Black Alien – Irradiando Luz na Escuridão há uma Década

“Babylon By Gus” ainda não passou do volume 1, mas está entre os discos clássicos de Hip Hop no Brasil

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“Eu tenho muita rima pra te xingar em estoque/toco seu terror, Alfred Hitchcock/ revolução no Rap revolução no Rock” cantaria o público em Contexto, no show clássico de Planet Hemp eternizado no MTV – Ao Vivo de 2001 que pode ser visto abaixo. Naquele momento, um dos MCs do grupo que havia entrado no meio da turnê de Usuário, Black Alien, não se encontrava no palco, saíra naquele ano e, mesmo assim, o carinho dos presentes mostra a importância do rapper para o cultuado movimento que os cariocas criaram na cena musical do país.

A saída já se mostrava uma vontade de Gustavo de Almeida Ribeiro, que nunca escondeu essa inquietação de ter projetos solo, como a turnê que fez com DJ Rodriguez nos scratches. Mas nem por isso não representou muito bem a sua função como um dos MCs e cabeças por trás de Planet Hemp, sempre lembrado como o “melhor letrista” do grupo. Com isso em mente, bagagem nas costas e o desejo de explorar outras poesias e temas, Black Alien fez o seu único disco até então, Babylon By Gus – Vol I. O Ano do Macaco. Inspirado no nome de um álbum de Bob Marley, Babylon By Bus, o trabalho é ainda uma das grandes referências para qualquer entusiasta tanto do artista como do Hip Hop, uma pérola que nunca deve ser esquecida.

Colérico, sincero, melódico, suingado, brasileiro e periférico, Babylon By Gus é um retrato explicito da situação do mundo e sobretudo das comunidades menos favorecidas de nosso país – vidro translúcido que nunca se esquece de seu caráter espelhado: vemos tudo ao nosso redor sem nos esquecermos de nós mesmo. Com temas diversos e uma prosa urbana que utiliza um instinto criativo único no Hip Hop, o trabalho é inesquecível do começo ao fim. Estilo do Gueto, por exemplo, não esconde a tensão em momento algum de suas batidas suspensas, graves e uma abertura que impressiona até o mais desatento: “Você se assusta com o barulho da bala? Eu aprendi desde moleque a adivinhar qual é a arma/isso não é novidade nessa parte da cidade/a violência é comum e a paz é raridade”.

A Construção de suas faixas (maíusculo como a capacidade lírica que Chico Buarque demonstrou) é impressionante. Primeiro de Dezembro nos coloca em uma narrativa de “mocinho contra bandidio, policial contra bandido”, conseguindo colocar o ouvinte diante da situação para depois apresentar a sinopse completa em seu refrão, que segue a mesma batida de toda música: “Primeiro de dezembro – Ele planejou o assalto/Quinze de dezembro – Ele disse: ‘Mãos ao alto!’/ Vinte e cinco de dezembro – Ligou pra mãe de Bangu 4 /Você enxerga mais longe a gaivota que voa mais alto”. Complexidade de letras que foge um pouco da ironia e o bom humor crítico-ácido de Planet Hemp. Logo, Babylon By Gus é menos voltado a um nicho, sendo mais global.

No entanto, não se esquece de suas origens canábicas e lisérgicasm como o começo esfumaçado e cheio de risadas de Na Segunda Vinda, mesmo que sempre conduzindo estes momentos com mais peso e crueza. O alívio vem na costumeira suingueira rápida sem ar do Funk instrumental eternizado em grupos como Black Rio em Umaextrapunkprumextrafunk: “Acredito em ordem e progresso/Quando o povo tem acesso Ao ingresso /Então dá um dois no kunk/A válvula de escape com motor de arranque”.

O olhar focado a seu espaço de convívio é ambíguo à infância de Black Alien, que se dividiu entre dois extremos: a riqueza de Niterói, onde estudou e viveu sempre como um “estrangeiro” (daí a atribuição “alienígena” de seu nome artístico), e São Gonçalo, zona mais pobre e mais deflagrada nas letras de Babylon. Entretanto, o racismo que sofreu e a dualidade de sua vida o fizeram enxergar e incorporar esta visão menos favorecida, crua e triste do viver que, mesmo quando aborda o amor, não esquece da realidade. Em Coração do Mundo, diz: “Bang Bang, bem bem alguém /Atirou em mim, foi meu bem/ Bang Bang, bem bem alguém /Atirou no meu bem” em uma batida “tarantinesca” que acaba se derretendo na ótima balada de Hip Hop Como Eu Te Quero, delicioso momento escapista do disco. Perícia na Delícia é maliciosa e tem um dos refrões mais viciantes do Hip Hop – aliás, de Funk Carioca, pela sua batida que pode ser facilmente assimilada em qualquer faixa atual do gênero.

Dois instantes, ao meu ver, se destacam dentro de uma obra constante e eterna como esta, quando as palavras ganham ainda mais valor após tanto tempo, dez anos para ser mais exato. Na orquestral faixa-título do trabalho, Gustavo diz em meio a uma construção erudita moderna: “Por favor, doutor, deixa eu mostrar meu documento/Do começo ao fim, do fim ao começo/Da juventude à infância/Do geriatra, adolescência ao berço /Eu me lembro/Não mal agradeço/Por você até o último degrau eu desço”. Realidade de abuso autoritário de homens que estão supostamente ali pra te defender, mesmo que muitas vezes somente deles mesmos. Tal cenário não mudou e a solução para não se perder da nitidez da realidade é “com a caneta e o papel, irradio luz” – o trabalho.

Esta letra mostra-se ainda mais atual quando ouvimos “a justiça dos homens perdeu um ônibus”- quebrado, queimado ou vandalizado? Simplesmente destruído por algum motivo, provavelmente a falta de voz. Já em América 21, Black Alien promete defender o seu continente: “Vou costurar as veias abertas da América Latina/Dividiram em três, jogaram duas na latrina/Por que a América do Sul quebra? Por que banqueiros guardam seus dinheiros em cofres em Genebra?”. Ambos não são símbolos do nosso inconsciente, mas de retratos que ainda não se destruíram e se perpeturaram. Ao criar uma obra eterna nas letras e amplificada na música, Gustavo estará para sempre entre as grandez vozes do Hip Hop brasileiro e deve e pode ser esquecido como alguém que veio do Planet Hemp. A Babilônia por ele não se despedaçou, só espera uma continuação: o volume II No Príncipio Era O Verbo que viria neste ano. No entanto, citando o próprio artista, “não acredito no futuro do pretérito”, logo, somente no presente e, enquanto isso, colocamos no repeat este clássico disco.

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ARTISTA: Black Alien
MARCADORES: Fora de Época

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.