Bateu Uma Onda Forte – Volume 2

SOPHIE, Arca, Aphex Twin… Mais 10 clipes que viajam pela psicodelia gráfica

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Fotos: Reprodução

Há sete anos, o Monkeybuzz fez uma coletânea de clipes que explorava os limites da psicodelia gráfica. Reunindo diferentes técnicas, 10 animações foram selecionadas com o intuito de mostrar tanto as diferentes linguagens artísticas experimentais, quanto entregar aos leitores uma sequência de clipes imersivos, ideais para assistir naqueles momentos de sensibilidade sensorial aguçada (  ̄ω ̄ ). Curiosamente, entre agosto e setembro de 2020, talvez por conta do isolamento durante a pandemia e uma consequente vontade de se abster do caos que a realidade impunha, ele foi o texto mais acessado do site – o que me fez revisitar o artigo, publicado há mais de cinco anos.

A partir disso, constatei como as técnicas de animação, sobretudo dentro desse campo experimental/psicodélico, mudaram drasticamente. Não no sentido de uma melhora ou piora qualitativa, mas de como diferentes narrativas surgiram, impulsionadas pelo avanço exponencial da tecnologia da arte. Enquanto naquela época pensava-se nas diferentes ferramentas como prolongamento da subjetividade humana, hoje já encaramos um campo completamente novo dentro da arte feita por inteligências virtuais. A partir disso, as possibilidades se tornam (ainda mais) infinitas e, consequentemente, as narrativas que surgem ganham contornos surpreendentes. Sem mais delongas, aqui estão 10 novos exemplos de como a animação contemporânea permite ondas cada vez mais fortes.

AVISO: FOTOSSENSIBILIDADE/ ATAQUES EPILÉTICOS

Um percentual muito baixo de pessoas pode sofrer ataques epiléticos ou desmaios quando expostos a determinados padrões ou flashes de luz. A exposição a certos padrões ou fundos de tela em uma televisão ou durante a reprodução dos vídeos a seguir pode provocar ataques epiléticos ou desmaios nesses indivíduos. Se você, ou qualquer pessoa da sua família, tiver epilepsia ou já tiver sofrido convulsões de qualquer tipo, consulte um médico.

Arca – “Prada/Rakata”

Uma das técnicas de animação que tem sido cada vez mais explorada é o uso da captura de movimentos aliada às composições em 3D. Esta linguagem permite uma maleabilidade da realidade que configura a ela uma característica mutante e, seria impossível falar de mutante sem mencionar a artista multi plataforma Arca. Entre tantos clipes marcantes, encontramos na dobradinha “Prada/Rakata” a criação de um universo sagrado e distópico – apenas uma parcela do que é representado sonoramente na ambiciosa sequência de álbuns kick. O vídeo reúne figuras fantásticas, que fazem completo sentido dentro da mitologia de Arca, mas que nos instigam pela pluralidade de sentidos. ao final do clipe, temos a impressão de ter terminado uma odisseia, tamanho seu impacto. A animação foi realizada pelo artista Frederik Heyman e conceitualizada por Arca.

Magdalena Bay – “Dreamcatching”

Com o passar do tempo, Magdalena Bay se transformou de um tímido grupo de bedroom pop recomendado pelo algoritmo dos streamings a uma espécie de representante de um revival psicodélico digital. O clipe de “Dreamcatching” representa esse novo momento do duo de forma clara e incontestável. Criado pelo artista visual Max Kreis, o algoritmo usado para construir as texturas psicodélicas e vibrantes renderiza frames de vídeo em tempo real. Assim, o duo foi capturado com uma câmera e, na pós-produção, coloridos dessa maneira quase estroboscópica. É um daqueles clipes que parecem traduzir precisamente as texturas sonoras da estética do disco em questão.

Pouff – “Grocery Trip”

Esse é um dos clipes mais impressionantes dessa lista. Também realizado a partir de algoritmos, a ideia central é transcrever em imagens a fascinante experiência sensorial de ir ao mercado chapado. Tudo acaba ganhando um sentido completamente novo e, particularmente no caso do artista Pouff (compositor da música e diretor do clipe), a brisa escolhida parece ir por um caminho mais alucinógeno. Cada vez que fitamos o olhar nas prateleiras do mercado, ou nos rostos dos consumidores, temos a impressão de que entendemos alguns desenhos. Mas assim que estas figuras se movem um pouquinho, já ficamos novamente desnorteados. Talvez seja um clipe para assistir com cautela, pois ele dá uma mexida no estômago – principalmente pela sobreposição constante entre os animais e os consumidores.

Vinyl Williams – “Lansing”

Quando um artista é assinado pelo selo de Toro Y Moi, você sabe que aí vem um tempero psicodélico único. Mas Lionel Williams, nome por trás de Vinyl Williams,  não limita o seu experimentalismo aos ecos infinitos e harmônicos de sua música. Ele também traz um trabalho audiovisual muito focado na criação de mundos fantásticos – a partir de colagens, sobreposição de filtros VHS e renderização 3D. Neto do compositor John Williams, ele parece ter herdado o talento do avô a sensibilidade para criar narrativas em universos completamente únicos. “Lansing” é um dos exemplos de como somos tragados para dentro de nossas telas ao ver cores tão brilhantes reluzindo neste universo. Outra característica da obra audiovisual de Vinyl Williams é a forma como, através de uma linguagem VHS, ele criar um sentimento de nostalgia, apesar de nunca termos visitado esses lugares –não de forma lúcida e consciente, pelo menos.

Aphex Twin – “T69 Collapse”

Particularmente, quando penso na expressão “bateu uma onda forte”, me vem dois artistas à mente: MC Carol e Aphex Twin. O segundo, especificamente, emana essa onda forte a partir de um recorte altamente experimental da psicodelia. Seja utilizando glitches estridentes ou compondo trabalhos focados na ambient music, o fato é que Richard D. James é uma mente insaciável quando o assunto é o limiar entre a criatividade humana e o digital. Sua obra é tão grande que é difícil até mesmo ler um guia para compreender Aphex Twin. Entretanto, seus clipes nos dão uma boa noção visual de como sua mente parece funcionar – de maneira caótica e frenética. “T69 Collapse” traz indícios de um espaço sendo construído, porém realizado sob um filtro de colagens digitais que mudam a cada segundo. São muito estímulos visuais, portanto, tenha cautela ao seguir.

Dreamkiddo – “Blue”

Produzida por Dreamkiddo, “Blue” é, na verdade, uma releitura da canção “Wildflowers”, composta originalmente por Soccer Mommy. Esta versão ganha um viés mais onírico, trazendo novas cores à típica canção adolescente composta no violão. Para o clipe, o artista audiovisual Andri Wibowo engata uma narrativa em torno da solidão em meio à era digital. O fantástico e o cotidiano coexistem em um mesmo universo a partir de uma estética que se situa entre a computação gráfica dos anos 1990 e o traço cartoon de jogos digitais contemporâneos como Fall Guys. A canção de Soccer Mommy certamente ganha uma roupagem nova, impulsionando a letra altamente confessional para dentro de uma experiência de sonho.

Max Cooper – “Repetition”

Max Cooper é um nome de peso no audiovisual experimental, principalmente pela relação simbiótica entre sua música e seus vídeos. Trabalhando com inteligência artificial e vídeo, a obra de Max tem como característica um aspecto muito crítico feito sempre de uma maneira impactante. Dentre tantas possibilidades, temos o universo de repetições infinitas retratado em “Repetition”. Dirigido por Kevin Mcloughlin, as imagens hipnóticas nos colocam em estado de êxtase permanente, aludindo a uma mensagem de mostrar como a nossa realidade é intensa e desconcertante.

Lady Gaga, BLACKPINK – “Sour Candy”

Apesar do lyric video não ser considerado propriamente um clipe, quando se trata da produção de Lady Gaga essa regra pode ser revista. Seu disco Chromatica (2020) foi um respiro Pop durante a pandemia e o universo criado para contar as histórias mostrou-se repleto de possibilidades. Para criar imagens para a música “Sour Candy”, parceria com o grupo de K-Pop BLACKPINK, a estética escolhida parece ser um meio termo entre RPGs japoneses dos anos 2000 e os games de dança que faziam sucesso entre eventos de anime. O universo que Lady Gaga criou para o Chromatica é futurista com um toque de vintage, algo próximo do que seria o futuro se ele fosse pensado nos anos 1980.

Andy Shauf – “The Magician”

Os vídeos listados até aqui são bastante intensos e extremos, mas dentro da animação gráfica ainda há espaço para o suave e gentil. O compositor e músico Andy Shauf é o responsável por trazer essas medidas precisas entre psicodelia e intensidade dos estímulos. Através de colagem de fotografias antigas misturadas a filmagens de seu rosto cantando, Andy procura expor uma faixa mais suave do onírico, que juntamente a sua música melancólica e folk, nos permite dar um descanso daquelas cores vibrantes, mas ainda nos proporcionando uma viagem imersiva. É como se fosse um voo mais raso e constante, por entre figuras de livros e texturas antigas.

SOPHIE – “Faceshopping”

Por fim, a única pessoa capaz de encerrar com maestria essa lista é a produtora inglesa SOPHIE e sua obra completamente pautada nos excessos. Sem medo de hipérboles, a sonoridade da produtora influenciou o pop global a partir de suas composições distorcidas, agressivas, mas que encontram alguma particularidade dançante que nos prende. Seu único disco traz um concentrado das melhores características que a definem e, no clipe de “Faceshopping”, esse suco é vomitado na nossa cara. A crítica ao consumo é absolutamente direta quando a face da cantora é distorcida e amassada de diferentes formas – e com flashes jequiti style de produtos e maquiagens. É justamente nessa intensidade que SOPHIE constrói a sua linguagem: de destruição, mas que não parece ser fruto de uma ira descontrolada, mas uma afronta direta à ordem do dito normal na contemporaneidade.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.