Beach Punk: A Herança Anárquica

Jovens que cresceram sob a influência do Punk e Surf unem as duas vertentes neste estilo empolgante

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Quando, há alguns dias, me foi delegada a tarefa de escrever a resenha para o recém-lançado EP de Oberhofer, Notalgia (que eu não conhecia até então), pressenti algo que me parecia coerente. Após associar imediatamente, por conta de minhas referências pessoais, a excelente música com algumas outras bandas de Indie contemporâneo (a saber, mais especificamente, Beach Fossils e The Drums), dei uma breve pesquisada, e, após descobrir que todas provinham do bairro nova-iorquino do Brooklyn, embora fizessem uma espécie de Surf Music, pensei comigo: tem algo acontecendo aí.

Na ocasião, eu escrevi o seguinte: “O fenômeno bem sucedido da Surf Music nova-iorquina parece não fazer sentido a princípio. Como jovens do Brooklyn, bairro de uma das maiores metrópoles do planeta, se apropriam das guitarras cheias de reverb com riffs pegajosos vindas das ensolaradas cidades litorâneas para mesclar temas outrora reivindicados por algumas vertentes do Punk Rock, tipicamente juvenis e inconsequentes?” E, assim, nomeei esta nova cena, (que eu não sabia, até então, se já estava consolidada como estilo, de fato) de “Surf Music Punk da cidade grande”.

Após alguma pesquisa, a fim de provar (para mim mesmo) meus pressentimentos, cheguei, enfim, aos dados irrefutáveis. Conhecido mais amplamente por Beach Punk, e menos extensamente por Surf Punk (acertei!), o movimento, pelas sub-vertentes que agrega, ganha até umas definições de nome bem legal como Radcore.

Unidos obviamente pelas guitarras e vocais cheios de reverb, as associações dos grupos podem ser feitas em diversos níveis: integrantes jovens (ou com cara de), roupas largas de flanela, no melhor estilo revival noventista peguei-do-irmão-mais-velho, com letras que falam sobre diversão de finais de semana e amores de verão, soando em sua grande maioria despretensiosas. E, ah sim, é claro, este corte de cabelo. O que nos deixa com esta sensação mesclada de influências Garage Rock, visual Grunge, espírito Punk, vibe Surf Music e estética Lo-Fi

Enfim, a cena conta com diversos grupos com referências em comum, embora cada uma apropriada à seu modo. É claro que as referências Surf dentro do universo Punk não são uma exclusividade atual. Os dois movimentos, jovens e anárquicos, cada qual a sua maneira, tem muitos pontos de intersecção. Vocês se lembram disso?

Mas esse arranjo (e que arranjo!) de Holiday in Cambodja é praticamente uma exceção à regra dos Dead Kennedys. E as letras estão longe de serem despretensiosas. Provavelmente por ser proveniente da Califórnia, a banda soube usar das mesmas referencias a seu modo. Vários exemplos do gênero podem ser citados de diversos lugares, mas, aqui vou separar as principais referencias vindas do Brooklyn (afinal, foi justamente isso que me chamou a atenção, para começo de conversa), que, pelas várias razões citadas, configuram uma (nem tão) nova cena contemporânea. Vamos ver um pouco mais de perto…

The Drums

Os amigos de infância Jonny Pierce e Jacob Graham, lançaram seu primeiro EP, Summertime!, no final de 2009 e já obtiveram grande atenção da mídia, figurando como umas das grandes promessas para 2010. Seguindo todas as características que eu citei anteriormente, mas talvez um tanto mais nostálgicos que as outras bandas do gênero, The Drums têm uma grande influência de bandas britânicas como The Wave e The Smiths (as linhas vocais desse refrão aqui não te lembram, de algum modo, esse aqui?). Até agora o projeto tem 3 álbuns lançados, Summertime! de 2009, The Drums de 2010 e Portamento, do segundo semestre de 2011. Um de seus hits mais cativantes, o Let’s Go Surfing, é do segundo deles.

Os dois amigos anunciaram, recentemente, o lançamento, para este ano, de seus respectivos projetos solos, sob os nomes de Jonny Pierce e Cascading Slopes, respectivamente. Fiquem de olho.

Beach Fossils

Formado em 2009, mas com o primeiro lançamento no início de 2010, o auto-intitulado Beach Fossils, os meninos chamaram minha atenção quando os vi pela primeira vez tocando essa versão acústica de Daydream nesse banheiro:

Após o lançamento do EP What a Pleasure, de 2011, tivemos o lançamento de mais álbum, Clash the Truth, deste ano, considerado por muitos como um amadurecimento do projeto, menos agressivo, e pendendo mais ao lado do Dream Pop do que seu primeiro álbum.

Um dos seus integrantes, Zachary Cole Smith, mantém, paralelamente ao Beach Fossils, seu próprio projeto, DIIV, seguindo a mesma linha do gênero, mas no qual figura como compositor principal. De colaborador da banda à frontman, os dois projetos mantém equivalência da qualidade sonora e ambos valem a visita:

Oberhofer

Brad Oberhofer, um jovem de Tacoma, começou seu projeto de nome próprio quando se mudou para Nova Iorque, e, residindo em no tão fatídico bairro do Brooklyn iniciou suas gravações no ano de 2008. Todavia, seu primeiro single, com um nome divertido de escrever, o0Oo0O0o, foi lançado somente em 2010, projetando o garoto e lhe rendendo turnês ao lado de bandas como Sleigh Bells, Neon Indian, e The Morning Bender.

Com um álbum e um EP mais contundentes lançados, respectivamente, Time Capsules II, de 2012 e Notalgia desse ano, há algumas semanas lançou um projeto, que, partindo do pressuposto de ser iniciado e finalizado em apenas um dia, acabou dando resultado ao EP Cannibalism, Freud, Night of 3.15.13, Morning of 3.16.13.

Excelente!

Bônus Track

Embora mais distorcido e recaindo mais ao Garage Rock que seus companheiros de gênero, uma banda chamada Wavves merece a citação no artigo (na verdade, uma série de bandas excelentes valem a menção, como Real Estate, Mac Demarco, Wild Nothing e Best Coast). Comecei este artigo dizendo que iria recortar o gênero à três bandas do Brooklyn, mas agora encerro ampliando o tema geograficamente e deixando este já vasto cenário livre para ser desbravado, com algumas sugestões posteriores.

A californiana Wavves lançou, após dois álbuns mais experimentais, Wavves e Wavvves, de 2008 e 2009, respectivamente, seus trabalhos mais contundentes como o excelente King of the Beach, de 2010, e o EP Life Sux de 2011. Este ano tivemos mais um trabalho, Afraid of Heights que já os consagra como um dos maiores nomes indies de Beach Punk da atualidade.

Sofrendo um revival Surf, jovens que cresceram sob a influência Punk e Grunge das cidades grandes estão vivendo um momento excelente, de uma nova cena já consolidada. Os nomes são inúmeros, e, embora apostem em sua maioria numa estética Lo-Fi, todos produzem trabalhos de muita qualidade. É um estilo empolgante e vale a pena vasculhar mais. Espero que o artigo tenha sido uma boa introdução a um tema que venha a ser recorrente na sua playlist, assim como é da minha.

Aloha!

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Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.