Bowie, Eterno Bowie

Com shows tributo e ampla presença na Cultura Pop, artista britânico tem sua vida prolongada

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Fotos: Andrew Kent

Quando foi a primeira vez que você ouviu David Bowie?

Para nós que nascemos quando o artista britânico já tinha grande renome, pode ser um pouco difícil especificar a ocasião quando escutamos seu nome e/ou sua música pela primeira vez. Isso também porque ele é uma dessas figuras célebres cuja obra não se encerra em si, mas faz-se presente com seu legado na Cultura Pop, influenciando da Vanguarda ao mainstream.

Na intenção de entender um pouco mais a relação que outros músicos têm com Bowie – tanto como inspiração quanto como um favorito pessoal -, o Monkeybuzz conversou com alguns artistas sobre como eles percebem que a chama do inglês, falecido há quase dois anos, permanece acesa.

Angelo Moore (Fishbone)

O vocalista e saxofonista da banda norte-americana Fishbone teve seu primeiro contato com o artista através do tecladista de sua banda, Christopher Dowd, quando eles ainda eram adolescentes. “Eu estava no ensino médio e fui até sua casa, ele estava ouvindo Space Oddity”, relembra ele, “eu fiquei fascinado. Falei ‘você tem mais desse tal de Bowie aí?’ e ele me mostrou toda a sua coleção”.

Ao longo dos anos, sua relação com esses discos e toda sua estética sempre foi muito forte. “Em sua música, há muito de Funk, muito de Soul, elementos clássicos e Jazz também”, comenta Moore, “todos esses gêneros me atraem, porque eu cresci ouvindo sons influenciados por Bowie. Quando ouvimos aquela música Play that Funky Music (White Boy) (da banda Wild Cherry), David Bowie era o tal do ‘white boy’. Ele tocava e cantava do jeito certo, ele se dava bem com aquilo que nós negros estávamos fazendo no R&B e no Funk. E isso era natural pra ele”.

Sua imersão na obra do britânico tem sido mais forte do que nunca, já que ele é um dos nomes responsáveis pelo espetáculo Celebrating David Bowie, que terá apresentação em São Paulo nesta sexta, 19 de outubro. “Eu quero subir no palco e ‘fazer o Bowie'”, comenta o músico, “quero colocar maquiagem, figurino e tocar muita música, porque era isso o que ele fazia”. “Ele é parte da cultura, ele tá lá dentro. Se você tirasse ele desse cenário, seria como tirar a costura por dentro de um terno, ele se despedaçaria. Ele é a cola dessa música que todos nós tocamos”, diz Moore.

Thiago Pethit

O músico paulistano já declarou publicamente mais de uma vez a influência que Bowie teve na concepção de seu segundo álbum, Estrela Decadente, mas quando foi que sua história com o músico começou? A resposta é inusitada e traz memórias da infância, de quando ele tinha cinco anos: “Meus pais ouviam muito Rita Lee, e eu me lembro de um dia que surgiu um disco do Bowie em casa – não lembro se era Hunky Dory, mas era algum dele nessa fase ‘bem ruivo’ – e eu tinha certeza que era Rita Lee (risos)”.

Se sua relação começou com um engano, ela se firmou com uma grande identificação que veio mais tarde, principalmente quando ele começou sua carreira. “Eu comecei a sacar que o que eu vinha pensando já tinha sido feito (risos). É claro que, a essa altura do campeonato, já gostava muito das músicas, mas a compreensão de que ele era um artista que estava o tempo todo driblando o mercado e o público com discursos, imagens e estética, sempre de um jeito muito esperto, muito cínico, fora e querendo escapar das caixinhas, isso eu só fui entender na época do Estrela Decadente mesmo”.

Em suas palavras: “Quando o mercado falava ‘ah, beleza, vamos todos consumir ETs drag’, ele falava ‘morreu a minha ET drag’. Ele era muito gênio, sabia quando virar o jogo dele mesmo, entender que precisava se transformar em outra coisa, o quanto ele se mostrava através das pessoas e o quanto não. Foi o artista que mais capitalizou em cima do anticapitalismo de maneira cínica, não se banalizando, não se tornando produto. Uma vez que entendi, ficou muito mais fácil fazer minhas próprias escolhas”.

Holly Laessig e Jess Wolfe (Lucius)

De passagem pelo Brasil para abrir os shows de Roger Waters, as duas figuras centrais da banda Lucius também apontaram o artista como uma de suas maiores influências. Para Holly, sua infância também foi marcada por Bowie, mais precisamente por Labirinto: “Eu era obcecada pelo filme, sabia toda a trilha sonora”, ela recorda, “não me lembro qual foi o primeiro álbum que ouvi, mas, quando Changesbowie saiu (1990), ele virou meu preferido”.

“Ele estava sempre se transformando, o que era empolgante pras pessoas, mas também para ele mesmo, porque ele nunca precisava ser o mesmo”, comenta Jess, “ele sabia estar em um momento e escrever algo que fosse bastante apropriado, que fosse importante ser dito, que poderia tocar a vida de qualquer um e transcendê-la. Esse é o sonho, e ele conseguiu fazer isso. Ele é provavelmente a versão mais icônica desse conceito”.

Ainda sobre lembranças de Bowie na juventude, Holly acrescenta: “Outra coisa que conecta muita gente a ele, e é o nosso caso, é que ele era um garoto suburbano em um lugar onde ninguém queria ver além ou fazer algo a mais, e ele se sentia um alienígena. Acho que é aí que você se identifica com ele, você olha e fala ‘eu também sou assim, você é meu líder alienígena’ (risos) ‘David Bowie me entende!’. Sempre que converso com pessoas que se ligaram a seu som quando bem novinhos, esse é o ponto em comum. Foi a nossa experiência, isso de se sentir deslocado e querer mais”.

E você, quando foi que ouviu David Bowie pela primeira vez? Onde você mais observa seu legado no mundo hoje?

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.