Bob Mould: Pedra Fundamental do Hardcore

Fundador do Hüsker Dü continua produzindo sua carreira sólida até hoje

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É difícil imaginar a vida de um homem que situa-se na gênese de um movimento que molda a história da música popular. Parece exagerado, assim, de primeira, mas é verdade. Bob Mould, ao contrário do que poderia-se pensar, nunca investiu com muito afã na glória da própria fama, mas, de algum modo, sempre manteve a energia na medida exata para manter-se em cena por 30 anos, firme defensor de um estilo que ajudou a cunhar.

Sempre que falo da importância de Pixies por aqui, uso o mesmo argumento: imagine só uma banda que foi capaz de influenciar dois dos grandes nomes de nossa música alternativa, a saber, Radiohead e Nirvana. Agora, vamos voltar um passo atrás e imaginar um dos grupos que, por sua vez, influenciou os Pixies. Pois é, Bob Mould, o guitarrista e principal compositor de Hüsker Dü não só ajudou a inventar o Punk Rock e o Hardcore da segunda geração americana, vindos do início dos anos 80, como também, graças a sua ampla visão de mundo e da música em si (coisas raras para adolescentes e jovens adultos rebeldes que costumam se preocupar em primeira instância apenas em contrariar os cânones consagrados) extendeu o próprio universo sonoro do Hüsker Dü, graças a influência direto que eles sofriam do Rock Psicodélico e, assim, foi capaz, com Zen Arcade – álbum gravado em apenas dois dias – de ajudar a fundar a história do hardcore americano pós-80.

Justamente por ser um dos grandes padrinhos desta vertente musical (que voltou com toda a força atualmente), Bob Mould conserva o direito de manter-se produzindo constantemente dentro do estilo que ajudou a construir. Graças a sua presença discreta, que jamais recai a uma possível afetação artística graças à importancia que o músico tem, foi capaz de, pacientemente, produzir mais de uma dezena de álbuns solos, fora as importantes obras de seus grupos anteriores (a saber, Hüsker Dü e Sugar), e, assim, consagrar-se como um dos compositores mais coerentes da história do Hardcore.

Ao meio do caminho da quinta década de sua vida, Mould continua produzindo, e nesse ano chega com mais um trabalho solo, intitulado Beauty & Ruin, que repete a fórmula de seu bem-sucedido trabalho anterior, Silver Age, ao contar com um time composto por Jason Narducy (Split Single, Verbow) e Jon Wurster (Superchunk, Mountain Goats).

O teor segue implicitamente autobiográfico e trata dos temas mais marcantes de sua vida pessoal, como a recente morte do pai. Agora, maduro, superados os conflitos adolescentes de sua época de Hüsker Dü, e já dotado de inteligencia emocional, Mould não precisa mais se preocupar mais com uma visão revolta de mundo, seja ele interior (assumir a própria sexualidade não é uma tema problematizado, por exemplo, uma vez que essa etapa já foi superada naturalmente) ou exterior (embora, é claro, os dilemas de Hüsker Dü nunca tenham sido assumidamente políticos como o de seus contemporâneos, a narração da história de um jovem que foge de casa em Zen Arcade não deixa de explicitar conflitos emocionais). E, assim, os sintomas da idade, temperados por uma certa melancolia, dão as caras na nova fase de Mould (iniciada, como o próprio nome já denuncia, em Silver Age). O mar sonoro granulado, inundado de guitarras distorcidas ainda são a base de seu trabalho, que continua apostando no que sempre soube fazer melhor: melodias envolventes.

E é assim, figurando sólido como uma pedra fundamental para o estilo do qual faz parte, Mould continua a nos presentear com sua obra concisa e constante, sempre um deleite para seus antigos admiradores e também um convite aos mais jovens, de retorno às raízes do um estilo que retomou a força no revival pós-anos 2000 que estamos vivendo.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte