Bruna Mendez: presente e entregue

Na versão deluxe de seu segundo disco, “Corpo Possível”, a artista se apropria de lugares particulares, antes inabitáveis – e segue testando os limites de sua face Pop

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Fotos: Junior Ribeiro

Ao longo das 11 faixas de Corpo Possível, lançado em 2019 com apoio da Natural Musical, Bruna Mendez transmuta entre várias figuras que, metaforicamente ou não, poderiam guardar histórias. Desde se projetar como uma concha no fundo do mar ou ser levada pelas ondas em “Pele de Sal”, parceria com Tuyo, a imaginar ser qualquer outra pessoa com medo, ou saudade — contanto que essa pessoa não seja ela.

Na versão deluxe, lançada em setembro, contudo, o caminho da artista é o inverso. Nas novas três faixas que ampliam o ciclo do segundo disco da cantora goiana, ela deixa ser inundada por ela mesma. “Essas canções são o corpo humano mais literal e entregue possível”, explica em entrevista ao Monkeybuzz.

As novas faixas, ainda que tragam a novidade das parcerias com June, Davi Sabbag e Tiê, são exclusivamente pessoais. “Em Corpo Possível saquei muitas coisas de outras pessoas, muitos sentimentos dispersos, muitas metáforas, mas nada pensando a partir de mim mesma. Essa é a minha parte agora”. A cantora explica que a ideia de lançar mais composições, na verdade, acabou se tornando uma necessidade. Sendo o primeiro motivo dar novos significados à obra que não pôde ser bem aproveitada pelo público ao vivo — o último show do disco foi em 8 de março de 2020, um dia antes da Organização Mundial da Saúde declarar estado de pandemia de Covid-19. O outro motivo, claro, é porque sempre temos um pouco mais para dizer.

O primeiro single “A Vida Segue, né?”, que conta com a participação da cantora June, foi o primeiro a dar start no novo ciclo de lançamentos do disco, além de ser o novo cartão de visita da jornada da artista fora das fronteiras do Brasil; Corpo Possível, na versão deluxe, também será distribuído digitalmente e em vinil nos Estados Unidos, França, Alemanha, Europa, Reino Unido, Itália e Japão. A segunda faixa “Mapa” contempla o ex-banda Uó, Davi Sabbag, parceiro musical e conterrâneo com quem Bruna sempre teve vontade de colaborar. O terceiro single inédito é “Me Chama”, faixa em que a artista divide o microfone com o vocal doce de Tiê.

Saboroso, sintético, instigante e Pop, Corpo Possível ganhou novas potências narrativas que reforçam a versatilidade e entrega criativa da artista, principalmente quando comparado com o primeiro disco O Mesmo Mar que Nega a Terra Cede à Sua Calma (2016), quando ela ainda entendia como se desprender da íntima relação com o violão de nylone e se aventurar pelo Pop. “Às vezes eu ouço e acho que não fui eu que fiz, porque acho as composições boas [risos]. Mas eu vejo que poderia fazer uma coisa melhor, só que já foi bom para a época. Não aceito que fui eu, mas foi, poderia ser melhor, mas já foi”.

Leia a seguir a entrevista de Bruna Mendez para o Monkeybuzz, na qual ela fala obre criações, identidade, encontros e parcerias.

 

 

Antes de a gente conversar sobre os seus lançamentos gringos, vinis laranjas lindos e o que vem por aí, queria fazer um paralelo do seu primeiro disco, que é bem diferente de Um Corpo Possível. Me conta um pouco sobre o que você estava pensando na época?

No O Mesmo Mar, eu estava em uma onda de canção e muito imersa nessa coisa da escrita de música brasileira, mas tentando buscar a minha identidade porque eu era uma pessoa de 20 e poucos anos, tentando achar minha forma de escrever. No início a gente ouve muita coisa e a reação imediata é querer reproduzir uma escrita que não é nossa e eu estava nesse processo durante muito tempo, porque música era algo que eu estava caminhando com a minha faculdade e, depois que me formei, fui trabalhar em uma agência, então a música era muito um hobby. Só que quando eu percebi que dava para fazer um disco, coincidiu de eu passar em uma Lei Municipal de Goiânia, então eu peguei as minhas referências e fui construindo as coisas. Eu cresci meio Cansei de Ser Sexy, ouvindo aquilo e amando, essas estruturas de música, de ritmo, essa coisa meio pop. Então tudo começou por isso. Só que aí eu queria que o Adriano [Cintra] produzisse e eu imaginei que seria uma boa mistura para aquele momento, apesar de eu trazer uma coisa de canção. A gente produziu junto e eu fui descolando, então acabou sendo um processo. Os discos são bem diferentes mesmo, mas acho que eles são um desdobramento do que eu vivi.

