As imagens por trás de “IMAGEM”

Conversamos com ROSABEGE sobre seu primeiro LP e descobrimos que “The Life of Pablo” de Kanye West mudou a vida da maioria deles

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Fotos: Rodrigo de Freitas

João Lucchese, Pedro Caiado, Thiago Fernandes e Vitor Milagres são os meninos por trás do ROSABEGE, um quarteto de Niterói que, em certa medida, resume em seu primeiro disco IMAGEM uma série de dramas e preocupações da tal “geração millennial”. Futuro, corpo, afeto, tecnologia e espírito são os temas destrinchados sobre a sonoridade eletrônica do grupo. Em entrevista ao Monkeybuzz, cada um deles responde uma batelada de perguntas-chave sobre passado, presente e futuro. Confira o bate-papo depois de assistir ao curta-metragem homônimo que acompanha o LP.

Qual o disco que mais marcou sua vida?

Vitor: Impossível responder só um disco. Vou ter que colocar o A Farewell to Kings (1977) do Rush, que surgiu numa época em que eu nem ouvia música direito e entrei nessa pegada aí do Rock progressivo. Pré-adolescente, ainda. O outro e talvez mais importante pra minha vida profissional foi o Trees etc. (2015) do Naran Ratan. Tudo mudou depois que eu conheci esse álbum. Cresci muito como pessoa, me ensinou várias coisas sobre paciência e carinho. Talvez esse seja o que me sensibiliza mais. Por fim, The Life of Pablo (2016) do Kanye West. Divisor de águas no meu gosto musical. Se hoje eu busco fazer um som moderno, devo um pouco ao discão do Kanye. 

João: Um é difícil. Tiveram três muito importantes em épocas diferentes. Transa (1972) do Caetano Veloso, In Rainbows (2007) do Radiohead e The Life of Pablo, Kanye West. Todos me despertaram noções estéticas e conceituais que marcaram a abertura de novos caminhos pra mim.

Thiago: The Life of Pablo, do Kanye. E bateu de primeira. Até esse momento, eu não ouvia muita coisa nova, tinha uma ideia distorcida do que era produzido na atualidade – maior onda errada. Esse álbum fez eu abrir minha cabeça em vários sentidos. Lembro claramente da primeira vez que eu ouvi, foi uma sensação única, transcendental. Tem alguns outros álbuns que me marcaram bastante, mas coloco esse pela ruptura que me causou.

Pedro: Kero Kero Bonito, Bonito Generation (2016). O álbum me mostrou um jeito bonito e agradável de perceber a experiência humana.

Qual imagem nunca saiu da sua cabeça depois de tê-la visto?

Vitor: Em 2003, meu pai me levou num jogo do Botafogo no Caio Martins, em Niterói pertinho de casa. Foi Botafogo contra Remo e lembro sempre do estádio, do astral. Primeiro jogo que eu lembro de ter ido. Meu fogão é um charme danado.

João: Um corpo nu.

Thiago: Várias coisas me vêm à cabeça. Não consigo dizer apenas uma. Acho que, hoje, os hábitos nos demandam a processar muitas coisas ao mesmo tempo, talvez seja por isso.

Pedro: A atriz Linda Blair, em O exorcista (1973).

Qual artista ganharia um altar em uma religião alternativa e secreta fundada por você?

Vitor: Gilberto Gil, meu mestre.

João: João Gilberto.

Thiago: Não acredito muito nessa maneira de vangloriar pessoas. Tenho admiração e respeito por inúmeros artistas.

Pedro: Fela Kuti.

Qual é sua música favorita do IMAGEM e por quê?

Vitor: Muda sempre. Mas, hoje em dia, talvez seja “DE VEZ EM QUANDO” porque a produção dela foi um estudo importante para mim na época. Ela conta uma história importante da minha vida, estava tentando entender mais sobre os caminhos para manter uma relação de amor e amizade de um jeito muito honesto e vulnerável.

João: Nos últimos dias, tem sido “DE REPENTE”. Compusemos todos juntos. Ela carrega verdades que foi preciso muito esforço do grupo para que tivéssemos coragem de mostrar.

