Atrás só não vai quem já morreu

Os 70 anos do trio elétrico segundo Armandinho, inventor da guitarra baiana e “irmão mais novo”, que, lá de cima, viu tudo desde o início

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Fotos: Arquivo Pessoal

“É invenção de baiano, que o mundo conhece e que chama de trio.” Nos versos ainda não divulgados, o guitarrista Armandinho Macêdo homenageia os 70 anos da criação que mudou o carnaval e ganhou o globo. Já foi garrafa, navio, espaçonave, diz a música, e hoje é o principal sinônimo da festa na Bahia. “É o trio elétrico.” A trajetória, curiosamente, não começou com um músico ou empresário, mas com uma brincadeira de um eletrotécnico e um metalúrgico. Em 1950, dois amigos, Adolfo do Nascimento, o Dodô, e Osmar Macêdo, paramentaram um carro e decidiram desfilar pelo centro de Salvador tocando frevo. Assim nascia o trio elétrico, que completa 70 anos em 2020.

Essa história já foi contada por aí pelas vozes de diferentes pessoas. Esta é a versão de Armandinho, filho de Osmar, inventor da guitarra baiana, irmão mais novo do trio elétrico e um dos principais nomes que subiram lá e viram a Bahia de cima.

No rebento de Dodô e Osmar

Dodô e Osmar desfilaram pela primeira vez em 1950. Por diversão, de forma espontânea, em meio a um desfile promovido pela prefeitura de Salvador. A estrutura era simples. Dodô alterou a bateria do seu Ford, que ficaria conhecido como Fobica, para fomentar o som do carro, reproduzido por dois autofalantes em forma de corneta, e, com cavaquinho elétrico e violão, os dois saíram tocando frevos pelas ruas do centro sob a alcunha “Dupla Elétrica”. “A referência eram os metais dos frevos pernambucanos. Meu pai adorava tocar esses frevos e começou a fazer os dele. Mas, em vez dos metais, ele coloca o cavaquinho elétrico. É como Moraes [Moreira] falou na música [‘Vassourinha Elétrica’]: a gente começa a fazer o frevo pernambucano com o sotaque baiano.”

Em 1951, o violonista Temístocles Aragão, o Temí, juntou-se a eles sobre uma caminhonete e assim surgiu o “Trio Elétrico Dodô e Osmar”. O desfile, simples, sem pretensões, passava a virar tradição. “Mas era mesmo só os dois, porque o triolim e o cavaquinho eram tudo a mesma entrada [no trio], então embolava, não dava certo. Tanto que não tem, desde o tempo da Fobica, uma foto com o terceiro integrante. Mas, como o nome pegou, ficou. Só que era para ser o nome do conjunto, eles nem imaginaram que ia virar a marca do trio.”

Armandinho nasceu no meio dessa folia, em 1953. Criança, via Osmar paramentar o carro na metalúrgica acoplada à sua casa. “A primeira lembrança que tenho do trio elétrico é de 1958, ele saindo da metalúrgica com todo mundo em cima, já pronto para tocar. Antigamente, era bem menor, não tinha essa coisa de encontrar na avenida com um carro, eles já saíam testando o som. Eu me lembro de estar chorando, querendo ir, porque eles estavam levando meu irmão mais velho.”

Com o tempo, outros grupos se entusiasmaram com a ideia e também criaram seus próprios desfiles. Dodô e Osmar, então, decidiram passar a vender as armações dos anos anteriores para os novos conjuntos e produzirem uma a mais para si a cada carnaval. “Todo ano era assim, trocavam a armação e vendiam a antiga. Mas quem comprava mudava o nome, ninguém escrevia ‘trio elétrico’, porque sabiam que esse era do meu pai e do Dodô. Os outros chamavam Conjunto Atlas, Conjunto Cinco Irmãos. Aí você via, passava um, dois, três… Mas o povo falava ‘lá vem mais um trio elétrico’ e meu pai dizia ‘não, Trio Elétrico é o nosso, somos os originais’. O nome foi ficando.”

Apesar de criadores, para os dois o carnaval era diversão, não business, e eles não tinham a intenção de largar os empregos que sustentavam suas famílias para se dedicarem à festa. O último ano em que Dodô e Osmar desfilaram foi 1961, onze anos depois da Fobica. Armandinho acompanhou pela televisão. “Eu cheguei a chorar. Televisão era aquela coisa completamente nova, chegou em 1960 em Salvador, então foi uma coisa muito forte.”

