Cadê – Beto Guedes – Sol de Primavera (1979)

Terceiro disco do compositor aliou lirismo e pegada radiofônica

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Alberto Guedes nasceu em Montes Claros, interior de Minas Gerais. Com nove anos de idade, mudou-se com os pais para Belo Horizonte, cidade para a qual ia nas férias de verão. Era só um menino tímido e quieto, admirador das serestas das quais o pai, Godofredo Guedes, participava. Um dos grandes prazeres do garoto era ver o velho compondo seus chorinhos e não tardou a aprender violão. O instrumento teve efeito milagroso na vida de Beto, que, mesmo sem deixar a timidez extrema de lado, decidiu (ou percebeu) que a música seria sua atividade principal na vida. Estudou até a quarta série e abraçou uma rotina de viver com o pai, compor, aprender as coisas da forma mais simples possível e, além disso, montar miniaturas de aviões, sua outra grande paixão. Nada disso foi planejado, era algo mais ou menos normal naquele início de anos 1960. Quando vieram morar em Belo Horizonte, os Guedes foram se instalar a poucos metros de outra família: Os Borges. E, a partir disso, tudo mudaria para o jovem Alberto, a partir do momento que faria amizade com os jovens Yé, Márcio e Salomão (Lô) Borges.

Era o início de uma das facções mais interessantes do que se chamou Clube da Esquina: aquele grupo de compositores, poetas e músicos mineiros, todos reunidos na esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, naquela Belo Horizonte com cara de cidade do interior, às vésperas dos anos 1970. Beto Guedes e Lô logo se afinaram musicalmente, fãs de The Beatles que eram. Chegaram a ter uma banda, chamada The Beavers, que tocava nas festas da moçada, mas que não foi muito além. Em pouco tempo, mais precisamente em 1969, Beto já estava a caminho do Rio de Janeiro, pois uma de suas primeiras composições, Feira Moderna, em parceria com Fernando Brant, seria defendida no V Festival Internacional Da Canção, pelo grupo Som Imaginário, que era formado por músicos mineiros e paulistas, que acompanhavam as gravações que Milton Nascimento, amigo do Clube, já vinha realizando desde 1967. Dessa aproximação, veio o convite de Milton para que Beto participasse das gravações do novo disco que estava preparando, uma homenagem àquela galera que respirava música no cruzamento das esquinas. Batizado Clube Da Esquina, referência explícita ao pessoal, o álbum duplo se tornou um dos grandes marcos da uma música brasileira que estivera oculta pelo barulho da Tropicália e o frenesi da Jovem Guarda.

A carreira de Beto iniciou-se ali mesmo. Em pouco tempo, já contratado pela EMI-Odeon, ele participaria de outro disco de Milton, Minas, em 1975. Dois anos depois, após uma curta passagem pelo grupo 14 Bis, Beto lançaria seu primeiro álbum solo, A Página Do Relâmpago Elétrico, apresentando uma variação mais roqueira e enguitarrada da estética do Clube, chegando a ter flertes firmes com o Rock Progressivo, tão em voga na época. Beto seguiu em ascensão e, sem saber, uma das canções deste primeiro trabalho seria adotada como um hino hippie tardio: Lumiar. Homônima do distrito da Serra Verde Imperial, perto de Nova Friburgo, a música seria transformada em sinônimo de vida simples, em contato com a natureza, num ritmo mais lento que a das cidades. A ideia era viver no mato, viver da terra, coisas assim. Era o movimento de retorno daquela juventude urbana, que tentara mudar o mundo uma década antes. No Brasil do governo Figueiredo, isso era tão revolucionário quanto marchar. O segundo disco de Beto, Amor de Índio, trazia seu grande sucesso Feira Moderna, devidamente regravado e com potencial radiofônico inegável. Apesar de canções lindas como a faixa título, Só Primavera e Luz E Mistério, o álbum ainda não faria de Beto um ídolo. Ainda.

O grande momento da carreira viria com o terceiro álbum, Sol de Primavera, cuja faixa título foi logo escalada para integrar a trilha sonora da novela global Marina. Em pouquíssimo tempo, a canção estava nas rádios do país inteiro, impulsionando o disco para o primeiro lugar das paradas da época. Com o mesmo discurso de vida melhor numa cidade menor, em contato com a natureza e primando pelos valores mais simples, num clima de harmonia total. De alguma forma, tais mensagens chegavam claras e emocionantes a quem ouvia. No meu caso, então com nove, dez anos de idade na época, lembro-me de ir de carro com minha família para Petrópolis e sentir algo que perdura até hoje, que tem exatamente a cor, a forma e as palavras dessas canções. Significava deixar o Rio para trás, subir a Serra e chegar num modelo controlado e imperfeito de paraíso, mas que se materializava nas férias do colégio, no jogo de futebol no jardim, nas pipas que fazíamos e empinávamos. Outras canções surgem nesta mesma direção, como a linda Cruzada, a suingada Roupa Nova, a versão singela de Norwegian Wood (de The Beatles), o choro lento Casinha de Palha, o instrumental Monte Azul e a emocionante e belíssima Pela Claridade Da Nossa Casa com o verso dilacerante “É tudo seu e é nada, não. Bastaria a vida toda pra saber quando foi que tudo começou”, tão simples quanto a vida que se imaginava através dessas músicas lindas.

Sol de Primavera seria o degrau mais alto de popularidade que Beto experimentaria. Seu álbum seguinte, meu favorito, Contos da Lua Vaga (1981), traria mais canções pungentes e marcaria seu último trabalho praticamente perfeito. Com Viagem das Mãos (1984), Alma de Borracha (1986) e, principalmente, Andaluz (1991), sua carreira encolheria gradativamente e suas aparições em disco se tornariam cada vez mais raras. Seu último álbum de inéditas é o bom Em Algum Lugar, lançado em 2004.

Remasterizado e relançado em CD no fim dos anos 1990, Sol de Primavera está fora de catálogo mas pode ser encontrado por valores que variam entre R$30,00 e R$100,00.

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ARTISTA: beto guedes
MARCADORES: Cadê?

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.