Thiago: “SIGO NUM SITE”. Acho que ela foi a que mais deu conta do que queremos passar, tanto liricamente quanto musicalmente. Traz coisas atuais.

Pedro: “SIGO NO SITE”. Sinto que ela resume bem os fluxos da banda. O baixo, a percussão, o arranjo meio colagem, os sons, as letras que aproximam e acolhem…

Qual é a coisa mais legal de trabalhar em grupo?

Vitor: A gente acaba se conhecendo muito. É massa ouvir o nosso som e entender algumas das escolhas que fizemos juntos. Vira um relacionamento muito gostoso e participar disso é interessante demais. A coisa mais legal, com certeza, é desenvolver esse tipo de intimidade. Conhecer uma pessoa profundamente já é muito lindo. Poder ter os três meninos evoluindo junto comigo é de uma beleza imensurável.

João: O encontro dos diferentes pontos de vista. A busca por encontrar um caminho rico no meio deles. Isso, claro, só é possível com a abertura e cumplicidade que desenvolvemos enquanto amigos.

Thiago: O suporte que cada um dá para o outro. Somos sempre pessoas com histórias, aptidões, ideias diferentes. Além disso gerar um “frankstein” bem único pela mesclagem de perspectivas, possibilita um crescimento enorme para cada um do grupo. O nosso processo é sempre um ambiente de aprendizado e troca.

Pedro: Acessar partes diferentes da sua subjetividade a partir do suporte que as potências dos outros te dão.

Acredito que a discussão aconteça em torno de se sermos a última geração a ter experienciado o mundo antes de uma grande ruptura tecnológica. Temos a referência de como as coisas eram, ao mesmo tempo que nos propomos a lidar melhor com novos hábitos, com a velocidade. Acho que, com a experiência, vamos entendendo os reflexos disso. – Thiago Fernandes

Qual é a coisa mais chata de trabalhar em grupo?

Vitor: Ah, todo mundo tem seus tiques, né? É meio doido lidar com algumas manias que não fazem parte da nossa história, mas que agora estão ali transformando o ambiente que eu vivo. Mas, eu boto fé que seja um exercício da paciência e empatia também para relação sempre melhorar. Essa manutenção do relacionamento pode ser chata, às vezes, mas é um crescimento suavão também. Tem que ver pelo lado bom porque eles, com certeza, têm que lidar com minhas noias também.

João: Conseguir lidar com a rotina de se encontrar diariamente e encontrar o espaço mental para criar e ouvir.

Thiago: Não é necessariamente ruim, mas é desafiador ter que estar todos os dias, lidando com as mesmas pessoas: é um relacionamento. Trabalho e amizade, às vezes, se confundem e, dependendo da situação, isso pode ser um problemático.

Pedro: Ir navegando meu próprio ego e o dos outros.

O que é criatividade e como canalizá-la?

Vitor: Acredito que tudo que a gente absorve no mundo fica guardado de alguma maneira. Daí, tento sempre exercitar a sensibilidade para acessar esse lugar e materializar as informações em algum tipo de estudo. Nem sempre esse estudo gera algum produto que tem lados mercadológicos, como no caso de um álbum. O próprio corpo sente a necessidade de ressignificar algumas cargas de energia para ficar mais leve e a arte sempre foi um lugar muito confortável para que eu pudesse depositar essas forças. A partir disso, eu tento canalizar desse jeito, fazendo escolhas que, às vezes, são mais tranquilas e, em outras vezes, são mais desafiadoras. Depende das demandas do corpo, também. Tem que respeitar o espaço que a gente habita, né? Mas, talvez, a resposta esteja por aí, flutuando em algum espaço entre a sensibilidade e o exercício.

João: Propor um espaço de sensibilidade e focar em materializar o sentimento. É um exercício diário.

Thiago: Acho que criatividade é só um estado de fluidez da mente em acessar coisas. Às vezes estamos nesse estado e às vezes não. Acho que quando nos propomos a perceber as experiências e refletir sobre elas, vamos ganhando mais prática nesse exercício.

