Bob Dylan – O Novo E As Canções

Lançamento de seu 36º álbum confirma que músico segue capaz de se reinventar

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Você deve saber que Robert Allen Zimmerman, conhecido planetariamente como Bob Dylan, acaba de lançar um novo álbum, chamado Shadows In The Night, certo? É o 36º disco que o sujeito coloca nas prateleiras do mundo, desde que iniciou sua carreira, em 1961. Mesmo assim, completando 54 anos de carreira em 2015, Dylan recusa-se a ser previsível ou banal. Não se trata de colocá-lo num pedestal e reverenciá-lo, uma vez que há tropeços em sua trajetória, mas mesmo eles, os erros de julgamento traduzidos em álbuns e canções não tão boas, sugerem um artista que nunca pretendeu soar acomodado em relação à sua arte. E nessa saudável peculiaridade, Dylan foi, em alguns momentos, decisivo para a evolução/transformação da música popular planetária. Dessa forma, quando um sujeito como este, aos 73 anos de idade, recluso e esquisito, decide sair de sua concha e gravar um disco, todos os veículos minimamente interessados por música e seres humanos e como estas duas instâncias atuam uma sobre a outra, precisam estar atentos.

Dylan é, ainda hoje, uma voz a ser ouvida. Aliás, talvez uma das poucas vozes que se fazem ouvir. Shadows In The Night é um dos raros álbuns que ele grava sem qualquer canção de sua autoria. As dez faixas foram compostas entre as décadas de 1920 e 1960, fazendo parte de uma interessantíssima variação de Pop americano pré-Rock. Às vezes pensamos no mundo como sendo um lugar em que a música popular sempre abrangeu os gêneros voltados para a juventude e suas demandas, mas este é um fenômeno bem recente. A Pop Music deste tempo era bem diferente, mas trazia como carro chefe a busca pelo amor e pelo conforto emocional. No meio deste caminho, as agruras, decepções e sofrimento, tudo decorrente da busca por uma companhia para viver até que a morte viesse fazer seu trabalho. Em alguns casos, mesmo após a ação dela, o casal ainda estaria junto, por toda a eternidade. Apesar de soar meio desconexo com a realidade de hoje, o amor envolvia romance, sofrimento e pouquíssimo cinismo. Canções foram erguidas em torno desta lógica e Dylan decidiu, nas palavras dele mesmo, resgatá-las de seus arranjos pomposos e, muitas vezes, equivocados. Para isso, atribuiu um autodesafio: entrar num estúdio com uma banda que tivesse duas guitarras, uma slide-guitar, baixo e bateria. Na produção, o querido Jack Frost (pseudônimo que o bardo usa há alguns anos) e, além de metais ocasionais em uma ou outra faixa, mais nada.

Não é a primeira vez que o sujeito lança um disco com canções alheias, claro. Uma rápida passeada no início dos anos 1990 revela um par de trabalhos com gravações simples, geralmente com voz, violão e gaita, de composições empoeiradas e tradicionais do Folk americano. Na época, Good As I Been To You e World Gone Wrong, de 1992 e 1993, respectivamente, serviram para queimar algumas gorduras estéticas dos trabalhos anteriores, sobretudo o equivocado Under A Red Sky, de 1990. Em meio ao turbilhão Grunge e a gênese do Britpop, Dylan parecia preferir direcionar seus ouvidos para aquela suspensão temporal Folk da América imemorial, que nunca se vai e parece uma estante de livros, esperando que alguém venha ler e, sobretudo, compreender significados de tempos em tempos. Dylan sempre foi um dos mais credenciados leitores desse manancial de informações e, não seria exagero dizer, que ele pode ser considerado o tradutor mais preciso destas informações para as novas gerações de ouvintes.