Se para eles era passageiro, para a Bahia, não. A ideia estava lançada e o trio elétrico, consolidado. Os diversos trios que tinham surgido ao longo do tempo seguiram fazendo seus desfiles ao redor da Praça Castro Alves, com destaque para o Trio Tapajós, do Seu Orlando Campos de Souza, um dos mais clássicos construtores de trios elétricos, morto em 2018. “Quando surgiu o Orlando, começou a virar mais indústria. Orlando era empresário, começou a lançar vários trios, trazer grandes patrocínios. Meu pai não tinha tempo para isso, consumia muito ele. Ele e Dodô tinham seus trabalhos de sustento e trio elétrico não era profissional, era para brincar o carnaval. Todo o tempo eles fizeram trio elétrico desse jeito.”

Sem muito tempo para se dedicar, mas também sem conseguir ficar longe da folia, a dupla decidiu lançar um trio-mirim, com os quatro filhos de Osmar, em 1964. Seria a primeira vez de Armandinho em cima de um trio, aos 10 anos, como solista do cavaquinho elétrico, instrumento moldado pela dupla, também chamado de pau elétrico, que consistia, como o nome já indica, em uma espécie de cavaquinho plugado, de timbre único.

“Meu pai tinha uma vontade tão grande de retomar aquilo que, como um trio grande não dava, ele decidiu fazer um pequenininho para os meninos brincarem. Aí ele botava esse trio, que era uma caminhonete, lá no centro e já emparedava com os grandes trios da época. O som era muito bom, Dodô cuidava muito bem dessa parte, o pessoal ficava impressionado. Meu pai se preocupava que as unidades dos autofalantes, aquelas cornetas, fossem importadas porque davam uma timbragem melhor. Os outros trios não conseguiam, compravam nacional e, naquela época, equipamento nacional ficava muito aquém, né?”

O trio mirim durou até 1966, mas Armandinho não deixou a música. Em 1969, aos 15 anos, foi ao Rio de Janeiro para participar do programa de Flavio Cavalcanti, na TV Tupi. Ele ficou mais seis meses na capital fluminense como contratado à rede de televisão, até ser obrigado pelo pai a voltar a Salvador para estudar. Neste tempo, foi se aperfeiçoando a mistura de sons nacionais e internacionais com o cavaquinho elétrico. “Eu tocava nas festinhas, Beatles, Jimi Hendrix, tudo o que a gente ouvia. Mas sempre acabava em carnaval, nos frevos de meu pai e de Dodô.”

“A primeira lembrança que tenho do trio elétrico é de 1958, ele saindo da metalúrgica com todo mundo em cima, já pronto para tocar. Antigamente, era bem menor, não tinha essa coisa de encontrar na avenida com um carro, eles já saíam testando o som. Eu me lembro de estar chorando, querendo ir, porque eles estavam levando meu irmão mais velho.”

Trio elétrico vira sinônimo de carnaval

Nos anos 1970, sob o período mais duro da ditadura militar, a Bahia vivia uma das épocas de maior agitação cultural. Caetano Veloso e Gilberto Gil haviam voltado do exílio político em Londres, Gal Costa, com Fa-Tal, era a maior cantora da época, e os Novos Baianos misturavam guitarra elétrica e cavaquinho para reinventar o samba com swing baiano. Armandinho fazia parte dessa turma. Sua vontade era levar toda a efervescência desse balaio baiano para cima do trio, que, até então, mantinha praticamente o mesmo molde instrumental dos anos 1950, com cavaquinho, violão e percussão. Em 1974, aos 20 anos, ele decide retomar o reinado criado pelo pai e, com a ajuda dos fundadores, coloca o Trio Elétrico Dodô e Osmar mais uma vez nas ruas e, pela primeira vez, nas gravadoras.

“Eu procurei Moraes – ele tinha saído dos Novos Baianos nessa época – para gravar uma música que meu pai e Dodô fizeram em homenagem aos 25 anos do trio. Ele queria que Gal gravasse, mas falei com Gal e ela não estava gravando carnaval naquele ano. Ele, então, falou com o dono da [gravadora] Continental e pronto, fomos para São Paulo.”

A música, “Jubileu de Prata”, deu origem ao disco homônimo, que Armandinho gravou sob a alcunha de Trio Elétrico Dodô e Osmar, com a participação de Moraes Moreira. O álbum, lançado em 1975, tinha a predominância de antigos frevos da dupla, colaborações do novo baiano, e pot-pourris que iam de Luiz Gonzaga a Mozart, executados no cavaquinho elétrico. “O negócio foi o maior sucesso.”

Nesta mesma época, Armandinho, que também compunha o grupo A Cor do Som, desenvolveu a guitarra baiana, hoje um dos principais símbolos do carnaval da Bahia. “Eu basicamente tocava cavaquinho elétrico, só que aí coloquei uma quinta corda, que deu um ganho de harmonia, de melodia. A quinta corda trouxe uma sonoridade diferente, alterada, para o instrumento, como o bandolim de dez cordas. E comecei a escrever nos discos que era uma guitarra baiana. Aí, todo mundo começa a usar a guitarra baiana.”

O carnaval da Bahia, tão tradicional, absorvia essa essência e consolidava sua marca própria: era o carnaval do trio elétrico, com gingado próprio, sabor único. Com o trio conhecido nacionalmente desde que Caetano Veloso gravou “Atrás do Trio Elétrico” em 1969, a festa não se reduzia mais a frevos e músicas instrumentais. Ganhava, então, composição de banda, com guitarra, baixo, bateria e voz. Armandinho estava à frente deste movimento junto a Moraes Moreira, considerado o primeiro músico a realmente puxar um trio cantando. “A partir daí muda tudo. No começo, o Moraes, numa noite de carnaval, cantava três vezes ou quatro. Porque o som era muito ruim para a voz, era aquele som de cornetas, não dava grave, não tinha peso. A gente começa a melhorar, colocar amplificadores potentes, inclusive para colocar o contrabaixo. E passa a ser tudo cantado.”

A moda pegou. Todo mundo queria subir e cantar em cima do trio. “Os Novos Baianos chegavam fazendo instrumental, quando eles veem Moraes cantando, viram que pode cantar. Lembro que Baby ainda pediu permissão: ‘ô Osmar, pode cantar no trio elétrico?’. Aí, meu pai: ‘o trio é de vocês, vocês cantam, vocês tocam, façam como vocês quiserem’. Aí Baby começa a cantar, o Paulinho Boca de Cantor. Depois veio o bloco Traz os Montes da Banda Scorpius, que depois virou o Chiclete com Banana, e todo mundo mais.”

Moraes Moreira e A Cor do Som - Anos 1970

“Lembro que Baby [Consuelo] ainda pediu permissão: ‘ô Osmar, pode cantar no trio elétrico?’. Aí, meu pai: ‘o trio é de vocês, vocês cantam, vocês tocam, façam como vocês quiserem’.”

Axé leva o carnaval da Bahia para o mundo

“Do final dos 1970, os conjuntos passaram a tocar A Cor do Som. [A banda] virou uma influência porque fez um sucesso danado. Saía, era o disco de carnaval, não tinha pra ninguém. Eu via o pessoal tocando ‘Zanzibar’, ‘Zero’… Só em 1982, 1983, começa a tocar a música do Chiclete com Banana, Luiz Caldas começa a colocar música. E assim começam a surgir as tendências. Como todo trio tinha virado banda, com cantor, cada uma foi chegando com o seu estilo.”

É na consolidação deste modelo que nasce a Axé Music e o carnaval da Bahia passa a ter uma nova sonoridade, que, anos depois, se tornaria o rosto da festa para o resto do país e do mundo.“O marco dessa mudança foi Luiz Caldas em 1985. Ele muda a estrutura do trio quando tira a guitarra baiana do disco dele [“Magia”] e bota o teclado fazendo as introduções. Como fez muito sucesso, o teclado passou a fazer parte do trio elétrico. Os trios passam a copiar a linguagem de Luiz e deixam de copiar a gente. O Chiclete mesmo durante um tempo ficou com a guitarra baiana de Missinho, mas de meados para o final dos anos 1980, quando a axé music passa a ser o carro-chefe dos trios elétricos, eles também adotam o teclado.”