Pedro: Para mim, criatividade tem a ver com manifestar os condicionamentos a que o mundo submeteu nossos corpos e mentes grosseiros dentro ou fora da arte e de formas mais prescritas convencionalmente ou não. Para canalizá-la no mundo da arte, eu gosto muito de pensar em estrutura e forma. E depois, pensar em como o corpo se relaciona energeticamente. Uma espécie de tato com essas formas e estruturas e seguir a partir daí. É um caminho que possibilita menos julgamento, já que uma forma específica para mim é associada com um tipo de energia específica, e ponto. Idealmente, não tem melhor ou pior. Tem só formas e energias que tem mais afinidade com o seu corpo: seja pelo afeto energético ou pelas formas disponíveis para o seu corpo produzir naquele momento. É claro que formas e energias, por existirem dentro de um contexto histórico, têm associações estéticas e memórias culturais específicas e esse é um nível a ser considerado também (principalmente no trabalho da ROSABEGE). Mas, para mim, ainda é corpo, energia e forma. Só que, em um corpo cultural mais sutil, é óbvio que os seus afetos estritamente pessoais já são parte desse todo, mas considerar esse corpo maior no processo dá margem para se comunicar de um jeito, às vezes, mais efetivo.

Qual as vantagens e desvantagens de ser um jovem millennial?

Vitor: Acho que é legal ter pegado o começo dessa vibe que têm as relações muito pautadas no ambiente digital, mas também há consequências baixo astral nisso aí para o jeito que a gente lida com as coisas. Principalmente porque a minha geração começou a lidar com isso logo na adolescência, que é uma fase muito esquisitona na vida da galera. As descobertas são cruciais, mas é uma idade em que a noção do que fica para o longo prazo ainda é muito conturbada. Depositar muito dessa época da vida em uma construção de “imagem ideal” dentro da virtualidade é interessante, mas também é super problemático. Essa construção acaba passando por uma força muito violenta de status e reconhecimento – pelo menos falando da minha experiência. Não tem muita saúde para cabeça nesse esquema de vida e isso eu só estou percebendo agora, podendo observar com um pouco mais de distância. Mas, além disso, foi muito maneiro ter curtido um pouco da música dos anos 2000. Foi muito bonito ver Niterói crescendo como cidade nesse tempo. É legal ficar lembrando dos meus primeiros celulares, lembrando de ouvir música naquele mp3zinho. Essas coisas dão um gosto legalzão.

João: Aí vamos descobrindo (risos)… O que vai ser resultado das escolhas que estamos fazendo hoje, nossos vícios, relacionamentos e projeções virtuais. Estamos buscando entender mais para tentarmos deixar um ambiente virtual mais saudável para as gerações que vêm.

Thiago: Acredito que a discussão aconteça em torno de se sermos a última geração a ter experienciado o mundo antes de uma grande ruptura tecnológica. Temos a referência de como as coisas eram, ao mesmo tempo que nos propomos a lidar melhor com novos hábitos, com a velocidade. Acho que, com a experiência, vamos entendendo os reflexos disso.

Pedro: Uma vantagem é ter acesso a muita coisa. O que dá a possibilidade de voar mais longe. Mas, uma dificuldade é que essas experiências são quase sempre virtuais e a nossa falta de concentração dificulta ter mais profundidade nelas.

Como seria o seu futuro utópico para a humanidade?

Vitor: Geral relax.

João: Com respeito às histórias e singularidades de cada povo. O Brasil se assumindo como um país desigual, subdesenvolvido, tomando atitudes autorais para encontrar sua solução própria de nação, sem imitar norte-americano e europeu. Um mundo de criação e troca saudável.

Thiago: Acredito que o amor e a compaixão são das coisas mais poderosas que temos enquanto seres humanos. Imagino um mundo em que todos tenham a oportunidade de aprender esses valores, poder experienciá-los e exercitá-los. Na minha opinião, isso ajudaria a resolver a maioria dos problemas que temos. Jesus, a maior figura histórica do mundo Ocidental fala sobre isso. Uma pena que instituições se apropriam de sua imagem para neutralizar suas ideias e continuar exercendo poder.

Pedro: Um futuro em que o corpo fosse profundamente contemplado no funcionamento econômico e que tudo funcionasse para gerar causas e condições propícias para um aprofundamento na realização espiritual da realidade e compaixão de forma específica para cada indivíduo.

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ARTISTA: ROSABEGE
MARCADORES: Entrevista

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