As armas e os sonhos de Orochi

Com primeiro álbum nas ruas, rapper carioca afirma ostentação como discurso político e quer ir além do nicho do Hip Hop

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Fotos: Pedro Darua

“Se o Rap está repetitivo e reclamando das mesmas coisas é porque essas mesmas coisas não mudam. E reclamamos para o bem-estar dos nossos. É melhoria nas favelas, é justiça verdadeira para o preto pobre, é o fim do racismo. Enquanto existir discriminação nesses lugares, o Rap vai apontar.” Hoje com 21 anos, Flávio César chamou atenção ao ganhar a edição de 2015 do Duelo de MCs, grande batalha nacional de freestyle realizada em Belo Horizonte desde 2007. Nessa época, ele já se apresentava sob a alcunha de MC Orochi e começava a gravar seu vulgo na mente de quem acompanha a cena, e assim foi despontando em participações – e, mesmo vindo do contexto das batalhas, o carioca sempre soube jogar o jogo do mercado do Rap nacional e ganhou destaque para muito além do underground.

Mas foi sob a mira de um pesado estereótipo que o nome do rapper chegou com tudo aos noticiários: no ano passado, ele foi preso por porte de drogas e desacato à autoridade. “Isso me afetou de uma forma que eu não sabia que podia doer. Causou mal-estar na minha família, e isso não tem preço”. À época, houve uma série de informações desencontradas e equivocadas sendo divulgadas sobre o caso, uma irresponsabilidade (para dizer o mínimo) em um país tão punitivista como o Brasil.

Em “Nova Colônia”, última faixa de Celebridade (2020) – álbum de estreia do rapper –, o beatmaker Dallas usa uma gravação de um jornal no qual a repórter diz que no meio do público do festival, em que Orochi era a atração principal, havia homens fortemente armados, com ao menos dez fuzis. É curioso que ainda não se tenha formado consciência do poder destrutivo que uma afirmação dessas, seja por endossar o preconceito com determinados gêneros musicais, seja pelo próprio risco de vida dos artistas. “Foram muitas difamações, muitas mentiras que rolaram ao redor do episódio. Me colocaram com porte de arma! Todos sabem que minha arma é a palavra. Único lugar que eu atiro é em cima do palco, ali eu atiro na inveja, no preconceito, na maldade. Tenho consciência que não é só a minha causa que eu carrego, eu estou falando por muita gente. A minha melhor resposta sempre vai ser em forma de música”, completa Orochi.

O preconceito com tipos musicais é uma questão que atravessa a fronteira de afinidade ou gosto musical e compromete a própria validação das manifestações culturais como arte perante a sociedade. Sobre o Rap, que já desbravou um longo caminho no Brasil do início dos anos 1990 até hoje, Orochi diz: “É um estilo musical de denúncia mesmo. E quando falamos o que as pessoas não querem ouvir, surge o preconceito. O Trap e o Funk passam por isso também. Por serem estilos populares, de periferia, que falam da vivência que a sociedade impõe como marginal”.

Celebridade (2020) tem quinze faixas, todas com mais de três minutos, excetuando-se a “Intro”. Flerta com formatos diferentes do Rap, mas se escora principalmente no Trap, e traz Orochi contando causos, fazendo declarações de amor e falando de sua vida sexual, em meio a algumas críticas políticas diretas. Entretanto, expresso nas letras, o estilo de vida do MC traz debates a respeito de classe e raça sempre como pano de fundo: “preto e pobre também têm o direito de conquistar seus sonhos.”

“Me colocaram com porte de arma! Todos sabem que minha arma é a palavra. Único lugar que eu atiro é em cima do palco, ali eu atiro na inveja, no preconceito, na maldade.”

Quais foram as suas maiores influências no início da sua carreira?

Chorão, Travis Scott e Kanye West.

Qual é o propósito de Celebridade? E qual você acha que será o maior desafio?

Acho que o propósito é, primeiro, consolidar a minha carreira solo e fornecer um conteúdo mais completo para os meus fãs. Desde o início da minha carreira, eles me pedem muito por isso e, por eu ser muito perfeccionista, acabei soltando poucas faixas. Além disso, o propósito é passar essa mensagem de que preto e pobre também pode conquistar e vencer na vida, é uma autoestima que todos nós temos que ter. Acho que meu maior desafio vai ser levar essa mensagem para os meios de comunicação de massa diferentes dos que eu estou acostumado. Sempre dei muita entrevista para canais voltados para o Rap. Agora, quero alcançar mais pessoas com o meu som.

Por que você decidiu focar sua lírica em ostentação nesse álbum?

É pra mostrar que quem nasce preto e pobre também pode ter carrão, também pode ter dinheiro, também tem o direito de poder conquistar seus sonhos. Acho importante bater nessa tecla. No entanto, eu não gosto de me limitar apenas a isso, acho muito importante também apontar todo o racismo estrutural que está enraizado na nossa sociedade para conscientizar meu público a lutar pelos nossos direitos. Tem uma frase do Mano Brown que acho que resume bem: “Desde cedo, a mãe da gente fala assim: ‘filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor. Aí, passados alguns anos, eu pensei: como fazer duas vezes melhor, se você está pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito”. Por isso, quis mostrar que a gente pode, sim, conquistar, mas sem esquecer que estamos tendo que batalhar o dobro e que isso não é certo. Acho que expresso bem esse sentimento na faixa “Nova Colônia”, uma das minhas preferidas do disco.

“Como fazer duas vezes melhor, se você está pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito?”

Qual foi o melhor conselho que já te deram?

Acho que dois marcaram muito minha vida. O primeiro foi para investir na minha carreira solo. Foi num momento difícil, em que eu precisava crescer para ajudar nas contas de casa. E o segundo é que uma fase ruim é só um intervalo entre duas felicidades – frase que coloquei até no disco, na música “Nova Colônia”. Ela sempre me faz ter ânimo para continuar, para levantar todo dia determinado a vencer.

Três álbuns que marcaram a sua vida.

Tupac – All Eyez On Me (1996)

Charlie Brown Jr. – Camisa 10 Joga Bolta Até Na Chuva (2009)

ConeCrewDiretoria – Com os Neurônios Evoluindo (2011)

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ARTISTA: Orochi