As Várias Faces De Rufus Wainwright

Com músicas conhecidas por estarem na trilha sonora de vários filmes, vale a pena conhecer a obra total do canadense

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No início deste mês, foi lançada (lá fora, por enquanto) a coletânea Vibrate – The Best Of, celebrando os dezesseis anos de carreira do trovador canadense-americano Rufus Wainwright. Não parece que já faz todo esse tempo que Rufus surgiu com seu primeiro disco, desfilando uma prosa musical cheia de referências que passavam bem longe do modelo Alternativo do fim dos anos 1990. A presença do arranjador extraordinário Van Dyke Parks, as composições, além da própria voz de Rufus, já eram elementos que mostravam o surgimento de um artista talentoso, de bom gosto e bem diferente do usual. Mesmo assim, poucos poderiam imaginar que aquele jovem, filho dos cantores Loudon Wainwright III e Kat McGarrigle, teria tanto para mostrar.

Rufus nasceu em Nova York, mas logo foi morar com sua mãe em Montreal, por conta da separação dos pais, quando tinha três anos de idade. Após viver uma infância feliz na cidade canadense, onde estudou piano desde os seis anos, Rufus retornou para a Big Apple a fim de cursar o high school na Milbrook School. Ele já havia ingressado na vida artística desde cedo, aos treze anos já excursionara com a irmã, Martha Wainwright, a mãe e a tia, Anna McGarrigle, como The McGarrigle Sisters And Family, além de conseguido colocar uma composição sua na trilha sonora de um filme canadense aos quatorze. Rufus nunca teve dúvidas sobre sua sexualidade, assumindo-se gay desde muito cedo e cultivando o gosto por música num sentido amplo, ouvindo de Blondie a cantoras líricas com a mesma curiosidade e interesse. Mesmo assim, não poderia ser tão simples lidar com a condição de gay num tempo em que a sociedade ainda estava engatinhando na questão do preconceito, o que levou Rufus a sofrer um grande trauma aos quatorze anos, quando foi estuprado por alguém que ele conhecera pouco antes, num bar próximo ao Hyde Park, em Londres. O episódio, no qual Rufus foi roubado e agredido, só escapando com vida por ter fingido um ataque epiléptico, causou grandes problemas a ele, que permaneceu sem contato amoroso/sexual com qualquer pessoa nos sete anos seguintes. A música, mais uma vez, assumiu papel importante na vida do jovem, tornando-se seu principal meio de expressão.

Rufus já se apresentava na cena noturna de Montreal desde cedo. Ao mesmo tempo, gravava fitas demo em casa, com a base dos arranjos restringindo-se a voz e píano. Seu pai ouviu alguns desses registros e mostrou a Van Dyke Parks, seu parceiro de longa data, que levou o material até o produtor Lenny Waronker, que conhecia as obras dos pais de Rufus. A partir desse momento, 1996/98, ele mudou-se para Los Angeles e iniciou o trabalho para o primeiro disco, a ser lançado pela Dreamworks, com a produção de Jon Brion e um total de 56 composições gravadas, das quais doze entraram no disco. O sucesso de crítica foi enorme e Rufus foi aclamado pela Rolling Stone como Melhor Artista Novo de 1998. Mesmo com a qualidade indiscutível, o álbum não fez sucesso entre o público e não foi ouvido fora dos Estados Unidos.

A vida de Wainwright também não era das mais fáceis e, por volta de 2000, ele era um dos hóspedes-residentes do célebre Chelsea Hotel, famoso moquifo novaiorquino que abrigara junkies variados ao longo do tempo. Sid Vicious, Leonard Cohen, entre outros. O vício de Rufus em metanfetamina tornou-se mais sério depois que ele lançou Poses, seu segundo disco, cujas canções foram compostas nesse período de hospedagem. Novamente o sucesso obtido foi muito maior junto à crítica, mas o álbum já renderia uma turnê em conjunto com Tori Amos e Ben Fold, além de posicionar Wainwright para participar de trilhas sonoras de filmes, o que ele faria com I Am Sam (2002), com uma versão de Across The Universe (The Beatles) e Shrek (2001), com Hallelujah, de Leonard Cohen.

Em 2003, Rufus anunciou o lançamento de Want One, que marcou sua ida para a reabilitação. Pouco depois de um ano, Want Two veio completar esse projeto musical de um disco duplo, lançado com intervalo de tempo. Dois anos depois, ambos seriam relançados como Want, acrescidos de um EP e algumas faixas bônus, antecedendo uma turnê pelo Reino Unido. Ele também participaria dos discos de Antony And The Johnsons ((I’m A Bird Now, 2005) e Burt Bacharach (At This Time, 2005). No ano seguinte, a ideia de homenagear uma de suas mais queridas cantoras tomou forma. Com dois shows no Carnegie Hall, ele apresentou o mesmo espetáculo que Judy Garland havia feito, na mesma casa, em 1961. Nas noites de 14 e 15 de junho daquele ano, foram gravados os espetáculos, com Rufus executando os mesmos números musicais, o que resultaria num CD/DVD ao vivo, lançado no fim de 2007, com o nome de Rufus Does Judy At Carnegie Hall. Além disso, um disco inédito, Release The Stars, seria lançado no mesmo ano, cheio de participações especiais, desde sua irmã, Martha, e sua mãe, até o trovador folk inglês Richard Thompson e seu filho, Teddy, além do pet shop boy Neil Tennant. Autoproduzido e com canções intensas e belas, sobretudo Slideshow, Release The Stars conseguiu estabilizar a carreira de Wainwright num patamar em que agradava à crítica, mas também já conseguia detectar o surgimento de um público cativo e crescente.

Rufus Wainwright passaria dois anos excursionando pelos Estados Unidos e Europa, lançando mais um disco ao vivo em setembro, chamado Milwaukee At Last, registro de uma apresentação de 2007, traz um approach bem diferente dos concertos em homenagem a Judy Garland. Se estes vinham na base da voz e piano, aqui a ideia era trazer uma pequena orquestra para o palco. Metais, cordas, além de teclados, baixo, bateria e guitarra, tudo a serviço das interpretações operísticas e derramadas, algo bem próximo do que poderíamos esperar de Elton John, se ele estivesse em seus trinta e poucos anos de idade. Um movimento inverso viria no disco seguinte, All Days Are Nights – Songs For Lulu, lançado em 2009, no qual as canções surgem em arranjos secos e objetivos, retratando a barra pesada que a família enfrentou por conta do diagnóstico de câncer em Kate McGarrigle, que morreria em 2010. O disco é devastadoramente sincero e doído. Mas o ano não foi só de tristezas para Rufus. Ele se casaria com o marchand alemão Jörn Weisbrodt. Além disso, fora “escolhido” por Lorca Cohen, filha de Leonard, para ser o pai de uma criança. No início de 2011, ambos anunciaram o nascimento de Viva Katherine Wainwright Cohen. Em 2012, com a produção de Mark Ronson, Rufus lançou seu mais recente álbum, Out Of The Game.

A música de Rufus Wainwright segue as tradições do Glam Rock mas não o faz por meio de guitarras altas e esbórnia implícita. A apropriação de trejeitos operísticos – que podem parecer exagerados – confere uma aura de refinamento e dramaticidade extras, além do canto tenor se prestar a grandes intensidades vocais, constrastando com a riqueza de detalhes dos arranjos. É algo que os entendidos gostam de chamar de Baroque Pop, mas talvez não seja o rótulo mais preciso. O que você precisa saber é que Rufus faz música intensa e universal. E você precisa conhecer.

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MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.