Caddywhompus: Extenso Som Múltiplo de Dois

Em turnê pelo Brasil, duo americano prova que não precisa de mais nada além de seu talento e barulho para fazer um grande show

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Na semana passada, estive no Festival Bananada 2015 em Goiânia, um evento muito interessante para quem quer se deparar com música e estilos diferentes sendo bem aceitos pelo público. No meio de um extenso fim de semana, me deparei pela primeira vez com uma das bandas mais surpreendentes que tive a chance de ver ao vivo no evento, o duo de Math Rock e Noise, Caddywhompus. Sabendo de sua passagem por São Paulo na Casa do Mancha junto a Lisabi, não tive outra escolha se não rever o duo e aproveitar para bater um papo com seu baterista, Sean Hart.

O primeiro contato com o som desses meninos de New Orleans é no mínimo extraordinário: um duo que toca quase olho no olho em uma formação lateral dividida entre o guitarrista Chris Rehm e o baterista. Ambos parecem se comunicar de forma invisível com trocas de acordes e rudimentos através do feeling, enquanto texturas são colocadas cuidadosamente por ambos, criando na verdade diversas faixas dentro de uma só. Isso já seria impressionante por si só, no entanto, ambos dominam seus instrumentos de formas não convencionais – Chris palheta e dedilha sua guitarra em tempos quebrados, enquanto Sean joga sua mistura de Punk Rock e Jazz na bateria conciliando peso e orginalidade. Ao final, soam muito mais altos e completos que bandas com mais integrantes.

“Nós tocamos há muito tempo e éramos membros de um grupo com quatro músicos”, conta Sean”, “ele se dissolveu e continuamos a compor. Acabamos adaptando o nosso som a essa limitação (de duas pessoas) achando que, se conseguíssimos fazer isso, seríamos uma banda. A influência de tocar neste formado veio de Lightning Bolt e aqui estamos nós (risos)”. Aliás, sobre referências, Caddywhompus parece respirar bastante a sonoridade de Rock dos EUA, algo que surge com mais naturalidade no meio de sua extensa cena de Hardcore, Emocore e Math Rock.

“Existem muitos duos nos Estados Unidos e acredito que os vemos com mais frequência que no Brasil, por isso parece um som mais natural de lá”, continua Sean. No entanto, a cidade que ambos moram desde a adolescência os influencia de outras maneiras, apesar de sua cena restrita em relação a música experimental. Famosa pela sua história com o Jazz e outros ritmos regionais, New Orleans transmite um intercâmbio forte a quem vive lá – “se alguém com essa pegada Noise aparecer por lá, certamente seremos amigos. Mas é bom caminhar por lá e ver diferentes estilos e músicos talentosos tocando todo dia na cidade. Isso nos ajuda, com certeza”.

A experiência de ver Caddywhompus ao vivo é muito mais recompensadora que os seus ótimos trabalhos gravados, os discos Feathering Nest (2014), The Weight (2011) e Remainder (2010), além de outros EPs em sua discografia. Isso ocorre justamente pelo choque ao perceber que tantas texturas conseguem ser recriadas pelos músicos com muita naturalidade, além da evidente potência sonora que o duo ganha pelos seus intrumentos sendo jogados na cara do ouvinte enquanto Chris canta com sinceridade. O esforço e o encaixe nos deixam perplexos com o ato. Considerando a sua discografia, o seu último trabalho parece muito mais sereno que o anterior – “The Weight parecia ter Noise por todos os cantos e gostáriamos que os ouvidos das pessoas pudessem descansar no meio disso tudo”, diz o baterista. O resultado se deu em linhas instrumentais doces e quebras que deixam o silêncio encantador no meio de todo barulho.

Em turnê ainda pelo Brasil junto a Lisabi e organizada pelo selo Deboa Records, que une também E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante e Odradek (para reunir a “música estranha da região” segundo seu fundador, André Cardoso), os americanos ainda poderão ser vistos até o final do mês no Brasil. Neste fim de semana, desembarcam em Volta Redonda (22), seguindo para Petrópolis (23), Rio de Janeiro (24) e completando no Estado de São Paulo shows em Campinas (28), São Carlos (29), Bauru (30) e Bragança Paulista (31) – o cartaz pode ser visto abaixo.

Mostrando ter um dos shows mais surpreendentes deste ano, Caddywhompus não deve ser perdida ao vivo, principalmente por dividir os palcos com um dos atos mais extraordinários da nova música brasileira, Lisabi, que fez um concerto matador na última quinta-feira (21) na capital paulistana. Aliás, ambas compartilham sonoridades complementares e que, se parecem “estranhas” para desconhecidos, isso ocorre pela forma com que interpretam suas músicas e que se portam no palco, sempre explosivos e ao mesmo tempo melódicos. Imperdível.

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ARTISTA: Caddywhompus
MARCADORES: Conheça, Entrevista

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.