As conjugações de Obinrin Trio

Conversamos com Elis, Lana e Raíssa sobre lançar um álbum na quarentena, novos hábitos, histórias do primeiro ano de banda e sonhos de carreira

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Fotos: Rebeca Canhestro / Amanda Rodrigues

Para a banda que passou quatro anos fazendo shows todos os finais de semana e lançou um disco na quarentena, cada dia dos últimos dois meses tem sido uma montanha-russa que passa por surpresa, medo, ansiedade, curiosidade e inquietude. Os olhos das três integrantes do Obinrin Trio acompanham diariamente os números de escutas de Origem (2020), álbum de estreia do trio. O disco foi gestado desde abril de 2018 e viabilizado por financiamento coletivo, então, apesar do isolamento social imposto para prevenção do contágio de coronavírus, Elis, Raíssa e Lana decidiram manter o lançamento para abril de 2020. “Quando aconteceu [a epidemia] deu um desespero muito grande, mas a gente decidiu manter [a data de lançamento], porque esse disco é para as pessoas. Está todo mundo sendo sustentado emocionalmente pela arte, as pessoas estão assistindo filme, ouvindo música, lendo livro – espero que depois disso a valorização dos nossos trabalhos seja um pouco maior. Espero que as pessoas percebam a grandiosidade que é fazer arte”, comenta Lana.

A audição marcada no estúdio em que o disco fora gravado foi adaptada: virou live no YouTube para amigos, convidados, pessoas envolvidas na gravação e apoiadores da campanha no Catarse; começou com uma mensagem gravada pelas três artistas e depois todos ouviram o álbum juntos. Apesar da aflição com as pequenas travadas de áudio do streaming, elas receberam muitos comentários enquanto o som rolava e, assim, Origem nasceu – e também a primeira interação com público que o trio teve na quarentena. No dia do lançamento oficial, fizeram uma chamada de vídeo entre si e Carol, produtora do Obinrin, colocou um vídeo de fogos de artifício, todas brindaram com água (ou com o que estava mais perto) e ouviram mais uma vez o trabalho assistindo aos fogos estourarem na tela.

Com cada uma em sua casa, Elis Menezes e as irmãs gêmeas, Raíssa Lopes e Lana Lopes, têm desenvolvido novos hábitos. Elis estabeleceu a meta pessoal de tomar um suco verde todas as manhãs, no qual ela geralmente mistura couve, bastante limão, pepino e espinafre; às vezes ainda faz um chá verde, deixa gelar e no dia seguinte substitui pela água do suco. Lana tem tido muita dificuldade para se movimentar, sair da cama, mas tem investido esse tempo em uma paixão recente: cinema; tem estudado muito direção de fotografia, sua área mais querida e visto muitos filmes. Raíssa diz que a única coisa que se mantém em todos os dias de isolamento social é o ritual para se desconectar, o que ela chama de “desligar a cabeça”: sentar no sofá, assistir alguma coisa que não exija pensar em nada, deixar o celular de lado. Com um novo ritmo e em crise de abstinência de shows, as musicistas paulistanas conversaram com o Monkeybuzz sobre o disco de estreia, financiamento coletivo, medos, referências e conselhos que a gente leva para a vida.

 

Foram 4 anos até o primeiro álbum de estúdio – por que a espera?

Elis: Na verdade, no primeiro ano de banda, a gente fez uma campanha no Catarse, em que a ideia era gravar um EP com as músicas que a gente tinha, foi do tipo Tudo ou Nada e a gente não conseguiu, mas continuamos fazendo shows. Conseguimos gravar o primeiro single “Solidão Vira Revolta”, que foi no estúdio em que a gente gravou o disco depois, então a espera pelo álbum foi basicamente por falta de dinheiro. No fim, acho que foi uma coisa boa porque foi tempo suficiente para a gente amadurecer as nossas músicas e surgirem novas composições.

Raíssa: E surgirem novas parcerias! De dois anos para cá, a gente tem conhecido muita gente e estamos nos juntando de um jeito muito doido. Participação da Josyara, Jadsa, por exemplo, a gente foi tocar uma vez lá na Bahia e a produtora que estava fazendo o esquema marcou um show com participação delas. Várias pessoas foram só surgindo e quando chegou no disco tinha um monte de participação foda para entrar, foi bom para somar outras vozes.

