Bedroom Pop: Tomar o Controle Sem Sair de Casa

Gênero em ascensão traz uma viagem nostálgica e interessante sem sair do quarto

1,575 total views, no views today

Em seu livro Como Funciona A Música?, David Byrne nos aponta uma concepção que pode parecer um tanto quanto supérflua à primeira vista, mas revela uma relação interessante sobre como a música tem sido feita desde sempre. Ele diz: “Levei muito tempo para entender o seguinte sobre o processo criativo: o contexto determina boa parte de tudo o que é escrito, pintado, esculpido, cantado ou encenado”.

Assim, aquela ideia de que a música é uma produção vinda da inspiração interna de nossas entranhas, emoções e sentimentos, embora não seja totalmente falsa, começa a dar espaço para uma nova forma de encarar os produtos dos contextos culturais e espaciais nos quais estamos inseridos. É justamente neste ponto que chegamos ao Bedroom Pop, um gênero que carrega no próprio nome a importância do espaço físico na criação de sonoridade e que tem se revelado uma manifestação curiosa de cultura, bem como um som cada vez mais cativante em sua proposta.

Quando pensamos nas razões particulares que levaram o gênero em questão a ter este nome, é comum associarmos à imagem de nossos quartos como refúgios da vida cotidiana, como se fossem lugares onde o caos e o stress não reina e, por consequência, onde o artista pode fazer fluir suas criações de forma menos conturbada e mais saudável. Mas o fato da criação deste Pop ser nos quartos destas pessoas, traduz um esforço mínimo que os artistas têm para pôr no mundo suas composições.

Todo aquele grande universo que compunha a elaboração e administração de uma obra Pop (gravação, mixagem, masterização, concepção da capa, lançamento, redes sociais, marketing, merchandising) está fortemente concentrada em apenas um ambiente e, assim, acaba proporcionando um maior controle para com sua obra.

Esta dinâmica já não é de agora. Nos anos 1980, o próprio Indie surgiu desta necessidade de tomar o controle da produção, das mãos das gravadoras para a manufatura DIY. Poucos anos depois, pudemos encontrar algo semelhante na cena de música Eletrônica dos anos 90, com o barateamento de instrumentos e a cultura de fitas cassetes que possibilitou uma nova forma de distribuição alternativa.

Com o advento da Internet, isso apenas se intensificou. No começo dos anos 2010, os diferentes movimentos Wave (Retrowave, Chillwave, Vaporwave…) encontraram uma comodidade ímpar na possibilidade de encontrar todo o que precisavam no conforto de seus quartos. É curioso como este modelo de concentração dos processos de composição e administração da música, agora encontra espaço para fincar suas raízes no Pop, um campo tão odiado pela cultura Alternativa em outro momento.

A sonoridade explorada é bastante similar entre os nomes mais conhecidos do gênero, o que pode parecer uma certa estereotipagem da coisa, mas também pode permitir uma visão mais profunda sobre isso. Parte deste grande apelo talvez venha da aparente simplicidade com a qual o som é feito, um reflexo da facilidade de se produzir música em um quarto. O “aparente” aqui é explicado pois, o que esta sonoridade traz de arranjos e acordes descomplicados, ela compensa na escolha de timbres e melodias em uma relação interessante que podemos explicar da seguinte forma.

Uma boa parte destes artistas são jovens nascidos na virada do milênio, que já nasceram com a Internet consolidada, e o fato de escolherem estes sintetizadores oitentistas, drum machines antigas e uma predileção inegável pelo Lo-fi apenas reforça uma sensação nostálgica. Uma nostalgia que, segundo o colunista da publicação Mel Magazine, Hussein Kesvani, eles tem muita saudade, apesar de nunca ter vivido propriamente este período. Dessa forma, temos uma sonoridade nova, que viaja por décadas diferentes para consolidar aquilo que desejam exprimir, tudo isso sem sair de seus respectivos quartos.

Apesar de parecer um som descompromissado, que encontra espaço entre os Soundclouds ocultos e rádio de Lo-fi Hip Hop do YouTube, as escolhas que o Bedroom Pop reforça parecem encontrar vários adeptos e, de forma indireta, acabam influenciando o Pop mainstream (se é que há esta divisão de fato). Um nome que podemos associar a esta popularização, mesmo que sua sonoridade não seja a mais típica do gênero é a norte-americana Billie Eilish. A simplicidade de suas músicas reflete no descompromisso de uma gravação super megalomaníaca e com arranjos complicados. Esta estética ASMR, distorcida e glitch é toda produzida segundo os próprios impulsos de sua vontade e, pelo fato de ter sido produzida em um ambiente recluso e confortável, traduz o peso que o Bedroom Pop traz e suas potencialidades. Por ora, o Bedroom Pop tem crescido bastante, e isso fica cada vez mais evidente, de uma forma que até não cabe mais dentro dos quartos que o originaram.

1,576 total views, 1 views today

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.