A carreira de Bob Dylan se caracteriza pela convivência pacífica entre “velho” e “novo”. Quando surgiu, logo no início dos anos 1960, Dylan era um cantor de Folk. Precisava estar antenado com o cotidiano do mundo e sintonizado com uma certa tradição de contadores e narradores de histórias tão tradicionais quanto o próprio tempo. Ele foi o mais fiel representante deste choque de épocas, o mais eficiente e o único que emergiu daquela Nova York/América do início da década, como uma espécie de porta-voz, de guardião de que as coisas estavam em seus lugares e, sobretudo, seguiam seu curso. Ele nunca foi um cantor de Rock, mas tornou o estilo capaz de ser apreciado por uma multidão de pessoas que o achavam apenas algo adolescente e hormonal. Em 1965, a partir do lado B de seu clássico álbum Bring It All Back Home, Bob Dylan trouxe guitarras elétricas para um Folk que permanecera inacessível a elas. Para os puristas, era como se a última lavoura do mundo fosse atacada pela mais violenta das pragas.

Dylan foi chamado de traidor, de “Judas” em pleno palco (em Manchester, 1965) e seguiu adiante, incorporando guitarras e demais referências Rock. De passagem, influenciou ninguém menos que The Beatles, quando estes desejaram deixar a adolescência musical para trás e gravar Rubber Soul, em 1965. Do outro lado do Atlântico, Beach Boys ouviram o novo som de Liverpool e decidiram botar em prática algo diferente, resultando na concepção de Pet Sounds, também em 1966. Ao mesmo tempo, uma banda formada na nascente cena de Los Angeles teria sua razão de existir exatamente por conta dessa ponte entre Rock e Folk, The Byrds. Por aí podemos ter uma vaga ideia da importância de Bob Dylan para a música que era feita na época.

Dois anos depois, entretanto, tudo mudara. Justo na época em que todos esperavam que Bob Dylan, o homem que compusera canções como Masters Of War, The Times They Are A-Changing e Like A Rolling Stone, se engajasse de vez nos protestos pelos direitos civis, ele escamoteia um acidente de moto e some da mídia por um bom tempo. Quando retorna ao disco, em 27 de dezembro de 1967, lança um álbum enigmático chamado John Wesley Harding, com várias informações intencionalmente confusas no conjunto capa-canções, apontando para tudo, menos para uma assunção de comando da tal revolução que parecia varrer as cidades grandes de alguns países do mundo. Dylan abria mão disso, abraçava seu “Folk Lore” americano básico e dava as costas para o burburinho das ruas. Para arrematar, pouco mais de um ano depois, lança Nashville Skyline, um álbum Country e, mais adiante, um trabalho confuso e idiossincrático, Self Portrait, com o qual abraçou os anos 1970.

Parecia que Dylan mudava a natureza de sua obra aos poucos. Não se sabe até que ponto ele intencionalmente permitiu que suas canções funcionassem muito no plano público, ou seja, se tornassem hinos de uma juventude pensante e com carimbo de relevância. Quando lança álbuns pessoais e mais introspectivos, passa a falar para a natureza humana e como ela se manifesta de pessoa em pessoa. Seu maior feito neste sentido é Blood On The Tracks, de 1975, no qual documenta sem qualquer pudor o grande sofrimento que experimentava por conta do divórcio. Canções como Tangled Up In Blue, Simple Twist Of Fate e You’re A Big Girl Now, as três primeiras do álbum, escancaram os sentimentos para o ouvinte, que se vê subitamente imerso neste clima. Outros colossos surgem até o fim do álbum, como If You See Her, Say Hello e, sobretudo, Shelter From The Storm, provavelmente uma das mais singelas composições dele. Apesar disso, os ventos da mudança viriam logo a seguir.

