Cadê: “Carecas da Jamaica” – Nei Lisboa (1987)

Disco marcante na carreira do músico é hoje uma raridade, sendo encontrado apenas em sebos e por meio de colecionadores

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Já era possível afirmar em pleno 1987 que o Brasil tinha uma cena de músicos produzindo Rock. Ninguém sabia, entretanto, que o estilo estava a ponto de iniciar uma lenta decadência, que culminaria com seu reempacotamento numa forma diferente, a partir da chegada da MTV no país no início da década seguinte. Além disso, os artistas já experimentavam mudanças em suas vidas, beiravam os trinta anos e já não exibiam a ingenuidade de antes. Outro fator importante para comprovar a existência de uma “cena Rock” no país era a chegada de artistas oriundos de outras localidades fora do eixo Rio-São Paulo. Representando o Rio Grande do Sul, estava Engenheiros do Hawaii, que havia lançado seu primeiro disco em 1986, chamado Longe Demais Das Capitais, ironizando a distância que existia entre Porto Alegre e as cidades do eixo.

A banda era a primeira representante do Rio Grande a romper o bloqueio da distância e emplacar suas canções nos programas de TV e emissoras de rádio do país. A existência de uma vigorosa cena em Porto Alegre passou a ser de conhecimento do resto do país, o que levou as gravadoras a olhar para o Sul, em busca de novos talentos. À medida que o segundo disco da Engenheiros do Havaí, A Revolta dos Dândis, avançava na preferência nacional, fazendo frente a Titãs, Paralamas Do Sucesso e Legião Urbana, a EMI anunciava a contratação de Nei Lisboa. Oriundo de uma tradição boêmia da capital gaúcha, Nei era muito mais conectado com o espírito de uma Porto Alegre do fim dos anos 70, não era um artista de Rock, com uma obra maior que o estilo, mais abrangente e mais conectada com as tradições musicais do estado. Nei viera de sua Caxias do Sul natal para Porto Alegre em meados dos anos 60. Naqueles tempos, sua maior influência era seu irmão mais velho, Luis Érico, que ensinou o menino a ler e escrever, além de fornecer algumas noções políticas importantes. Ico, como era conhecido, seria capturado pelos órgãos repressores da ditadura militar e assassinado.

Nei cresceu rodeado de música. Já tocava violão e, ao retornar de um intercâmbio que o levara aos Estados Unidos, começou a compor e transitar pela Faculdade de Música da UFRGS e pela noite boêmia do Bom Fim, bairro com o qual se identificou desde que chegou em Porto Alegre. Era a época do Deu Pra Ti, Anos 70 (algo como já chega, anos 70) , que seria o título de um show com artistas locais e de um filme, rodado em Super 8 e dirigido por Werner Schünemann, feito a partir de uma crescente insatisfação por parte da juventude com a vida sob a mão pesada da ditadura. Ao mesmo tempo, inspirada por esse espírito, a dupla Kleiton e Kledir gravaria Deu Pra Ti, canção que traduzia justamente essa sensação de “saco cheio”. Nei Lisboa conseguiu gravar seu primeiro disco, Pra Viajar No Cosmos Não Precisa Gasolina, em 1983, de forma independente. A faixa título havia faturado o Musipuc, prêmio dado pela PUC-RS num festival em 1980 e a canção logo entrara na programação da Rádio Bandeirante, que mudaria seu nome para Rádio Ipanema, uma das grandes responsáveis pelo surgimento da própria cena Rock da capital gaúcha.

Em 1984, ele lançaria seu segundo disco, Noves Fora, e assinaria seu contrato com a EMI dois anos depois. Na mesma época, Augusto Licks, que tocava com Nei desde o início dos anos 80, foi convocado para assumir as guitarras no Engenheiros do Hawaii. Da aproximação entre Nei e a banda, surgiram algumas colaborações para o terceiro disco do cantor, o primeiro a ser lançado pela nova gravadora. Carecas da Jamaica já chegou com pinta de campeão. Uma releitura sombria de Toda Forma de Poder, sucesso do primeiro disco dos Engenheiros, já mostrava as conexões entre Licks e Nei, além da participação de Humberto Gessinger, o engenheiro-chefe, na faixa-título. A homenagem ao bairro boêmio vinha em Berlim-Bom Fim, a galhofa de Refrão aparece extremamente bem vinda, a abertura sensacional em Rio By Night e seu verso O Brasil é uma Grande Nação Tupi. O grande momento dourado de Carecas atende pelo nome de Verão Em Calcutá, simplesmente uma das grandes músicas compostas no país durante a década de 1980, tão Pop e lírica que levou Nei a se apresentar em programas como o Clube Do Bolinha, onde o vi pela primeira vez. A canção me chamou a atenção imediatamente e fui buscar mais informações sobre seu trabalho, adquirindo o LP poucos dias depois. Ao fim do ano, Neil Lisboa levaria para casa o Prêmio Sharp de Artista Revelação.

Nei soltaria outro disco pela EMI pouco tempo depois, chamado Hein?, que foi mal compreendido pelos executivos da gravadora, uma vez que trazia uma tristeza latente em suas canções, causada pelo falecimento de uma namorada num desastre automobilístico sofrido por ambos. A EMI ofereceria uma “oportunidade de ouro” para Nei fazer sucesso num nível nacional. A novela global Top Model teria uma versão em português para Hey Jude, dos Beatles, e Nei foi cogitado para gravar. Ele até se interessou, achando que a letra em português seria da autoria de Ronaldo Bastos, mas os versos em português eram de outro compositor, Rossini Pinto. Quando os leu, Nei declinou e foi colocado na geladeira pela EMI, sendo demitido pouco depois. Kiko Zambianchi gravaria a versão e chegaria ao primeiro lugar da parada de sucessos.

Nei Lisboa segue firme em sua carreira. Lançou ano passado seu décimo disco, A Vida Inteira, fiel à sua poética e sua estética da capital do Rio Grande, um lugar cheio de detalhes e idiossincrasias, curiosamente ocultas da maior parte do território nacional. Carecas da Jamaica segue como seu maior sucesso, foi relançado em CD em 1999 e já está fora de catálogo. Em sites, é possível adquirir um exemplar por valores que variam entre R$50,00 e R$ 150,00.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.