Beck e Gainsbourg

Conheça a história de influência, admiração e relações que produziu grandes álbuns

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Grandes álbuns são tão interessantes que chega a ser (quase) fácil escrever sobre eles, não fosse a profundidade dos assuntos que evocam. Material sobre trabalhos marcantes parecem fluir naturalmente e exemplos não faltam. É só checar nossa seção Fora de Época, recheada de boas provas.

Em geral, os “melhores álbuns da sua vida” costumam marcar presença em três etapas: o interesse emocional, pré-racional, de identificação com melodias e fragmentos de letras, que é seguido pela vontade de acompanhar as letras mais a fundo, assim como conhecer a estrutura dos arranjos mais minuciosamente e conhecer os temas em torno dos quais o álbum transita. Por último, não é raro notar também um interesse que evoca todos os procedimentos de elaboração do trabalho, que vão além da música em si, como os instrumentos utilizados, quem foi o produtor (as histórias de Chilly Gonzales sempre são tão interessantes), casos sobre o período de gravação (como a famosa tensão que envolveu os integrantes de The Smashing Pumpkins durante a gravação de Siamese Dream) e, além disso, as inspirações das pessoas envolvidas no processo, de temas pessoais (a triste história de relacionamento abusivo de Peter Silberman em Hospice de The Antlers) à referências musicais

Justamente sobre estas últimas, o ditado que diz sobre “sentar-se sobre ombros de gigantes para ver mais longe” parece funcionar. Digo tudo isto inspirado por Beck, que graças à seu último (e belo) trabalho autoral, Morning Phase, coloca a última peça na malha do quebra cabeças que remete à muitas relações pessoais e referências passadas…

Vamos começar por Sea Change. O álbum é um marco na carreira de Beck, pois inaugura uma fase extremamente confessional do autor, que enfrentava um período muito difícil após terminar o relacionamento de nove anos com sua noiva, na época. Sea Change é uma transição brusca da psicodelia funkeada e dos flertes com o Hip Hop dos álbuns anteriores de Beck, todos bastante experimentais, para os arranjos mais lúcidos, cristalinos, melancólicos e melódicos de sua (então) nova fase. O álbum por ser extremamente confessional e de um teor depressivo, natural pós fim de relacionamento, foi comparado às grandes obras de Bob Dylan (como o ótimo Blood On The Tracks) e Nick Drake. Mas a grande referência de Beck para este trabalho reside em outro lugar. Apostando no timbre grave de sua voz e em arranjos sofisticados de cordas, Sea Change é notadamente inspirado em Histoire de Melody Nelson do francês Serge Gainsbourg.

A admiração de Beck por Gainsbourg é declarada na música Paper Tiger, na qual há uma citação explicita da orquestração presente em Histoire de Melody Nelson (caso o clima já não fosse similar o suficiente). O que começou como uma homenagem que visava atingir a sonoridade de Melody Nelson como um pastiche assumido acabou por influenciar todo o clima melancólico de Sea Change, este último servindo (como aconteceu por vários momentos em sua carreira) como porta de entrada para o público no universo de Serge Gainsbourg.

Alguns anos mais tarde, em 2009, o experimentalismo de Beck volta à tona em sua estreia como produtor, justamente com a filha de Serge, Charlotte Gainsbourg. Beck compôs todas as músicas (com exceção de Le Chat Du Café Des Artistes), produziu e mixou as faixas de IRM. De volta à sua influência experimental, a sonoridade do trabalho evoca uma atmosfera percussiva, melancólica e dura.

Empresto as palavras de Gabriel Rolim sobre IRM (você pode mais sobre os outros trabalhos dele como produtor neste artigo aqui):

“O seu primeiro trabalho foi feito em 2009 com Charlotte Gainsbourg, filha de um dos maiores compositores de música francesa de todos os tempos, Serge Gainsbourg. Em seu disco IRM, Beck faz uma participação especial na música Heaven Can Wait, além de produzir e mixar a obra. Nessa faixa, podemos ver a fase mais atual do camaleão, com um ritmo mais calmo, um certo ar melancólico e os toques de “dramédia” de seus recentes lançamentos.”

A influência de Serge Gainsborg, que ditou o clima do trabalho marcante de Sea Change, e que aproximou Beck de Charlotte, inaugurando sua faceta de produtor, atinge o último capítulo (pelo menos até agora) desta história de influências e relações do passado com Morning Phase. O álbum é uma clara referência sonora à Sea Change, na medida em que chama os mesmos músicos, usando os mesmos instrumentos, gravando no mesmo estúdio do anterior. Além disso, existe uma evidente superação temática: a depressão e a tristeza melancólica pós fim de relacionamento agora dá lugar a expansão da vida ao lado da nova esposa e de seus dois filhos. A faixa “Morning” é praticamente uma releitura de The Golden Age, mas que indica em sua letra e título um novo alvorecer: “Can we start all over again this morning?”

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Autor:

é músico e escreve sobre arte