Lana: Enquanto a gente procurava formas de fazer esse disco ser possível, de rentabilizar da forma que a gente queria, no estúdio em que a gente queria, a gente seguiu fazendo muito, muito, muito show e trabalhando esse repertório, dichavando as músicas. Quando a gente chegou no estúdio era tudo o que a gente tinha e estava explodindo, tanto que só depois que a gente terminou a gravação que começaram a surgir composições novas.

Elis: A gente amadureceu muito individualmente nesse processo também. Desde quando a gente começou para 4 anos depois, a gente já conhecia mais coisas…

Raíssa: Tanto de composição quanto de letra. Tem músicas minhas de 4, 5 anos atrás que eu olho e nossa, pelo amor de deus…(risos). Quando a gente começou o Obinrin a gente fazia 2, 3, 4 shows por fim de semana todo fim de semana, a gente acabou o primeiro ano com mais de 100 shows.

Com quantos shows vocês estão agora?

Raíssa: Acho que deve estar com 400, por aí…

Elis: Acho que mais, talvez…

Raíssa: Tinha fim de semana que a gente ia para todos os extremos de São Paulo, sabe? Pegava uma amiga que tinha carro, enfiava todos os instrumentos e ia fazendo uma jornada. Terminou aqui no Centro Cultural Grajaú vamos para o CEU Butantã (risos). Foram muitos, muitos, muitos shows e as músicas, arranjos foram surgindo nos shows. Como a gente nunca tinha tido uma banda, a gente não tinha o costume de ter ensaios periódicos, esses encontros que toda banda tem. A gente só se encontrava para tocar no palco praticamente. Fora do palco para se divertir, no palco para tocar.

Como foi o processo desse último financiamento coletivo?

Raíssa: Foi uma decisão muito difícil, todo mundo estava com muito medo. Demorou um ano e alguns meses para o disco ficar pronto. Os primeiros seis meses de gravação, a gente pagou com os shows. A gente queria pagar tudo só com os shows, mas começou a ficar pesado para a gente, porque toda a grana ia para o disco e a gente ficava sem nada para viver e pagar as contas. Estava ficando muito difícil sustentar e a gente decidiu com muito medo fazer essa campanha do Cartarse para ver o que era possível, mesmo sabendo que é um momento de crise financeira…

Lana: A gente consultou muita gente antes de decidir, mas ao mesmo tempo três anos depois da primeira campanha, a gente sabia que já tinha multiplicado nosso número de seguidores, as pessoas que ouvem nosso som mesmo. Dessa vez, a gente tinha chance e não íamos fazer Tudo Ou Nada nem fudendo, por mais que a gente pudesse conseguir, a gente não tem coração para isso (risos).

Elis: E, com base no primeiro Catarse, a gente tinha batido quase 12 mil reais, as pessoas ficaram tristes que não deu certo e falaram ‘se vocês fizerem de novo, a gente ajuda de novo’; a gente salvou esse mailing e já sabia que tinha uma galera disposta a ajudar. O resto era batalhar atrás dessa base de seguidores, então já existia um pouco mais de segurança que ia dar certo, tanto que deu – graças a essas pessoas maravilhosas.

Eu queria que vocês me contassem um pouco sobre a percussão nesse álbum. Origem tem uma percussão pesada, de Samba, de Maracatu, não sei se é a referência correta.

Lana: Com um tempo tocando junta a gente percebeu que essa era uma coisa que acontece: as músicas vêm num ritmo meio marcado que quando a gente vai tocar para outras pessoas já puxa mais para o Coco, Maracatu, que são referências ancestrais.

Raíssa: Muita coisa a gente tocava e depois descobria: puts, isso aqui é um Jongo! Foram ritmos que foram surgindo bem do nosso corpo mesmo e a gente foi entender o que era durante o Obinrin: conhecer o Maracatu, Coco, Jongo, Ciranda, Boi, foram referências que foram surgindo.

