Cadê – Astromato – Melodias de Uma Estrela Falsa (2001)

Único disco da banda de Campinas é tesouro do Rock de guitarras brasileiro

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Todo mundo já teve uma outra vida e comigo não é diferente. Foi lá em 2001, numa outra cidade, num outro mundo. Era um dia ruim, particularmente terrível, com vazamento na cozinha, uma conta de telefone altíssima e um certo desconforto no coração que só se transformaria em verdade incontestável alguns anos depois. Até que chegou o correio. Era desses lugares em que a gente vai até a porta para receber o carteiro e, nesse dia estranho, só havia um pacote para mim: o disco de Astromato.

Tenho a certeza que pouquíssimos ouviram falar desta banda maravilhosa da cidade paulista de Campinas. Não é pra menos. Astromato permaneceu como um segredo de poucos afortunados e sucumbiu às circunstâncias um ano após lançar o primeiro CD, Melodias de Uma Estrela Falsa, em 2001. Quem bancou o investimento de viabilizar o álbum dos rapazes foi Rodrigo Lariú, mestre dos magos no selo midsummer madness (com minúsculas mesmo). Ele também já fora responsável pelo lançamento das duas fitas-demo da banda, Astromato e Sonhos Em Hi-Fi, que chegaram até mim na antiga revista Rock Press, por volta de 1999/2000. Quando ouvimos as harmoniosas canções na redação, todo mundo parou para prestar atenção e entender como algo tão simples em termos musicais só havia sido feito com êxito naquelas duas fitas: cantar em português fazendo Rock de guitarras. Pode parecer engraçado mas isso era quase impossível naquele fim de anos 1990. A matriz de inspiração de Astromato estava clara naquelas faixas, indo de Teenage Fanclub, Ride e The Jesus And Mary Chaine pousando numa inesperada conexão com Lô Borges, passando por uma escala nos primeiros três álbuns de Legião Urbana. Sim, tudo isso estava contido na sonoridade pura e cristalina daqueles demos e, um ano e pouco depois, no primeiro CD.

A banda evoluiu na primeira metade da década de 1990, tendo iniciado suas atividades como Weed. A partir dela, Fabrício, Armando e Pedro (junto de Alexandre, baterista), participaram do circuito alternativo da cidade e da região, enfrentando o dilema de cantar em inglês e não soar como um clone das bandas enguitarradas inglesas que pipocavam naquela época. Após um hiato, marcado pela viagem de Pedro para o exterior, haveria o renascimento, já com o nome de Astromato e com várias composições em português, escritas por Pedro quando estava fora do país. Isso mudou tudo, principalmente porque todos se sentiram mais à vontade para compor e agregar novas influências – brasileiras – ao som da banda. Começaram lançando as demos e divulgando-as na medida do possível. Foi neste momento que a redação da Rock Press se viu alegrada pela chegada daquelas canções tão simples e belas ao mesmo tempo. Um exemplo dessa belezura toda pode ser conferido na mureta de guitarras que envolve No Macio, No Gostoso, em sua versão na demo que leva o nome da banda. Toda a vontade de se ter uma banda e estar num palco está ali, condensada nos pouco mais de três minutos de duração.

Das demos, então, veio o disco. Melodias… é bem produzido (pela banda) e todo gravado no estúdio de Armando, o Piranha. Ali as canções foram regravadas e enfileiradas uma a uma, para o deleite do ouvinte. Ainda que muitas apareçam menos rascantes que nos registros das fitas-demo, a audição é mais que recompensada, principalmente por pequenas maravilhas como Cadeialimentar, Através Da Chuva e, sobretudo, Canção do Adolescente, cheia de versos bonitos e apropriados, como ela se foi, eu não ligo, dias melhores não demoram a chegar, que traduzem a dor e a delícia de ser jovem, acreditar no amor e não ser correspondido por quem, no nosso entendimento, deveria fazê-lo o tempo todo, todo o tempo. Das cinzas do Astromato vieram duas bandas, Radiare e Arctico Blue, que lançaram discos interessantes mas ficaram na poeira desta estrada triste.

Se você encontrar uma cópia de Melodias… em algum sebo, compre sem hesitar pois não há qualquer vestígio de alguma disponível para venda por aí. Se quiser ter as canções em mp3, vá até o site da midsummer records e baixe as demos e o CD na boa. Você merece ouvir em 2014 essas canções inocentes, perfeitas e deliciosamente amareladas pelo tempo e pelas curvas do caminho.

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ARTISTA: Astromato

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.