsões. Às vezes, os ritmos nos atingem de um lado mais inconsciente, mais primitivo, instintivo, libidinal. Essa seria a instância do ID, mais conectado ao prazer e a satisfação, abstinente de valores morais. O ID funciona sob a via da satisfação imediata, sob o princípio do prazer. Já o Superego é o oposto disso, ele representa a moralidade, é o “defensor da luta em busca da perfeição”, representa o bem a ser encontrado e o mal a ser evitado. Dito isso, o ego é o equilibrista dessas duas vias opostas. Tentei trazer um tom caótico ao álbum, usando vários synths em um mesmo espaço de tempo, tentando representar essas duas pulsões que a música nos provoca e com as quais nós lidamos diariamente, representando essa função do ego em lidar com elas. Essa jogada com as 3 instâncias também representa a minha própria relação com a criação do álbum, ao mesmo tempo que deixava o id me levar num sentido da diversão e do prazer com o processo, era atingido pela rigidez do superego de fazer algo coeso, em busca dessa perfeição, desse enquadramento.

Como sua experiência anterior como baterista soma para sua forma de compor música eletrônica?

Acredito que soma desde a discotecagem mesmo, o fato de ter uma relação mais próxima com as batidas, desde os beatmatchs à criação, dá uma facilidade maior. Recentemente comecei a produzir, com uma bateria eletrônica, então consigo fazer as batidas “a mão”, o que, para mim, se torna mais prazeroso no sentido da composição instrumental das tracks.

Como foi o processo de entrar para o selo BICUDArec? Qual sua relação com outros artistas que estão no catálogo do selo?

Foi um dos acontecimentos mais importantes até agora nessa jornada como produtor. A Bicuda é um selo que abrange desde produtores que já têm uma visibilidade maior a produtores emergentes, e acho muito significativo abrir esse espaço. Ver meu álbum ali ao lado de produtorxs como Perreli e a Sheefit é, realm uma honra mesmo. Já acompanhava o trabalho de grande parte dos artistas do catálogo, e pude também conhecer outros produtores e me aproximar mais de seus projetos com o lançamento do Convid-99. A Bicuda realmente somou muito na minha percepção e inserção na cena, sou muito grato.

Como foi o processo de composição do 3 Instâncias durante a quarentena?

O isolamento, além de todos esses acontecimentos desconcertantes, trouxe um combustível para descarregar muito dessa energia em arte e produção, talvez como uma forma de enfrentamento. Usei muito do meu tempo em isolamento no fazer deste álbum e acredito que se não estivesse isolado as coisas não teriam ocorrido da mesma forma. Poder ter ficado esse tempo em casa me rendeu muitas horas a mais de dedicação.

Tem planos para lançar mais projetos durante a quarentena?

Sim! Já estou produzindo outras tracks e, se tudo der certo, saem outros EPs ainda esse ano.

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ARTISTA: NOG4YRA

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts