As colisões e os dribles de “Delta Estácio Blues”, de Juçara Marçal

Com trajetória marcada pelo exercício contínuo de experimentação, cantora lançou hoje seu segundo disco solo – um trabalho de elaborada e inventiva tapeçaria sônica, que realça a multiplicidade de experiências musicais negras

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Fotos: Pablo Saborido

“A palavra diáspora”, descrevem os historiadores Petrônio Domingues e Kim Butler, “denota redes de relações imaginadas ou reais entre povos ou comunidades espalhadas cuja história é marcada por diversos contatos, comunicações e fluxos de pessoas, produtos, artefatos”. No livro Diásporas Imaginadas, os autores caracterizam a diáspora negra nas Américas como um espaço plasmado por diversos lugares, uma espécie de encruzilhada mediada por diferentes experiências negras, sem um centro único definido. “Por isso as mensagens estão por toda parte, viajando, circulando e assumindo múltiplos sentidos e significados”.

A multiplicidade de experiências musicais negras é realçada logo de cara em Delta Estácio Blues, o aguardado segundo álbum solo (mas coletivo) de Juçara Marçal. Escrita por Rodrigo Campos, a canção que dá nome ao disco fantasia um encontro fantástico de dois afluentes afrodiaspóricos, imaginando um outro contato transnacional e transhistórico em que Robert Johnson só se torna o lendário bluesman do Mississippi depois de conhecer os malandros Bide, Baiaco e Ismael Silva, expoentes renovadores do Samba urbano carioca. Juçara ressalta que o título não é por acaso. “Foi justamente por causa desse cruzamento e intersecções que têm no disco e que tem a ver com a música brasileira que a gente está fazendo agora”, explica, em conversa por Zoom. “Quando eu penso nesse samba do Estácio e no Blues, eu penso como dois grandes rios de onde surgiu muita coisa. São fontes que a gente está usando hoje — revisitando, mexendo, borrando, achando outras possibilidades”.

Com uma trajetória marcada pelo exercício contínuo de experimentação, a cantora destaca um olhar para a “inventividade” desses mestres negros dos anos 1930. “Eles estavam sempre inventando. Isso é muito importante para mim, sabe? Não é uma música que estava parada no tempo, como muita gente acha. Aqueles caras estavam inventando novos jeitos de fazer o Samba, de tocar na rua, de gravar e fazer o Samba tocar no rádio”, enfatiza. De modo análogo, a investigação de novas possibilidades sonoras e o livre reprocessamento da vastidão de informações musicais da diáspora é precisamente a energia que faz mover Delta Estácio Blues, uma conexão entre a lógica de montagem, loops e edição do Rap e do Funk com a polirritmia de musicalidades africanas.

O disco marca um processo criativo (quase) inédito para Juçara. Embora venha num caminho de crescente proximidade de sonoridades eletrônicas e ruídos, pedais de distorção e samplers, a cantora nunca havia participado tão ativamente da construção desse tipo de som. Em Anganga (2015), álbum de releituras dos cantos de trabalho de escravizados, ela cantou acapella, “no vazio”, e o produtor Cadu Tenório construiu os arranjos em torno de sua voz. Em Delta Estácio Blues, o processo é intensificado, sentido na pele. No início era o som e Juçara esteva lá, envolta em tudo, sampleando pequenos ruídos caseiros (como sons de portas e privadas), músicas do YouTube, discos de vinil e mais um pilha de cacos que foram minuciosamente montados para formar as bases instrumentais. “Construir desde o primeiro som até isso virar uma canção foi muito legal. Me fez sentir mais apropriada da música, mais dentro dela. Então havia mais liberdade para achar o jeito de cantar, porque eu fazia parte do processo. Não era uma coisa que foi trazida para mim. Eu estava dentro o tempo todo”, analisa.

“Quando eu penso nesse Samba do Estácio e no Blues, eu penso como dois grandes rios de onde surgiu muita coisa. São fontes que a gente está usando hoje — revisitando, mexendo, borrando, achando outras possibilidades”

Parceiro de Metá Metá (e vizinho de prédio), Kiko Dinucci foi o companheiro da cantora nas incursões pelos sons e dispositivos eletrônicos. Conhecido pela guitarra polifônica do Passo Torto, Metá Metá e de trabalhos com Elza Soares e Jards Macalé, Kiko vivia uma crise com o instrumento. “Teve um momento que eu pensei: “O que eu vou fazer? Já entortei pra cá, pra lá. E agora?”, comentou em entrevista de 2020. Diagnosticando um esgotamento de possibilidades, Kiko se uniu a Juçara e juntos mergulharam nos eletrônicos, fuçando novos caminhos com o Ableton Live e um sampler SP 404 da Roland — Juçara atribui a esta peça a sonoridade mais suja e cortes brutos do disco, porque “tem uma selvageria nela”. Intercalado por diversos outros trabalhos, este longo processo (Kiko mostrava prévias de beats aos amigos já em 2019) foi sendo maturado até dar origem a Delta Estácio Blues.

Reunindo estilhaços distintos de origens irreconhecíveis, o álbum é um trabalho de elaborada tapeçaria sônica com texturas saturadas — perceba como os instrumentos de ferro e metal, como o agogô de “Crash” e a mbira de “Baleia”, evocam os “congotronics” de Kasai Allstars e Konono N°1 e soam como corrente elétrica de fio desencapado. Até mesmo o som dos instrumentos tradicionais, não-sampleados, passam por manipulações e filtros que levam seus timbres para outros mundos, esculpidos com a mixagem de Renato Godoy. Em “Lembranças que Guardei”, por exemplo, os acordes da guitarra de Catatau se tornam uma poeira digital, enquanto os riffs de Kiko em “Ladra” soam mais como uma mbira e “Delta Estácio Blues” traz Paulinho Bicolor tocando uma cuíca que desliza entre os pilares do beat derretida em reverb e eco — resultado não muito distante da cuíca dub de Lee “Scratch” Perry.

Além da exploração de timbres e texturas, a rica confecção sonora do álbum conta ainda com uma sensibilidade polirrítmica particular, que, construída com os eletrônicos, criou cortes abruptos ou “solavancos”, como define Juçara. “O Kiko tem um sampler que ele trouxe da Alemanha e parece uma calculadora. E ele tem muita manha rítmica. E aí isso criou uma sonoridade meio atravancada, meio de vai e volta. As coisas que a gente gostava era justamente o que causava um estranhamento rítmico, que estava super no beat, mas parecia que saia do lugar, dava umas tosses”, detalha.

Em Delta Estácio Blues, a música ricocheteia. O suingue está lá, mas sempre com incerteza e ambiguidade — balança, mas dá rasteira. E o senso de vai-vem permeia também as canções do álbum, que pulam entre o sentimento de urgência explosiva e de esperança cintilante, compondo um retrato do encurtamento das possibilidades de futuro de uma terra em transe descendente. Com letra de Siba, “Vi de Relance a Coroa”, na abertura do disco, nos faz contemplar a grandeza do Reis Malunguinho (divindade do culto afroindígena da jurema sagrada) e o canto de Juçara aquece o coração ao descrever a sua “fuligem de brilho tão real”. Mas na faixa seguinte “Sem Cais”, escrita por Negro Leo, somos subitamente arremessados em um turbilhão no “mar agitado das praias de ultramar” sem boias para nos salvar. Retratando o sangramento da terra que cobre “a intolerância e a loucura de todos nós”, o cenário está para além além do apocalíptico: é uma catástrofe inimaginável e imensurável. “Emojis não vão qualificar”, canta Juçara, em um dos momentos mais tensos e sinistros desde “Ciranda do Aborto” em Encarnado.

A fé do oriki “Iyalode Mbé Mbé” e a nostalgia de “Lembraças que Guardei” contrastam ainda com o toque frenético de “Ladra” (de Tulipa Ruiz) e “Crash”, Rap de Ogi em que Juçara dá voz e corpo à ira e à força daqueles que são metidos em guerras que não queriam. Em permanente movimento, entre colisões e dribles, não há como estabilizar ou enquadrar o mosaico de sons e universos poéticos de Delta Estácio Blues. Não há cais para quem quer se soltar. Não tem cais para os sambistas do Estácio ou Robert Johnson, assim como não tem cais para Juçara Marçal, a maior cantora brasileira do nosso século, e seus movimentos contínuos de reimaginação da história e invenção do imprevisto.

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