Ben Folds Five, o lado mais Pop do Alternativo (e vice-versa)

Banda que marcou a década de 1990 ao fazer Rock sem guitarras volta à ativa com novo disco, seu primeiro em treze anos

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Um dos maiores desencantos para os fãs de Música (a com letra maiúscula – não gente que gosta muito de escutar algumas bandas, mas adoradores dessa arte mesmo) é testemunhar discussões sobre música Pop poder ter qualidade ou não. Mas que discussão mais chata e datada! Sem entrar em méritos do que “Pop” pode significar, sempre me lembro de uma banda que veio e confundiu a cabeça de muita gente quando, nos anos 90, foi enquadrada não só dentro desse gênero, mas também como Alternativa e Indie.

E essa confusão tem tudo a ver com o que a irreverência e liberdade criativa do que a Ben Folds Five sempre faz – a começar pelo seu nome, no qual eles escolheram o cinco ao invés do três porque preferiram a sonoridade assim. O burburinho que o trio causou na metade daquela década veio, principalmente, pela escolha de ignorar a guitarra em sua formação, substituindo o instrumento mais icônico do Rock pelo piano, comandado pelo tal Ben Folds acompanhado pelo baixista Robert Sledge e o baterista Darren Jessee. A guitarra entra pontualmente em algumas gravações e apresentações ao vivo, mas é sempre o figurante, nunca o ator principal.

Don’t Change Your Plans

Com aqueles acordes que, desde sempre, são próprios do Pop e do Rock, não é difícil desfrutar de suas composições. Músicas como Don’t Change Your Plans até parecem carregar uma certa nostalgia, o que confere aquele tal “ar atemporal” na obra do grupo. Ou seja, não é à toa que vários grupos de ouvintes tenham virado seus ouvidos para esse som desde seu primeiro lançamento, o álbum homônimo de 1995 impulsionado pelos singles Underground e Where’s Summer B?.

Como tudo o que envolve música Pop bem feita, alguns críticos logo reconheceram seu valor (o Pitchfork, por exemplo, lhe deu a nada modesta nota 9.6), enquanto outros acharam que se tratava de apenas mais uma banda investindo na harmonia das vozes, apesar da ausência de guitarras.

Where’s Summer B?

O capricho no som vem de uma forte influência de músicas improvisadas, como o Jazz, em estruturas bem arquitetadas que fazem com que a melodia passeie por diversos momentos antes do fim da faixa. Isso e um certo caráter quase “experimental” atrairam muito a atenção dos públicos Indie e Alternativo, ainda mais quando a banda resolveu fazer seu segundo álbum, Whatever and Ever Amen (1997) em uma pegada Lo-fi, todo em uma casa com várias interferências sonoras do ambiente.

Teria tudo para ser um disco favorito de toda a família, que você poderia colocar para ouvir com seus pais e todos ficarem felizes juntos – a não ser pelas letras excessivamente sinceras, a ponto de serem constrangedoras, como as dos relatos sobre um fim de relacionamento que permeiam o segundo disco.

Song for the Dumped

Pois é, “Fuck you too/Give me my money back/You bitch” soa divertido para alguns o como refrão desse single, mas tamanha sinceridade dentro de um formato tão Pop acaba soando vazia e, com isso, o álbum parece meio bobinho em alguns momentos. No fim das contas, Ben Folds usa rimas fraquinhas em versos fofinhos mal construídos quando está feliz (como “I think she smokes pot/She’s everything I want/ She’s everything I’m not” em Kate) e apela para palavras de baixo calão quando bravo.

Além de ser uma dinâmica cansativa para o ouvinte, faixas assim acabam escondendo a beleza de uma honestidade muito mais humana presente em pequenas pérolas como Selfless, Cold and Composed (um relato passivo-agressivo de quem foi rejeitado) ou a triste Smoke (que faz um interessante paralelo entre a história compartilhada a dois desperdiçada com o fim de um relacionamento e as páginas de um livro sendo rasgadas).

Smoke

Indo sonoramente na mesma direção que os anteriores, mas mostrando-se muito mais maduro, o terceiro lançamento da banda, The Unauthorized Biography of Reinhold Messner (1999), apostou em sons mais grandeosos e deixou as piadinhas um pouco de lado para trazer algumas das faixas mais interessantes da carreira do trio, músicas que carregam o mesmo espírito de faixas como Smoke.

Os versos de fácil assimilação continuam ali, mas envoltos por acordes e melodias (dessa vez, mais acompanhados de guitarra) que conseguem chamar a atenção até do mais leigo na Música (novamente, com M maiúsculo) por sua força e beleza.

Narcolepsy

Após concluir essa “trilogia” e lançar, no meio do caminho, um disco com sobras de estúdio, a banda decidiu amigavelmente encerrar suas atividades. O hiato durou até 2008, quando os três se juntaram para tocar The Unauthorized Biography of Reinhold Messner inteiro em um show, o que fez com que três novas músicas fossem gravadas em 2011 para uma coletânea do grupo, o que deu ânimo para uma volta integral às atividades agora em 2012.

No meio-tempo, Ben Folds investiu na carreira solo e lançou logo em 2001 o seu Rockin’ The Suburbs e se manteve ativo em uma trajetória que incluiu trilhas-sonoras (como a da animação Os Sem Floresta) e o sucesso comercial de Songs for Silverman. Seu último projeto foi um disco com o escritor, roteirista e crítico musical (e fã de música Pop) Nick Hornby, Lonely Avenue.

From Above

A volta da Ben Folds Five em 2012 será concretizada com o lançamento de The Sound of the Life of the Mind em 18 de setembro e o primeiro single, Do It Anyway, se não aponta um novo rumo na sonoridade da banda, se mostra como uma daquelas músicas que passam desapercebidas pela maioria, mas que é capaz de entrar na lista de “melhores do ano” de muita gente. As duas faixas seguintes, Erase Me e Michael Praytor, Five Years Later continuam na qualidade de sempre.

Em um período tão frutífero de inventividade na música, da mais popular à mais alternativa, fica difícil medir a relevância do lançamento, ou se o álbum não vai chegar já meio datado, meio com cara de um trabalho de uma banda que repete suas próprias fórmulas por não saber se reinventar. Mas pode ser ainda que seja um disco que sabe não se levar tanto a sério e apenas investir em seus próprios caráteres de “divertido” e “belo”. Mais Pop, impossível.

Do It Anyway

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MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.