Cadê: “A Banda do Zé Pretinho”, de Jorge Ben

Primeiro lançamento do músico pela Som Livre se concentra em romance e malandragem

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Muito antes de ser “Ben Jor”, Jorge Duílio Lima Menezes era apenas Jorge Ben. Não que isso fosse pouco, uma vez que ele era uma das maiores estrelas da música brasileira. Dono de uma verve única, capaz de misturar malandragem do subúrbio carioca, ensinamentos de alquimia, futebol e uma levada de violão única, Jorge conseguiu ser sucessor da Bossa Nova, ex-Jovem Guarda e tropicalista, num espaço de seis anos, sem nunca ser exatamente uma dessas três opções. O que se descobre a partir de 1969, quando lança um disco homônimo com pinta de coletânea de sucesso, no qual estavam incluídas gemas como Que Pena, Charles Anjo 45 e País Tropical, entre outras, é que Jorge havia criado uma música própria, intransferível e muito próxima da perfeição.

A fase áurea da carreira de Jorge está na primeira metade dos anos 70, quando ele desenvolve essa “música Ben”, própria e intransferível, que alguns pensam que se chama Samba Rock. O rótulo é fraco, uma vez que as composições de Jorge comportam influência de Soul, Funk, Blues e uma brasilidade inerente e natural que não cabe em caixas delimitadoras, mas que, no caso dele, simplesmente flui em momentos singelos, como um verso ou um arranjo de cordas ou mesmo uma sequência de acordes do violão. Em 1976, Jorge gravou o disco África Brasil, no qual liderava a Admiral Jorge V, basicamente uma banda de Rock, devidamente enriquecida por percussões e metais em brasa, capaz de criar uma variante mais elétrica e pesada das composições acústicas que marcavam sua obra até então. Logo depois desse disco, Ben lançou um álbum chamado Tropical, com foco no mercado exterior, gravado na Inglaterra para o selo Island. Este foi seu último registro para a Phillips/Polygram.

A partir de 1978, ele seria uma das maiores estrelas do elenco da Som Livre, tentáculo musical da Rede Globo, responsável pelo lançamento das trilhas sonoras das novelas da emissora. A ideia de Jorge Ben era soar Pop dentro de sua própria lógica musical, ficavam um pouco de lado as conversas sobre alquimia e vinham para frente as canções de amor, futebol e malandragem. Em vez da Admiral Jorge V, a Banda do Zé Pretinho surgia como sua pequena orquestra de apoio. A mudança era tão importante que seu primeiro disco para a nova gravadora foi batizado com o nome da banda. Há um consenso emburrecido que a fase de Jorge na Som Livre (entre 1978 e 1986) é fraca e não merece atenção. Nada pode ser mais equivocado, uma vez que há grandes momentos. Este primeiro disco está no mesmo nível de seus melhores trabalhos na Phillips. A abertura com A Banda do Zé Pretinho, serve como um cartão de visitas da nova fase, mais calcada na alegria e pulação total.

A produção de Paulinho Tapajós, que já trabalhara com Jorge na antiga gravadora, mostra- se adequada ao espírito do novo som, mais Pop, mais suingado, mais elétrico. Troca Troca, no espírito das transações mercadológicas do futebol da época, hoje soa adoravelmente ingênua, enquanto Bom Dia, Boa Tarde, Boa Noite baixa a bola para adotar um tom sinuoso e lânguido, com levada de quase samba e arranjo de cordas celestial. Cadê O Pênalti traz o futebol para o centro das atenções, com uma narrativa épica sobre uma penalidade máxima que não foi marcada pelo juiz. A antiga Loteria Esportiva, popularmente conhecida por Loteca, surge como a ponte entre a malandragem e o futebol em Era Uma Vez 13 Pontos e a religiosidade, outra marca registrada da verve de Jorge Ben, aparece firme em Menino Jesus de Praga e Viva São Pedro.

Os grandes momentos de A Banda Do Zé Pretinho estão enfileirados numa trinca de clássicos esquecidos pela maioria dos neofãs de Jorge Ben, típicos da geração formada no leite com Toddy informacional que é a Internet. Amante Amado, certamente uma das mais belas canções de amor já feitas por ele, tangencia o samba, se vale de arranjos de violinos que parecem tocados por anjos, enquanto a letra, verdadeira e mundana até onde é possível, traz o verso “eu quero que você me pegue, me abrace, me aperte, me beije, me ame e depois me mande embora, e eu vou feliz da vida, amor” mostrando lirismo onde menos se espera. Berenice vem logo após, com uma das construções mais geniais de todo o arsenal lírico de Ben, no qual todas as rimas são com final “ice” com derivações inesperadas como “Tom Mix” e “service” (esta última, querendo dizer “serviço”). Fechando a trinca, Denize Rei é corruptela de Desirée, outra canção de amor quando menos se espera, com direito a um certo voyeurismo que se equilibra entre o amor platônico e a obsessão.

A carreira de Jorge Ben seguiria na Som Livre até fim dos anos 80. Em 1989, ele lançaria Ben Jor pela Warner e inauguraria nova fase, que seria marcada pela superexposição a partir de 1992, 1993, quando foi redescoberto a partir de uma canção chamada W/Brasil.

A Banda Do Zé Pretinho foi lançado em CD em 1994. Saiu de catálogo em seguida e nunca foi reeditado. Seu preço em sites de vendas da internet varia entre R$130,00 e R$200,00.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.