As Músicas de uma Vida em um filme Autobiográfico

Para sua estreia na direção e roteiro de um longa, Zach Braff conseguiu reunir suas músicas favoritas para contar uma história baseada em suas próprias experiências

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“Agora, sou um ator vencedor do Grammy”, anunciou Zach Braff ao receber o mais importante prêmio da indústria fonográfica em 2005 pela trilha sonora de seu filme Hora de Voltar (Garden State, 2004). Além de estrelar a produção, ele assina a direção e o roteiro do longa, além de ter sido o responsável pela premiada coletânea que acompanha as cenas.

O filme começa com a notícia que a mãe de Andrew (Braff) faleceu e ele precisa voltar para sua cidade natal pela primeira vez em uma década e rever seus conhecidos e o pai, um psiquiatra que o mantém escravo de diversos antidepressivos que o privam desde a adolescência de qualquer tipo de sentimento. Quando ele conhece Sam (Natalie Portman), alguém que lida diretamente com o que sente à flor da pele, Andrew é convidado a rever não só a cidade em que nasceu, mas tudo o que ele acredita sobre si mesmo e os outros.

A trilha deveria acompanhar todo o “renascimento” do protagonista com músicas que fossem sensíveis, sem que fizessem uma melodramaticidade exagerada. Como a história é baseada em acontecimentos e experiências do próprio autor, Braff abriu seu baú pessoal e compilou as faixas que ele mais ouvia enquanto escrevia o roteiro – obviamente, músicas que fazem parte de sua própria vida. Isso gerou uma sensação ainda maior de “sinceridade” à toda produção.

Mais parecendo uma mixtape pessoal, o disco traz modernidades (Thievery Corporation, Zero 7 e Frou Frou – a banda de Imogen Heap), clássicos de outrora (Simon & Garfunkel, Nick Drake), novos nomes do Folk (Cary Brothers e Iron & Wine – com uma belíssima cover de Such Great Heights, do The Postal Service) e bandas que despontavam na época (e permanecem relevantes até hoje), como Coldplay e The Shins.

Essa, aliás, é o grande destaque não só da trilha, mas também do filme. A cena em que a personagem de Natalie Portman diz que “esta música vai mudar sua vida” enquanto entrega os fones de ouvido para Andrew ouvir New Slang é uma das mais icônicas do cinema independente daquela década. Além dessa, Caring is Creepy, também do álbum de estreia da banda, Oh, Inverted World, está no disco.

The Shins – New Slang

Com um orçamento apertado de filme independente, Braff precisou ter jogo de cintura para conseguir os direitos das músicas. Pra isso, ele mandou aos artistas uma cópia do roteiro, explicando como cada uma das faixas se encaixaria perfeitamente na obra. Felizmente, a maioria das bandas e compositores toparam fazer parte do projeto.

Depois de assistir ao filme algumas vezes, fica impossível imagina-lo sem essas canções, ou mesmo com outras no lugar delas, tão grande é o envolvimento das músicas na própria narrativa. Isolada das imagens, a trilha de Hora de Voltar funciona perfeitamente bem para a trilha de qualquer dia, parecendo mesmo uma seleção das favoritas que algum amigo montou para você. Fica a dica.

Nick Drake – One of These Things First

Iron & Wine – Such Great Heights

Frou Frou – Let Go

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.