O que você sentiu que mais mudou na hora de produzir o segundo disco?

O que mudou é que eu já tinha quase 30 [risos].  Eu já não tinha esse tempo para ficar brincando, eu tinha que me resolver. Ou era faculdade, ou era agência, ou era música, todos não dava. Eu me desdobrava de um jeito cabuloso para conseguir. Então eu meio que aceitei e disse: ‘é música’, se não for, vou ser a pessoa mais triste do mundo [risos]. Em Corpo Possível assim que saiu o edital eu já pedi demissão e uns quatro meses depois eu fui para Curitiba começar a gravar. Não cheguei a ter um tempo de ficar escrevendo músicas, eu tinha muita ideia e muita coisa do que eu já vinha construindo no computador de 2016 a 2019, praticamente. Até o último momento desse disco eu estava experimentando coisas, processos diferentes. No primeiro disco eu estava com o meu violão e fazendo canções. Acho que me desprendi um pouco disso também. Entendi que a música podia ser um exercício, sabe? Que eu não precisaria pensar em uma letra, que eu poderia só pensar em um sentimento e compor uma base.

Também fui entendendo que tudo bem eu construir as coisas no estúdio e eu comecei a visualizar uma parada dentro desse meu limite do Pop que eu já vinha flertando com o Adriano, mas não achei que era o momento. O que fazer com esse sentimento de gostar de tanta cosia Pop. Então acho interessante a diferença das construções, é uma distância mesmo. Em Corpo Possível foram muitas experimentações, queria entender como era feita a música mais radiofônica, mas tendo aquele cuidado para não me soltar tanto porque com que cara eu ia cantar se eu não gostasse daquilo que estava fazendo. Acho que esse é o grande marco de: testar o meu limite do Pop e como sair dessa coisa que a gente tem no Brasil de que se você não é Pop, você é Indie e você não tem espaço. Isso acaba fazendo com que você seja inserido em um rolê de gente que não leva a carreira a sério, que faz as coisas de qualquer jeito e no fim eu só quero ser Pop.

Como você sentiu a influência de ir gravar em outro lugar que não era o que você já estava acostumada (em Goiânia)?

Eu sou daqui [de Goiânia], minha família mora aqui, então enquanto eu estivesse fazendo o disco existiria uma demanda natural de vida. Mas lá [em Curitiba] eu tava por conta de entregar esse disco, de fazer as coisas acontecerem e eu acabei construindo um jeito de produzir que eu já estava acostumada a fazer, que é a forma de produção do nerd [risos]. Aquela que você senta ali na frente do computador e vai fazendo as coisas. Foi muito foda ter a experiência de gravação que eu tive no O Mesmo Mar, porque foi uma parada de estúdio, com músicos, cada um levando o seu instrumento, mas é outro modo que também, enfim, não tem dinheiro pra isso mais, não é desse jeito que eu faço. Gosto de construir as coisas de forma meio solitária, e foi muito bom sacar que tem mais gente que faz isso e foi legal produzir o disco assim. Acho que foi importantíssimo ter ido gravar lá, grande parte do resultado do disco foi por isso, esse desligamento de Goiânia.

Falando em produção, você tem uma parte favorita da criação musical? Melodia, composição…

Gosto de loucuras de computador, porque apesar de eu conseguir fazer várias coisas em vários instrumentos, eu não sou, e talvez nunca vá ser, essa pessoa super cheia dos domínios. Meu negócio é no timbre, no computador. Obviamente eu componho as minhas músicas, gosto muito quando me dá essa vontade, mas parece que eu tô um pouco traumatizada, porque lancei o disco e nada rolou [risos]. Gosto do processo de compor, mas meu negócio é o computador.

“Em Corpo Possível foram muitas experimentações, queria entender como era feita a música mais radiofônica, mas tendo aquele cuidado para não me soltar tanto porque com que cara eu ia cantar se eu não gostasse daquilo que estava fazendo. Acho que esse é o grande marco: testar o meu limite do Pop e sair dessa coisa que a gente tem no Brasil de que se você não é Pop, você é Indie e você não tem espaço.”

Agora para falar um pouquinho sobre o lançamento do deluxe, como tem sido revisitar o seu disco e chamar as pessoas para trabalharem nele?

