Breeders: 20 Anos do Último Splash

“Last Splash” faz 20 anos, ganha edição comemorativa, continua Pop e adorável como sempre e se mantém como um grande representante do Rock Alternativo Americano

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Nelson Rodrigues dizia que não há nada mais antigo que o passado recente. Quando resolvemos falar sobre eventos que aconteceram ali, nos anos 90, tudo parece muito, muito velho e fora de lugar. Ainda não houve tempo para reavaliação, para uma retomada, uma revisão de quase nada feito há vinte anos. Um sintoma neoliberal recente disso é o cacoete que a indústria musical – ou o que sobrou dela – adotou de lançar edições comemorativas de discos. Há décadas, fazer dez, vinte anos, significava visão e noção diferentes do que temos hoje. Tudo está mais rápido, mas, insisto, a regra de inversão proporcional entre tempos recentes e passados ainda permanece.

Por exemplo, pegue a virada da década de 80/90. Naqueles tempos pré-internet e pré-celular, algumas decisões realmente pesavam e importavam. Bandas como Pixies e Throwing Muses levavam adiante o estandarte do Rock indepentende americano, ao lado do Sonic Youth. O REM deixaria essa condição ao assinar com a Warner para o lançamento de Green, em 1989. Essa simples decisão, de assinar com uma gravadora chamada “major”, impactava significativamente na ordem do dia. O caminho natural e mesmo inevitável para todas essas formações passaria, em algum ponto, pela assinatura de um contrato com uma empresa multinacional de discos, significando mais dinheiro, mais drogas, mais conforto e mais confusão nas mentes não maduras de muitos rockstars surgidos nessa semeadura. Kurt Cobain é o maior exemplo. Claro, houve muitas bandas aqui e ali, capazes de fornecer história interessante. As Breeders foram um caso desses.

Kim Deal era baixista do Pixies. Tanya Donelly era guitarrista base do Throwing Muses. Ambas tinham talento suficiente para uma produção mais polpuda mas eram devidamente represadas pelas figuras de liderança em suas respectivas formações, a saber, Black Francis e Kristin Hersh, respectivamente. Kim e Tanya decidiram montar uma banda para dar vazão à sua produção alternativa e assim nasciam as Breeders, cujo nome era pinçado de uma formação da adolescência de Kim, que também contava com sua irmã gêmea Kelley. Com ambas nas guitarras, para o baixo foi chamada Josephine Wiggs e Shannon Doughton assumiu a bateria. Com esta formação e a produção de Steve Albini, a banda entrou em estúdio e gravou Pod, seu primeiro disco, em 1990.

A recepção foi muito além do que poderiam esperar. A banda logo deixou de ser um projeto paralelo e seu potencial para assumir todo o tempo das moças mostrou-se bem grande. Tanya não aguentou o tranco e decidiu formar sua própria banda, o Belly, que duraria dois discos. Kim permaneceu com as Breeders e, a partir do encerramento das atividades do Pixies em 1992, viu-se com tempo e espaço de sobra para manejar. Chamou sua irmã Kelley e o baterista Jim McPherson e gravaram um EP, chamado Safari. Logo havia mais material, o suficiente para um novo disco, que foi lançado em 31 de agosto de 1993, com o nome de Last Splash. Este é o nosso jovem garotão de 20 anos.

Como tudo que era produzido no início dos anos 90, Last Splash se apoia no binômio melodia/esporro, cortesia da estética daquele Rock alternativo americano, encharcado de sua mutação mais viável e assimilável, mesmo teoricamente menos capaz de agradar o ouvinte médio, o espectador de MTV e os nerds do high school: o Grunge. Claro que Breeders nunca foi Grunge, mas sua sonoridade com atestado de paternidade Punk procurava sempre a luz de fiapos melódicos aqui e ali. Era algo bastante parecido com o que o Pixies iniciara com seus primeiros discos, Surfer Rosa e Doolittle. Last Splash, no entanto, era mais “mulherzinha”, não que isso significasse frescura ou algo assim. O primeiro hit, Cannonball, foi logo para o coração dos fãs, dando lugar ao chiclete punk’n’pop que é Divine Hammer, com letra sobre pequenas e grandes taras femininas, em meio a pouco mais de três minutos de duração, com direito a pequeno solo de guitarra, algo raro na produção do período.

Logo as Breeders estavam na estrada, inclusive abrindo shows para o Nirvana e tocando como uma das grandes atrações no Lollapalooza, em 1994, quando o festival bolado por Perry Farrell significava muito mais que uma conferida nas prateleiras das gravadoras. Logo viria mais um hit, Head To Toe, mas a prisão de Kelly Deal por posse de drogas e sua posterior internação para reabilitar-se, causou a interrupção das atividades das Breeders. Elas voltariam a gravar novos discos, em 2002 e 2008, mas é de Last Splash, nosso aniversariante, que queremos falar.

A edição comemorativa de 20 anos do disco vem em CD triplo, trazendo o disco remasterizado, a íntegra de Stockholm Syndrome, um disco ao vivo, lançado na época apenas para o fã-clube da banda e um monte de sobras de estúdio, faixas demo, gravações ao vivo, inclusive a simpática cover para Happiness Is A Warm Gun, de uma dessas bandas novatas na época, os Beatles. Além disso, uma versão ao vivo de Iris no Festival de Glastonbury daquele 1994.

Hoje é bem verdade que os tempos “indie” e “alternativo” ganharam conotações negativas, algo que é justo, se pensarmos em termos da ausência de impacto e abundância de facilidades encontradas pelas bandas para lançar discos e adquirir liberdade criativa. Há tão pouco tempo, ser alternativo e indie significava assumir postura, arcar com responsabilidade, sair de casa, não ter gadgets da moda e posar de miserável, passar fome e dormir na rua. As Breeders não passaram por isso, mas sua sonoridade traduz bem esse período, um dos últimos em que havia um certo enfrentamento da situação por conta das decisões tomadas. Last Splash, disco Pop e adorável sob muitos aspectos, ganhou uma nova perspectiva. Recomendadíssimo.

The Breeders estará no Pitchfork Music Festival 2013, com cobertura do Monkeybuzz. Acesse nossa página especial e fique por dentro de tudo que acontece no festival.

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ARTISTA: The Breeders
MARCADORES: Aniversário

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.