Nesta época, como em toda mudança de estrutura, começam a surgir fissuras geracionais. Com novas bandas, novas referências e um público cada vez maior, o carnaval baiano passa também a atrair mais dinheiro e o mercado das empresas que gerenciam os blocos passa a ditar o ritmo. Surge a corda que separa os pagantes da “pipoca”, os populares. A divisão, hoje tão comum no carnaval baiano, era uma novidade para quem participava da festa havia décadas. “Os empresários começam se estruturar e pagar todos os sistemas radiofônicos. Em 1988, um radialista da Itapoan FM, a mais tocada de Salvador, falou que eles pagaram para tirar todos os discos nossos [A Cor do Som] para, a partir de agora, só tocar Axé Music e música afro.”

Isso impactou diretamente no carnaval. “A gente passou a não tocar mais. Eles fizeram isso inclusive porque usavam nossa introdução de guitarra baiana, mas eles não queriam, queriam mudar essa marca, essa sonoridade. Como o Durval Lelys, que é nosso amigo, falava: ‘primo, isso é igual um trem, se um vagão descarrilha, eles tiram fora, aqui todo mundo segue a orientação desse esquema’. Virou aquela coisa dos blocos.”

Era um caminho sem volta. Axé tornou-se o novo sinônimo do carnaval baiano e, sobre ele, se estruturaram os artistas que tornaram o ritmo reconhecido no mundo inteiro. Apesar de já não levarem a marca da sua guitarra, Armadinho vê essa geração como o último grande bastião da música baiana no carnaval.“Nesse movimento musical de Axé surgiram coisas maravilhosas. Tem Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Margareth [Menezes], Ivete [Sangalo], Claudia Leitte. Eles representam ainda a música do trio elétrico, pulsante, que vem da característica Dodô e Osmar, a célula materna desse movimento. É música baiana, que representa a Bahia.”

“Pernambuco prestigia os grandes mestres do frevo, Alceu Valença, a grande música pernambucana. A Bahia, com essa coisa empresarial desenfreada de vender abadá, camarote, perdeu essa essência.”

Família Macêdo e Gilberto Gil - Anos 1980

Trio elétrico hoje: muito dinheiro, pouca música baiana

O ritmo continuou predominante no Brasil até meados da primeira década de 2000. Desde então, há cada vez menos sucesso nacionais chamados de axé, menos artistas novos e menos repercussão. Os grandes, como Daniela e Ivete, se mantêm, mas, sobre o trio elétrico no carnaval baiano, hoje se vê diferentes ritmos, de diferentes culturas. O sotaque baiano se mostra cada vez mais raro e Armandinho, filho da terra, não vê isso com bons olhos.

“O que tem tocado hoje em dia nas rádios, durante o verão, por exemplo, é o pagode, o sertanejo, deu uma derrubada na música baiana de trio elétrico. Não rola mais essas coisas porque esses empresários querem colocar quem vende pro bloco, não estimulam música da Bahia. Eles botam sertanejo. Tá virando uma bagunça que não reflete mais a música baiana. Sertanejo puxando bloco de carnaval? Por mais sucesso que eles façam, vendam abadá, não nos representa. Não é da Bahia mais. Nada contra Anitta, Pabllo Vittar, são artistas maravilhosos, fazendo o sucesso deles. Mas puxar trio elétrico no nosso carnaval, pô, não é mais uma representação baiana para o mundo.”

Dodô, Armandinho, Osmar e Vinicius de Moraes - Anos 1970

Aos 66 anos, ele diz sentir saudade do carnaval mais simples e mais inspirador. “O que a gente fez, transformando [o trio] em banda, o que Moraes fez, transformando em música cantada, era pra ser um marco a ser prestigiado. Veja, Pernambuco prestigia os grandes mestres do frevo, Alceu Valença, a grande música pernambucana. A Bahia, com essa coisa empresarial desenfreada de vender abadá, camarote, perdeu essa essência.”

Parar? Jamais. Para ele, apesar disso, a música baiana há de resistir. “A gente continua fazendo o que sempre fizemos. Tocamos nossa música, eu continuo tocando a minha guitarra, absorvendo as coisas novas que eu gosto, lançando coisas novas. Nos shows, a coisa mais bacana é ver as diferenças de idade. Os meninos de 10, 11, 12 anos que adoram guitarra ficam vidrados. Nas apresentações tem um monte de cabeça branca e a garotada, é muito interessante. É o que alimenta a gente.” Em 2020, A Cor do Som completa 46 anos e Armandinho pretende seguir em cima do trio, com sua guitarra baiana e os frevos compostos por Dodô e Osmar.

Filhos de Osmar sobre o trio - Anos 2000

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