Às vezes eu fico um pouco triste, porque eu queria, de verdade, que não tivesse sido assim, que o caminho não tivesse sido esse. As músicas acabaram vindo como uma necessidade de fazer com que elas durassem mais tempo, é um disco que tem um potencial, mas eu precisava circular com ele, porque acho que eu não sou a pessoa que vai hitar, que vai lançar uma grandíssima coisa, ou vai ter dança no TikTok. Sou uma pessoa que vai construir as coisas aos poucos, e eu precisava desse contato com as pessoas. Então eu fico um pouco triste porque eu não queria que tivesse sido esse o caminho, até porque a gente previa outras coisas. então eu fico um pouco triste, porque eu não queria que esse tivesse sido o caminho que a gente previa outras coisas. Eu já tinha lançado o Corpo Possível no Japão em 2020, em CD, na versão normal, e as vendas foram super legais. Nem sabia que a galera comprava CD, e aí rolou de fazer o vinil, que eu acho muito foda porque já era algo que eu queria e que abraça bem o conceito do disco, só que tudo isso aconteceu nesse tempo. Queria ter ido para o Japão fazer uma turnê de lançamento. Mas é isso, de qualquer forma, é incrível pensar que tem gente que se importa com o seu trabalho a ponto de querer fazer isso rolar em outro lugar, por que as vezes é difícil, ainda mais quando você é pequeno e solitário, está fazendo mil coisas ao mesmo tempo. É meio difícil acreditar que existem outras pessoas interessadas no seu trabalho.

Mas inicialmente eu tinha ‘Mapa’, essa foi a primeira que eu pensei e gravar e ela não estava terminada. A gente não sabia o que ia fazer com isso, se eu ia lançar single, se ia ser uma extensão do disco. E aí eu acabei fazendo outra música que eu achei que seria legal gravar e aí a gente fechou uma extensão. Não compensa ficar lançando single se eu não vou lançar outro trabalho ou se não sei quando isso vai acontecer, então optamos pela extensão. Na época, eu não pensei em nada, parceria, quem ia fazer, as coisas aconteceram meio aleatoriamente. No caso do Davi, eu já queria fazer sons com ele há muito tempo, o disco dele foi um dos que eu mais ouvi e ele também lançou em 2019. Aí eu terminei a música e falei: ‘nossa, essa podia ser com o Davi, né?’ e aí mandei para ele e ele falou que a música não tinha refrão [risos], e a gente começou a fazer a música do zero. Mas não foi nada pensado, foi uma coisa natural de construir o disco. Eu tinha um pouco de medo dessa coisa de feat, uma insegurança, mas aí eu deixei passar e quando rolou, foi ‘vamo que vamo’.

E me conta, falando sobre a narrativa de Corpo Possível,  como você acha as novas músicas se encaixam nele?

Durante o Corpo Possível eu falo sobre vários corpos, e esse é o conceito do disco, que todo corpo é possível, então eu meio que fui por esse caminho. Essas canções são o corpo humano mais literal e entregue possível, porque tem algumas músicas mais metafóricas, tipo “Dancei”, “Pele de Sal”. Então acho que elas se interligam nessa questão do conceito de corpo, de ter essa parte que eu falo sobre as coisas da forma mais sincera e entregue. Essas três músicas não tem metáforas, não tem rodeios, é tudo direto. E, de alguma forma, elas se interligam porque todo corpo é um corpo possível e nessas eu estou falando do meu. No disco, eu saquei muitas coisas de outras pessoas, muitos sentimentos dispersos, muitas metáforas, mas nada pensando a partir de mim mesmo, então agora essa é a minha parte.

E quando você olha para trás e revê cada um dos seus projetos, como eles conversam com você?

Acho que os primeiros, principalmente o EP, eu tenho uma parada mais especial, porque eu produzi ele inteiro em casa. Só fui gravar algumas vozes e bateria em estúdio, o resto foi 100% no computador, em 2014. Então eu tenho apreço por ele, porque é algo que eu construí. Já com o Do Mar, às vezes eu ouço e acho que eu não fui eu quem fiz, porque eu acho boa as composições [risos], mas num geral eu olho pensando: ‘como eu fiz isso?’. Não consigo ouvir muito, principalmente por causa da voz, porque eu acho que não entendia como colocá-la na época. Eu gravei as 11 músicas em um dia só, [risos], a cabeça da pessoa. Ninguém faria isso. Então eu vejo como uma parada que eu consegui fazer, mas que eu poderia fazer uma coisa melhor, só que já foi bom para a época. Não aceito que fui eu, mas foi, poderia ser melhor, mas já foi.

Indica três artistas de música Pop brasileira?

Davi Sabbag, que teve um dos maiores discos Pop de 2019 e que jamais vai ser categoriazado como Pop. A Gavi, que eu acho que flerta com o pop, mas também com a Black Music, uma coisa mais groovada, e o Felipe Papi.

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ARTISTA: Bruna Mendez