Lana: Acho que foi muito importante viajar o quanto a gente viajou e tocar em festivais com outras bandas, porque isso que foi trazendo repertório também. A gente está o tempo todo ouvindo música, o tempo todo em contato com a galera, então vai internalizando, ficou impresso no disco e no nosso processo de criação. O ritmo sempre vem depois que a composição e a melodia surgem. A gente vai criando em cima do que já tem.

Elis: E o que não tem a gente fica: meu, precisa fazer uma Ciranda. A gente quer muito uma Ciranda, já tentamos transformar algumas músicas em Cirandas e não era o ritmo delas, não encaixava. Nesses últimos tempos de encontro surgiu uma ciranda, talvez esteja no próximo disco, finalmente!

“Muita coisa a gente tocava e depois descobria: puts, isso aqui é um Jongo! Foram surgindo ritmos bem do nosso corpo mesmo e fomos entendendo o que era durante o Obinrin: conhecer o Maracatu, Coco, Jongo, Ciranda, Boi, foram referências que foram surgindo” – Raíssa

Obinrin significa mulher em yorubá. Para o trio, o nome surgiu em uma madrugada, às pressas, porque o primeiro show tinha sido marcado para o dia seguinte. A banda em si como a conhecemos hoje ainda não existia, sem o repertório de covers para o dia seguinte e definitivamente sem o direcionamento sonoro sólido que encontramos em Origem (2020). Fora esse susto, as artistas enxergam Obinrin como uma união musical que funciona de forma muito orgânica: desde como o som é criado até como ele se espalha e conquista público.

Origem traz 32 minutos de respiro no meio do caos, em que vocais sensíveis e percussão marcada permeiam as faixas em plena harmonia. No geral, corresponde à alta expectativa de um álbum de MPB e surpreende positivamente como disco de estreia por ser tão coeso, certamente resultado da sincronia que o trio incrementou ao longo dos anos. Sem previsão de quando poderão voltar aos palcos, Elis, Lana e Raíssa reforçam a importância de se inscrever no canal dos artistas que você gosta, ouvir e compartilhar os discos com mais pessoas. “Quem não ouviu Origem, ouça. Quem já ouviu, ouve de novo”, Lana brinca.

Quais são as maiores referências da Obinrin, ou seja, do projeto conjunto? Assim, conseguem fazer um TOP 5?

Lana: Pensei em Renata Rosa, Alessandra Leão e Pietá, que a gente está esquecendo de mencionar nas entrevistas, mas é um trio muito importante para a nossa formação.

Raíssa: Ponto BR também que é um grupo da cultura popular que reúne vários mestres.

Elis: As Clarianas também!

Sabe quando você vê um filme que mexe muito com você, no final você fica tão impactada que fala “nossa, queria ter feito esse filme”? Queria que cada uma me dissesse uma música que faz você se sentir assim, uma música que você gostaria de ter feito.

Raíssa: “O Pedido”, do Elomar – essa música com Xangai também.

Lana: “Obatalá”, do Metá Metá.

Elis: “Na Pressão”, do Lenine. Eu gosto muito da letra e o arranjo de violão é foda.

Qual é o sonho de realização do Obinrin?

Raíssa: Eu sinceramente, neste momento, tenho um sonho de fazer um show de lançamento. Com pessoas. Abraçar pessoas no final do show.

Lana: Uma turnê de lançamento pode ser nosso sonho em comum!

Raíssa: Outro sonho muito grande do Obinrin é fazer show fora do Brasil também. A gente já vem pensando em possibilidades na América do Sul.

Elis: Também ampliar nosso repertório de instrumentos, trazer cada vez mais instrumentos de percussão para dentro da banda.

“A gente está tentando se adaptar com o pensamento de que é um momento de transição e esperando o melhor. Não gosto de ficar pensando ‘nunca mais vou poder’, porque vou ficando ansiosa e não dá bom para a cabeça” – Elis

Qual tem sido um grande medo?

Elis: De não conseguir mais fazer show. Além de tocar com a banda, eu trabalho com isso e tenho sentido muita falta. Não tenho ideia de quando isso vai acontecer e pelas perspectivas acho que até o meio do ano que vem, mas é uma visão bem otimista. Mas é isso, quero voltar a fazer show, passar essa energia através do palco.