A tristeza fica de lado quando Dylan decide criar a Rolling Thunder Revue, uma turnê de saltimbancos e artistas de circo, que o acompanharão e à sua banda, a mitológica The Band, pelos Estados Unidos. Vestido a caráter e cheio de novas referências, Dylan se reinventa pela terceira vez. O contraponto de estúdio dos shows é o belo álbum Desire, que surge em 1976, puxado pela ótima Hurricane, uma canção que vara os sete minutos e conta a história do pugilista Rubin “Hurricane” Carter, injustamente condenado por assassinato em Nova Jersey. Com o sucesso da turnê e do disco, era fácil imaginar que Dylan ainda poderia gravar mais algum álbum inspirado naquele novo cenário surreal/cotidiano que formara. Qual o quê. Após mais um álbum misterioso, Street Legal (1978), o sujeito surpreenderia o mundo com a conversão ao cristianismo, retratada fielmente em três álbuns: Slow Train Coming (1979), Saved (1980) e Shot Of Love (1981). Massacrados pela crítica e quase renegados pelo próprio Dylan, os discos mostram um homem às vésperas dos 40 anos de idade, confuso como todos costumam ficar neste momento, imaginando conseguir algum sentido da vida em uma religião contrária à sua formação judaica. Mais que isso, não se omitindo em registrar tais experiências em música. Deste período, Gotta Serve Somebody é uma canção lapidar e belíssima, mas criminosamente desconhecida pela maioria.

Dois anos depois e lá vinha Dylan ostentado um quipá, ajoelhado nas areias de Israel, voltando ao modo normal em Infidels. Mais que um retorno ao judaísmo, era o retorno de alguma paz de espírito em forma de música, de voltar a experimentar com músicos famosos e se permitir gravar um semi-reggae de sucesso como Jokerman, que tem participação da dupla jamaicana Sly Dunbar e Robbie Shakespeare, além da guitarra de um de seus maiores fãs, Mark Knopfler, então líder de Dire Straits. Dois anos depois, num verso de Tight Connection To My Heart, bela canção do álbum seguinte, Empire Burlesque, Dylan soa reflexivo sobre a experiência cristã: “I never could learn to drink that blood and call it wine, I never could learn to hold you, love, and call it mine”. Resumindo: não deu certo, mas eu sigo tentando. Ao longo dos anos 1980, até meados dos anos 1990, Dylan permaneceu ativo e lançando álbuns interessantes, mas pouco relevantes. Ele reencontraria um formato que trouxesse êxito em ambas as frentes a partir do lançamento de Time Out Of Mind, de 1998, com a produção de Daniel Lanois, ex-colaborador de Brian Eno. Ali, envolto numa parede poeira instrumental erguida meticulosamente por Lanois, Bob Dylan tornou-se um novo cantor, alguém que canta Blues, mas sem a pureza ancestral dos negros mas que também não tem a visão adjacente do admirador do estilo. Ele representa novamente o cronista, o homem misterioso, uma espécie de consciência coletiva-individual. A partir daí, até o lançamento de Shadows In The Night, inclusive, não houve disco ruim lançado por ele.

Isso tudo nos leva de volta à imagem do senhor de 73 anos adentrando o estúdio com velhos lobos do asfalto em busca de redenção através de dez canções ancestrais. Uma pesquisa mais detida mostrará que todas elas foram cantadas por outro representante de uma América imemorial: Frank Sinatra. Ao contrário do velho Francis Albert, Robert Allen não tem a pretensão de cantar de forma aveludada, ainda que neste álbum ele tenha sua melhor performance vocal desde os anos 1970. O objetivo aqui parece ser o de conferir alguma humanidade ao mito, reforçar a ideia de que, por trás do jovem de óculos escuros e aparência indestrutível dos anos 1960, ainda que parecesse pequeno em estatura e magro na compleição física, está um homem, que envelhece, que sofre, que sente saudade de outros tempos e pessoas que já se foram. Bob Dylan dá estes atestados de vida sempre de forma diferente e complementar em relação aos anteriores. Como uma pedra que rola e não cria limo. O tempo provará como temos sorte de habitar o planeta enquanto gigantes como ele estão vivos e produtivos.

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ARTISTA: Bob Dylan
MARCADORES: Artigo, Novo álbum

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.