black midi: som, fúria e graça

“Deixar o bonito mais bonito e o caótico mais caótico”; o vocalista Geordie Greep fala sobre o excelente “Cavalcade”, novo disco da banda londrina, e analisa pesos e sutilezas do Rock Alternativo

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Fotos: YIS KID

Há quase dois anos, o black midi se tornava a Próxima Grande Banda de Rock da Última Semana com o lançamento de Schlangenheim. Grande e abrasivo desde os primeiros segundos, o álbum colocou a banda inglesa no panteão dos poucos grupos de Rock que conseguiram – ao menos em grande escala – encher os ouvintes de esperança de que o ritmo ainda guardava alguns suspiros inéditos nos últimos anos. No último dia 28, a banda deu seguimento a esse propósito com o lançamento de Cavalcade.

Schlagenheim foi criado organicamente por meio de extensas jam sessions executadas pelos então quatro membros do black midi, todos com 19 a 20 anos. As faixas resultantes são longas e quase inteiramente desprovidas de uma estrutura coesa ou refrãos – num grande estilo Remain in Light, as diferentes seções das faixas eram marcadas pelas performances do vocalista Geordie Greep.

Mas, ao fim de 2019, quando a banda se reuniu novamente para dar início aos ensaios para o que eventualmente se tornaria Cavalcade, o antigo processo não estava mais funcionando para o black midi. “Estávamos conseguindo cada vez menos resultados. As coisas em que estávamos trabalhando ficavam cada vez menos interessantes, e a vontade de terminá-las, cada vez menor”, fala Greep em entrevista ao Monkeybuzz, do espaço de ensaios da banda em Londres.

Ele continua: “Criar músicas em conjunto é um pouco limitante, porque você acaba tomando decisões que agradam a todos e o resultado é algo que todo mundo acha que está OK, mas ninguém acha muito bom ou muito ruim.” A solução, então, foi mudar completamente o estilo de composição da banda. As músicas nasciam também de processos em conjunto, mas, após algum tempo trabalhando nela, um dos membros da banda pegava para si o trabalho de estruturar a faixa do começo ao final.

O resultado são as oito canções mais elaboradas e detalhadas que formam Cavalcade. Se em Schlagenheim você pegava apenas breves momentos melódicos ou mais tranquilos, no novo álbum essa parece ser a regra mais do que a exceção. A segunda faixa, “Marlene Dietrich”, é uma balada ao estilo de Tom Waits e Nick Cave; e “Diamond Stuff” percorre lentamente seus seis minutos carregados por apenas um riff simples de guitarra.

Por cima disso, o vocal grave e por vezes arrastado de Geordie adiciona intensidade e drama até aos momentos mais suaves do álbum. Mas Cavalcade não é um disco de baladas: a primeira faixa “John L” abre com um caos barulhento de guitarras e violinos, e a intensidade dos jams de Schlagenheim ainda está presente em momentos de “Chondromalacia Patella” e Hogwash and Balderdash”. “Acho que estávamos tentando ir mais longe nas duas direções. Deixar o bonito mais bonito e o caótico, mais caótico”, diz Geordie.

Os contrastes são o tema central do álbum e essa intenção atinge seu ápice na faixa “Slow”, cujos versos calmos e explosões no refrão lembram o esquema baixo-alto-rápido de bandas como o Pixies – que, mais tarde, teve sua linguagem emulada por Nirvana e tantos outros nomes do grunge que vieram depois. Mas, para Geordie, a paisagem do Rock Alternativo mudou muito desde então. “Parece que o tipo de coisa mais reverenciada atualmente é ser sutil, não exagerar”, fala. “Queríamos fazer algo que fosse quase bobo em quão altos são seus altos e em quão baixos são seus baixos. Muito dramático, extremamente exagerado. Se não for bom, não é bom, mas pelo menos é engraçado”.

O som do black midi também passou a se aproximar mais de alguns de seus contemporâneos do Post-Punk e Post-Rock inglês que chamaram a atenção do público nos últimos anos, como o Squid e o Black Country, New Road. A segunda, com quem o trio já trabalhou e dividiu palcos diversas vezes – os grupos até se referem a si mesmos coletivamente como “Black Midi, New Road” – foi uma inspiração direta para o novo álbum, segundo Geordie. “É bom ter uma competição amigável de um jeito, tipo, ‘eles fizeram isso. Vamos fazer aquilo.’ Sabe, ‘se gostaram tanto disso, vamos ter que fazer com que nosso álbum seja melhor’. Eles intensificam a vontade de fazermos o melhor que podemos”.

“Parece que o tipo de coisa mais reverenciada atualmente é ser sutil, não exagerar. Queríamos fazer algo que fosse quase bobo em quão altos são seus altos e em quão baixos são seus baixos. Muito dramático, extremamente exagerado. Se não for bom, não é bom, mas pelo menos é engraçado”

É quase impossível escapar de comparações quando se continua uma história de 80 anos de Rock, e o black midi é constantemente apontado como direto sucessor de bandas como Slint, Talking Heads, Sonic Youth, entre tantas outras. Mas há muito mais no que inspira o som do black midi: segundo Geordie, o drama e a intensidade presentes nos instrumentais e vocais de Cavalcade foram influenciados por ritmos e obras teatrais como o tango argentino, a trilha de Igor Stravinsky para o balé Petrushka e até mesmo o álbum Circense, do músico carioca Egberto Gismonti. “Sou muito influenciado por um tipo de música moderna que é desafiadora ou muito intelectual, mas que tem algum tipo de vivacidade e alegria. Há humor e vida nessas obras”, diz.

O guitarrista e vocalista se diz honrado pelas comparações com grandes nomes da música alternativa, por mais que não tenha se inspirado diretamente em muitos dos grupos que já foram citados como influências do black midi. “No fim, somos como um teste de Rorschach; e se as pessoas querem atribuir o nosso som a coisas pelas quais elas são mais apaixonadas, isso é ótimo”.

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ARTISTA: black midi