Raíssa: Acho que um medo é de isso durar tanto tempo que a gente vai ficar numa posição insustentável, tanto financeiramente quanto psicologicamente. Meu medo é afundar.

Lana: Meu medo é o mesmo da Ra, inclusive eu ia usar a mesma palavra: insustentável. Eu tenho medo de chegar a esse ponto porque é bem enlouquecedor [o contexto atual]. A gente passou quatro anos trabalhando muito para acontecer, a gente dedicou tudo para esse disco sair, é o nosso principal trabalho, o projeto que a gente dá a vida e…não tem perspectiva de futuro. As razões vão se perdendo no meio dessa bagunça toda.

Elis: Ah, Lana falando isso me lembra: medo de não se adaptar a esse novo cenário. Cada uma está em um canto, até fazer live a gente tem mais dificuldade, sabe?

Lana: Eu passei por umas crises aqui em casa, começava a brigar com meus pais tipo que porra de live, eu não quero live nenhuma mais, como que eu vou viver sem conseguir fazer a única coisa que eu sei fazer, a única coisa que eu gosto de fazer? Já tive vários ataques desses, de ficar chorando desesperada, mas assim para ficar mais tranquila só tento não pensar muito nisso…(risos)

Raíssa: Acho que além de se adaptar, as pessoas têm que entender também que a situação é outra. A gente fazer uma live nas condições em que a gente está, eu sinto que as pessoas ainda têm muita vontade de que a live seja um show, a gente não tem mais essa expectativa.

Elis: As pessoas têm pedido bastante live, mas fica difícil de fazer porque só dá para entrar duas pessoas no Instagram. Quando a gente fez, duas vezes a Lana e a Ra, que moram bem pertinho, se encontraram, mas elas têm que se locomover e não é o ideal. A gente tem pensado em outras formas de entregar nossa música para as pessoas. A gente está tentando se adaptar com o pensamento de que é um momento de transição e esperando o melhor. Não gosto de ficar pensando “nunca mais vou poder” porque vou ficando ansiosa e não dá bom para a cabeça. Momento de transição: a gente tem que se adaptar com as ferramentas que a gente tem e ser muito honesta com as pessoas que a gente tem limitações e dificuldades por ser um trio.

“Foi muito importante viajar o quanto a gente viajou e tocar em festivais com outras bandas. A gente está o tempo todo ouvindo música, então vai internalizando, ficou impresso no disco. O ritmo sempre vem depois que a composição e a melodia surgem” – Lana

Última pergunta e individual: qual é o melhor conselho que você já recebeu?

Lana: O que mais me marcou foi do nosso primeiro show, em que a gente abriu para o Tião Carvalho e depois do show, ele veio para a gente e disse ‘olha, eu uso chapéu para poder tirar para quem merece’, e tirou o chapéu. ‘Por favor, continuem, não desistam’, falou. Muitas pessoas dizem isso para gente e eu entendo – porque acho que o mundo inteiro grita pra gente desistir, mesmo antes dessa pandemia –, então acho que não desistir, seguir em frente, seguir fazendo.

Elis: Um conselho geral da vida que para banda faz muito sentido, inclusive as meninas falam isso bastante para mim, porque sou uma pessoa um pouco estressada: respirar e ouvir o outro, de verdade assim, ouvir mesmo. Eu tenho um pouco essa dificuldade, elas sempre falam isso para mim e pessoas próximas do nosso processo de banda também.

Raíssa: Confesso que eu me identifico bastante com o que a Elis falou, de respirar, tanto pela minha saúde quanto pelo meu temperamento. Acho que duas coisas que eu ouço bastante e fica sempre muito marcado em mim é para falar, soltar as coisas, compartilhar tudo que estou sentindo, por mais que não seja compreendido pela pessoa que vai ouvir; outra é que eu posso contar com outras pessoas, tem outras pessoas que estão juntas de fato. Sei que não é um conselho exatamente, mas principalmente para nós três é importante saber que a gente está junta e pode contar sempre que precisar, para tudo.

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ARTISTA: Obinrin Trio