Cadê: Gerson King Combo – “Volume 1” (1977)

Primeira parte da obra do ótimo músico caiu no esquecimento, sendo hoje uma raridade

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Se você acha que artistas como Emicida e Criolo são a última bolacha do seu pacote musical, saiba que, sem qualquer exagero, eles (e quase toda a música black brasileira) não existiriam se não fosse por mitos da envergadura de Ademir Lemos, Big Boy, Toni Tornado e, o maior deles, Gerson King Combo. Típico personagem daquela virada da década de 60/70, Gerson Cortes foi coroinha, futura promessa das divisões de base do Madureira (simpaticíssimo clube do subúrbio carioca), paraquedista militar, dublador e dançarino no programa Hoje É Dia De Rock e, só depois disso tudo, cantor e aspirante a mito. Seu irmão, Getúlio Cortes, compositor de canções como Negro Gato, era figura respeitada por Roberto Carlos e conseguiu um bico de dançarino para Gerson, função que ele desempenhava com maestria, chegando a coreógrafo do programa e, mais tarde, das chacretes do Chacrinha. A rotina de aparecer na TV e ver de perto os astros e estrelas da música jovem brasileira daquela época levou Gerson a cantar em grupos como Fevers e Renato e Seus Blue Caps para depois entrar para o time de cantores da Banda Veneno, do maestro Erlon Chaves. A nova função levaria nosso herói para o exterior e tudo mudaria a partir daí.

Após regressar de viagem aos Estados Unidos, onde conheceu James Brown e Stevie Wonder, Gerson chegou ao Rio em total sintonia com os primeiros passos do movimento Black Rio. Enquanto os DJ’s Ademir Lemos e Big Boy (também radialista e visionário) levavam as noites do Baile da Pesada adiante, Gerson, que voltara cheio de roupas coloridas, moderníssimas e desconhecidas por aqui, decidiu que era o momento certo de assumir o posto – vago – de James Brown brasileiro. Nosso herói não era o único em sintonia com a música moderna americana e suas andanças pelos novíssimos bailes de subúrbio (antecessores classudos dos bailes Funk e Charm) o levaram a conhecer muita gente que participava daquele momento de criação: Tim Maia, Sandra de Sá, Carlos Dafé, Dom Salvador, Cassiano, Oberdan Magalhães, entre muitos outros. Em pouco tempo, Gerson participaria de encarnações primitivas da Banda Black Rio e assumiria o posto de cantor da banda União Black em 1975. Já como Gerson King Combo, nome inspirado no grupo de Jazz americano King Curtis Combo, ele estava pronto para fazer história com o primeiro disco da União Black, lançado em 1977, ficou evidente que Gerson era maior que o grupo. Com contrato assinado com a Polydor, o homem soltou seu primeiro disco solo no mesmo ano. Gerson lotava shows no subúrbio chegando num Dodge Dart e com um funcionário pago apenas para retirar e colocar sua capa nas apresentações.

Gerson King Combo, o disco, é uma obra-prima da música negra brasileira, aquela mistura perfeita de Soul e fFnk americanos com uma inefável malandragem de subúrbio, surgida aqui, mas com um dado interessantíssimo: a postura herdada do movimento negro americano. Na época, início dos anos 70, havia algo interessante no ar, a ideia da existência de um “negro universal”, que estava em construção. Era uma identidade que trazia conhecimento adquirido na África, por conta dos processos recentes de independência das colônias francesas, inglesas e portuguesas no continente negro; uma “rodagem” contra o racismo obtida no sul dos Estados Unidos. Essa universalidade recente à época, era traduzida em grupos como os Panteras Negras, em gente como Martin Luther King, Malcolm X e nos artistas negros, como James Brown, Marvin Gaye, Stevie Wonder e Smokey Robinson, todos engajados e conscientes – em diferentes intensidades e demonstrações – do papel deste homem negro universal em construção. Essa noção estava contida no orgulho negro que se estabeleceu no Black Rio, da elegância das canções à elegância das roupas.

Canções erguidas sobre fortíssima base instrumental, que deixavam pouquíssimo a dever em relação ao melhor da música americana da época, eram a tônica do primeiro disco de Gerson. Com discurso e indumentária cheia de mensagens assimiladas da universalidade negra, Mandamentos Black chegava como uma carta de intenções e versos do calibre de “dançar como dança um black, cantar como canta um black” logo na abertura do disco, mostrando que o homem não estava para brincadeira. Outros momentos em que há a conjunção Brasil x Mundo, em termos de cultura negra, são Ele É o Nosso Black Brother, God Save The King (em homenagem a Martin Luther King) e a sentimental Andando nos Trilhos, em que a epopeia pessoal de Gerson serve como ilustração perfeita dos caminhos percorridos pelos negros, pobres e suburbanos do Brasil – e do mundo – naqueles tempos.

A união entre sonoridade e discurso dá uma qualidade inestimável ao primeiro disco de Gerson. Foi o momento em que a sintonia entre a música brasileira e a música mundial se estabeleceu contra todos os prognósticos e suposições. No ano seguinte, ele lançaria Volume 2, ainda bastante interessante, mas sucumbiria – como quase todos os artistas negros daquele tempo – diante da Disco Music feita no país. A música negra não-sambista ainda ficaria uma década sem manifestações de peso, mas iniciaria os anos 90 com uma geração inteira de artistas cariocas, paulistas e de vários cantos do país, devidamente influenciados por luminares como Gerson, que gravou novo disco em 2000 e está vivo e se apresentando pelo país à frente da banda Supergroove. Se ele passar pela sua cidade, faça de tudo para vê-lo.

Volume 1 foi lançado em CD na série Samba & Soul, da Universal, coordenada por Charles Gavin, em 2001 e está fora de catálogo. O preço dos LP’s ultrapassa os R$ 300,00, não constando versão em CD à venda em nenhum site.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.