Big Ups: Confissões de Adolescente

Grupo liderado por Galarraga dialoga de forma madura com os conflitos da adolescência

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Para falar do quarteto novaiorquino de Post-Hardcore Big Ups, é preciso chamar à tona um assunto que está se tornando quase lugar comum por aqui no Monkeybuzz: o revival do Rock alternativo (do Indie ao Emo) dos anos 90. Se você acompanha o conteúdo do site com regularidade, já está mais do que familiarizado com esse tema, mas, por outro lado (e em nossa defesa), se voltamos tantas vezes aos sintomas desse fenômeno que vem acontecendo (e creio que já podemos considerar consolidado), só prova que estamos no caminho certo da abordagem. Sendo assim, para contextualizar o artigo, vou citar o que eu mesmo considerei favorável a respeito do lançamento do álbum de estreia do grupo em Janeiro deste ano, Eighteen Hours of Static:

“O sucesso do lançamento está amparado pelo fato consumado de que a música dos anos 90 voltou. Embora os estilos que foram os grandes expoentes da época nunca tenham deixado de existir, faz alguns anos que estamos percebendo os sintomas de um revival em ebulição, nos quais constam, por exemplo, o reaparecimento de grandes nomes daquela época, até o cenário favorável que está trazendo o Emocore “de raiz” novamente aos holofotes e, consequentemente, o Hardcore ao protagonismo de um cenário alternativo específico.”

Pois é, mas, em meio a tantas outras bandas que vem amparadas pelo cenário, o “pós” do Post-Hardcore e Post-Punk de Big Ups ostenta uma característica “old school” que a destaca das demais. A capacidade de rememorar a própria adolescência, reativar seus conflitos e comunicar-se numa linguagem completamente empática com a faixa etária deste tipo de cenário é, em certa medida, incomum.

Afinal, as caracteríticas de tempos passados não estão só no modo de expor seus temas. Também o modo como soa sua música, da construção das melodias à escolha de timbres, emula perfeitamente o underground da passagem dos anos 80 para os 90. Também é assim em outras esferas, como no visual do grupo, com destaque especial para Joe Galarraga, o vocalista, com seus cabelos compridos platinados e seu bigode, sua camiseta tie-dye e seu tênis All-Star. Ou seja, uma amálgama de fatores que parecem trazer Big Ups de algum buraco rebelde do espaço-tempo congelado de 25 anos atrás, embora funcione, de maneira quase incompreensível, perfeitamente dentro do contexto em que se encontra atualmente.

Mas, vamos ao álbum. Já na introdução de Eighteen Hours of Static, o riff argiloso de Body Parts mostra o universo no qual o trabalho está inserido, capaz de transformar um estado mental de incômodo numa fórmula musicalmente interessante. Os sintomas de obsessão mental (ou espiritual, que seja) transcritos na crueza da simplicidade do trio de instrumentos estão presentes por toda a obra. Uma guitarra ardida com uma distorção nada sofisticada, o ritmo rápido da fala de Galarraga (de fato, seu vocal aposta muitas vezes em uma vertente muito mais declamatoria do que cantada do Hardcore, como o Shelter, por exemplo) refletem a urgência de, ao mesmo tempo, expor e extrair de si as causas de sua angústia existencial.

Goes Black, por sua vez, principal música de trabalho do álbum, tenta elucidar uma insatisfação genérica sobre a vida. De fato, uma fórmula bastante comum nas músicas do gênero e artifício perfeitamente natural do estado instável da fase da adolescência. Como diria meu atual escritor favorito, Karl Ove Knausgård, “quando sua perspectiva de mundo se amplia, não mitiga apenas a dor que acarreta, mas também o sentido dessa dor”. Por isso, até lá, essa rebeldia se manifesta de modo genérico, porém, nunca sem causa.

Pode ser, talvez, uma espécie de “soma de todas as causas” o que aflige um jovem desse modo, nublando essa perspectiva de mundo satisfatoriamente ampla, pois, mesmo que tenha, por muitas vezes, causas fincadas em problemáticas imprecisas, as letras não deixam nada a desejar em sua construção poética (vamos falar daqui a pouco sobre a pluralidade de temas que Eighteen Hours of Static consegue abranger). Além disso, seu existencialismo problemático supera facilmente os vários exemplos mais rasos do gênero musical, e está acima, por exemplo, dos dramas adolescentes que envolvem conflitos com a namorada ou da adoração pela diversão, abrangendo questões mais maduras sobre a realidade do mundo ou a verdade da vida.

O tom tenso e quase ameaçador de algumas músicas lembra muito o artífico largamente utilizado pela banda de Punk californiana Dead Kennedys. Apoiada na guia grave do contrabaixo, a voz baixa e seca emula os sintomas frios e cínicos de alguém que já transpôs as barreiras da pressão social e se tornou algo próximo de um sociopata. Galarraga transita nessa linha limítrofe, tanto na explosão de gritos inconformados quanto no estágio posterior a esse, de um sujeito amedrontador e obscuro que já cedeu aos próprios conflitos morais. São vários os exemplos no decorrer do álbum, mas temos em T.M.I a principal manifestação dessa crítica velada, ao cantar “too much information […] I’m a robot of the 21st century, I’m designed to never feel anything”.

A despeito do que incomoda tanto Galarraga, seu dilema é a pedra bruta da música agressiva que pertence à garagem ou aos porões, e assim, não traz em si um discurso elaborado. Contudo, apesar de sabermos que é impossível definir com precisão tais assuntos, sabemos que Big Ups vai atacar tudo quanto pode para tentar satisfazer seu próprio conflito interior.

Assim, sua pendência espiritual vai tentar se resolver pelas vias do esforço pessoal em Atheist Self-Help, negando conscientemente os dogmas religiosos e assumindo a responsabilidade diante das próprias escolhas. Na chamada de atenção para seu niilismo social, verte seu pessimismo para os objetos cotidianos descartáveis que funcionam como metáfora para a superficialidade das relação pessoais em Disposer. A apatia que sofre e que sente (atualmente superproblematizada com os dilemas da geração Y), por sua vez, está exposta em Justice. O clima visceral que evoca a carne crua e o homem-animalizado são embasados na microfonia de Fresh Meat. Ou seja, independentemente de sua mira (todos problemas atemporais e conflitos sociais que sempre existiram, mas que parecem se renovar como “geracionais” a cada troca de faixa etária), Galarraga ataca agressivo, dotado de seu realismo irônico e sarcástico.

Seja qual for seu método de exposição e sinceridade, a importância do grupo liderado por Galarraga reside no fato de que este não busca a solução de sua angústica psicológica, nem resolve os problemas da adolescência, mas, ainda assim, entende, compartilha e dialoga com seus dilemas. E é assim, catártico, que fornece uma válvula de escape perfeita para a vazão do sentimento de raiva por viver num mundo aparentemente injusto, insolucionável e incompreensível.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte