Barra por Barra: o descascar da cebola da masculinidade de TZ da Coronel

Reflexões sobre “Direto da Selva”, mais recente disco do artista carioca

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Fotos: Richard L. Copley

Barra por Barra é o espaço no qual o João aparece por aqui às sextas-feiras para falar de hip hop e de tantas outras coisas que vêm junto com a (enganosamente simples e definitivamente sedutora) ideia de “falar de hip hop”. Ritmo, poesia e opinião – com o João.

 

À primeira vista, Direto da Selva (2024) é apenas mais um disco do trap nacional mainstream: feats numerosos, rimas sobre meninas que frequentam camarins e beat do Nagalli. Dando um passo atrás (ou à frente, fica de acordo com a preferência do ouvinte), o terceiro disco de TZ da Coronel se revela um dos trabalhos mais substanciosos do rap brasileiro neste ano.

Em 2023, o ele lançou Dacoromode (2023). Com título inspirado em 21 Savage e formato e produção influenciados por Travis Scott e outros gringos, é um trabalho longo e repetitivo. Após sua pouco mais de uma hora de audição, saímos sem saber o quê ou quem é o “Dacoromode”.

TZ não comete os mesmos erros em Direto da Selva. Em um trabalho menor, ele consegue ser mais conciso e profundo, sem perder o tino dos hits (como em “Qual é seu desejo?”), que carrega desde quando o foco era o funk carioca. “Mano eu sou o Dacoromode / Um pouco de amor e o resto de ódio/ Falando o que vários menor sente”, ele canta em “Bagunça na Mente”.

Pessoalmente, tenho uma teoria de que Shrek é uma alegoria para homens negros, ainda que essa não tenha sido a intenção original dos autores. No primeiro filme, enquanto atravessam uma plantação de cebolas, Burro perturba Shrek, querendo saber o que significa ser um ogro. De maneira breve, quase evasiva, mas ainda assim precisa, Shrek pega uma cebola e diz que “Ogros são como cebolas. E as cebolas… Elas têm camadas”. Em Direto da Selva, TZ descasca de maneira instigante muitas de suas camadas. “Eles só são amigos do sucesso, ninguém vai sentir sua dor, ninguém vai te estender a mão”, canta em “Ando Só”. Incontáveis são as vezes em que ele, no topo do sucesso, diz se sentir sozinho, vazio – e ainda assim com missões a cumprir com as pessoas que ama e sem espaço para erros.

Direto da Selva começa com temas mais comuns e “superficiais” do trap (dinheiro, sexo, etc.) e termina com “Amanheceu”, rap gospel que não fecha bem o disco. Com participação de Neyriellen Ferreira, cantora e jurada do programa Canta Comigo, a faixa tem um virtuosismo vocal que, junto da letra de TZ e um beat genérico de trap de flautinha, resulta em um conjunto bem abaixo do restante do trabalho. Ainda que Deus e fé sejam importantes para TZ, a temática aparece de maneira mais interessante em outros momentos do disco, como no refrão de “Não Temos Medo”: “Pai me livrar do mal e me guia na escuridão / O senhor sabe qual é, qual é a minha intenção / O que tem no meu coração”.

Apesar do começo e do fim de Direto da Selva serem mais instáveis, no núcleo do repertório conhecemos a fundo as neuroses de TZ e sua relação com elas a partir da masculinidade – ou do que se espera de um homem negro em sua posição, tecendo um trabalho sensível, ainda que na embalagem “rude” da figura do trapper.

A canção que dá título ao álbum é o primeiro momento em que estes temas aparecem, com destaque para um vazio quase niilista. “Essas ruas são sombrias mesmo com a luz do sol / O meu coração vazio, sem espaço e sem nada”. TZ ainda resgata Racionais MC’s e estabelece um elo com o conceito de Eterno Retorno, de Nietzsche: “Num looping infinito de situação igual, será que o caminho da felicidade ainda existe?”.

Vazio e solidão perpassam a maioria dos momentos desse miolo de Direto da Selva, dividindo espaço ainda com o luto. “Eu vejo a violência no meu bairro/ Meu mano, eu só posso ver na foto / Lembro disso, nego, eu me revolto / Tu nem pôde ver as casas de show que eu loto”, ele rima em “Não Temos Medo”. Na mesma faixa, o rapper ainda (quase) se descobre comunista: “Várias têm muito, dobro tem nada / Parece que tem alguma coisa errada”.

A mistura de estar vivo, bem-sucedido, ser respeitado, mas conviver com tanto luto e solidão parece fazer TZ se sentir uma exceção. Há nele um senso de urgência para prover – e de certa forma, salvar – seus semelhantes, sentimento bastante presente na própria “Não Temos Medo”, quando ele diz que não pode parar até a família sorrir, ou quando se questiona em “Mente Além” com participação de Raflow (uma das poucas participações acertadas no disco): “Se é papo de representar no vulgo, tu vai ver minha favela / Como que eu vou esquecer dela, agora que a vida é bela?”

Direto da Selva é um corajoso descascar de cebola de TZ da Coronel, que, apesar de dizer não ter medo, confronta-se com eles durante todo o projeto. Seja não ser suficiente para sua família, ser traído por amigos, machucar a parceira sem sequer “dizer uma ou duas palavras”, ou até mesmo não ser um provedor de segurança. “Não posso sair de casa e voltar sem nada / Não posso te proteger com a mão desarmada”.

Ser homem negro na diáspora africana contemporânea invariavelmente passa pelo rap. O gênero é e tem sido uma das plataformas mais amplas e populares de performance de masculinidades negras e, na minha humilde opinião, o gênero sempre avança quando questiona a performance que se espera de homens negros. É o que aconteceu com Native Tongues e o rap alternativo nos anos 90, a treta entre Kanye West e 50 Cent, Tyler, The Creator desconstruindo sua masculinidade, entre tantos outros exemplos.

Em Direto da Selva, TZ da Coronel não necessariamente revoluciona sua performance de masculinidade, mas faz um movimento confessional corajoso enquanto permanece com refrãos cativantes e fazendo boas músicas — um destaque na cena do rap brasileiro. Diz que homem não chora, tá bom, falou.

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ARTISTA: TZ da Coronel