Cadê: “Música e Ciência”, o primeiro disco d’Os Mulheres Negras (1988)

Primeiro lançamento do duo paulista atualmente se encontra fora de catálogo e é considerado uma raridade por colecionadores

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“O Brasil não está preparado para Os Mulheres Negras”. Esta frase foi dita pelo produtor musical Pena Schmidt, após ouvir uma fita demo em 1987. André Abujamra (guitarra e voz) e Maurício Pereira (saxofone e voz) eram os responsáveis por aquele pequeno feixe de canções, que serviria para Schmidt bater o martelo e referendar a contratação dos sujeitos pela toda poderosa Warner Music Brasil. Convém voltar um pouco no tempo antes de avançar nessa história ou, como diriam os Mulheres, fazer como Lenin, dando um passo atrás para dar dois à frente.

A São Paulo de 1984 era um lugar estranho às vezes. Havia, por exemplo, a possibilidade de, naquele tempo, fazer um curso de percussão africana com Daniel Slon, um discípulo do músico argelino Guem. Entre os interessados estavam Maurício, prestes a se formar em jornalismo, e André, fillho do diretor e ator teatral Antônio Abujamra. Em meio às rodas de congas e atabaques, os dois viram semelhanças musicais e os mesmos planos de domínio mundial através da subversão da música Pop pelos ritmos brasileiros. No ano seguinte, os Mulheres Negras já eram uma realidade. O nome foi escolhido a partir de uma pesquisa em livros e enciclopédias, efetuada na casa de André, em Santa Cecília, bairro da capital paulistana. Inicialmente a banda surgiu na noite paulistana, fazendo shows em bares com repertório de covers. Para diferenciar sua performance, os dois apareciam com chapéus coco de palha, vestidos com sobretudo e introduziam um verdadeiro espetáculo teatral em meio às músicas, composto por piadas, causos, paródias e um uso anárquico da tecnologia disponível na época, obtida através de incursões nerds no “laboratório” de Santa Cecília. O objetivo era amplificar e mesmo tornar viável um show apenas com saxofone, guitarra e voz.

Com dois anos de militância na noite, Mulheres Negras já haviam registrado fitas demo de todos os tipos e já estavam no ponto para assinar com uma gravadora. Uma dessas fitas chegou até a Warner, que já dera abrigo ao Ultraje A Rigor, ao Ira!, aos Titãs, todos paulistas e bem sucedidos àquela altura. O diferencial de Mulheres Negras em relação ao que se ouvia no Rock Brasileiro da época era o conteúdo humorístico e teatral. Eles eram herdeiros da chamada vanguarda paulistana, donos de humor fino, formação universitária e conhecimento musical amplo. Era possível imaginar que a música que produziam talvez se tornasse inacessível a um público maior. Os Mulheres resolveram introduzir doses maciças de música brasileiras em suas composições próprias, que vieram naturalmente com a rotina de shows na noite.

Quando assinaram com a Warner, tiveram ao seu dispor os grandes benefícios daqueles tempos: acesso a um estúdio de primeira qualidade e a chance de uma distribuição digna para o disco. Com o nome de Música e Ciência, reforçando o caráter nerd-dominatório mundial, os Mulheres romperam a barreira do underground paulistanto. Canções como Sub, Milho, Orelhão e Feridas convivem com versões anárquicas de Summertime (dos irmãos Gershwin) e Samba do Avião (de Tom Jobim), tudo num bololô cultural, cheio de respeito tecnológico e coerência estética. Apesar de amigos, André e Maurício sempre se valeram da tensão entre ambos para ampliar a qualidade do trabalho, muitas vezes surgido na base da boa e velha porrada.

Música e Ciência não foi um hit comercial – nem poderia – mas assegurou a existência de um segundo disco, Música Serve Pra Isso, lançado em 1990, com uma preocupação maior com a parte musical, no sentido radiofônico do termo. Como André e Maurício mesmo dizem, a banda acabaria logo após o segundo trabalho porque ele e Maurício eram “dois putas caciques” numa banda em que não havia mulher e nem índio. Cada um foi pra seu lado nos anos 90, com André criando o grupo Karnak e Maurício numa carreira solo interessante. Assinaram uma versão bonitinha para Mestre Jonas, de Sá e Guarabira, contida na trilha sonora do filme Durval Discos e celebraram o fim da banda com um show. Em 2010 os Mulheres retornaram à ativa, mantendo sua tradição de defender seu posto de “a terceira menor big band do mundo”, epíteto adotado desde o início da carreira. Se fizerem um show em sua cidade, faça de tudo para não perder.

Os dois discos da dupla foram lançados em CD em 2001, na série Warner Arquivos e estão fora de catálogo. Podem ser encontrados em lojas obscuras (com muita sorte) e em sites de compras na internet, com preços que variam de R$ 85,00 a R$ 285,00.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.