Cadê – O Primeiro Disco de Gabriel O Pensador (1993)

Estreia do músico carioca, muito além do Rap, é seu melhor trabalho até hoje

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Já se vão 21 anos desde o lançamento do primeiro álbum de Gabriel, O Pensador. Pode não parecer, mas sua estreia é um dos bons momentos do Rap brasileiro e, certamente, o primeiro grande momento deste estilo na mídia especializada nacional. Mesmo que seja aceitável dizermos que o cantor e compositor carioca não seja exatamente um representante autêntico do Rap no país, as qualidades desse álbum não podem ficar de lado. É o momento em que Gabriel está mais próximo da estética americana, vociferando sobre bases executadas por músicos no estúdio e samplers e várias procedências, combinação que é o resultado da interação entre os produtores Memê e Fábio Fonseca, devidamente sintonizados na missão de fazer um álbum de música Eletrônica, próximo do Hip Hop americano, mas também de olho num acento Pop forte o bastante para tocar nas rádios e aparecer na TV.

A primeira vez que se ouviu falar do Pensador foi quando sua canção Tô Feliz (Matei o Presidente) surgiu nas páginas dos jornais e na programação de uma emissora de rádio carioca. Em pouco tempo a música estava fora da programação e as acusações de censura implícita começaram a pipocar na imprensa. A letra era um ataque frontal e direto ao ex-Presidente Fernando Collor, então réu num processo de impeachment. Era muito mais virulento que qualquer passeata dos Caras Pintadas e seu conteúdo só podia ser amenizado pelo fato de que Gabriel Contino, filho da jornalista Belisa Ribeiro e do médico Miguel Contino, sempre foi um jovem branco originário da classe média-alta carioca, aluno de Comunicação Social na PUC-Rio. Mesmo assim, Gabriel não parecia satisfeito em se inserir nessa divisão geoeconômica e, já aos 16 anos, começou a escrever letras, inspirado tanto pelos grupos de Hip Hop americanos, quanto por luminares do estilo no Brasil (Thaíde, Racionais MC’s), Rock nacional dos anos 1980 e Reggae. Aos poucos, suas rimas foram se inserindo em bases eletrônicas e, em pouco tempo, Tô Feliz (Matei O Presidente) surgiu para os jornais.

A Sony Music comprou seu passe em 1993 e logo ele estava no estúdio com Fonseca e Memê. O primeiro tinha uma folha de serviços no raro terreno do Funk nacional e havia passado por grupos de Rock oitentista de segunda divisão (Brylho, Cinema a Dois), além de produzir discos bem legais como a estreia de Ed Motta (Ed Motta E Conexão Japeri, 1988) e SLA Radical Dance Disco Club (Fernanda Abreu , 1990). Memê era o DJ que fazia a transição das festas para as rádios, já havia apresentado programas em algumas emissoras, incluindo aquela em que Tô Feliz… surgiu. Exímio conhecedor da arte dos samplers, ele foi logo convocado para coproduzir o álbum. Gabriel chegou no estúdio com letras sobre diversos temas importantes para a juventude. Então com 19 anos, o jovem cutucou questões espinhosas. Não satisfeito em atacar o ex-Presidente, ato lembrado na faixa de abertura, Abalando, que é colocada na mesma estante que canções de protesto contra a ditadura militar, a saber, Cálice (Chico Buarque) e Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores (Geraldo Vandré), ambas sampleadas.

Gabriel não perdoa quando fala das mulheres fúteis em Loraburra, cheia de versos como “nada na cabeça, personalidade fraca, tem a feminilidade e a sensualidade de uma vaca” ou “o lugar dessas cadelas era mesmo num puteiro”, algo que parece impossível hoje em dia. Além disso, um discreto sampler de “Mulheres Vulgares” (Racionais MC’s), surgia em meio ao tiroteio verbal. Outro grupo atingido em cheio é a dos playboys cariocas, vitimados por Retrato de Um Playboy, com carinhosas palavras como “se alguma tá na moda então eu faço também, igualzinho a mim eu conheço mais de cem” ou “não tenho cérebro, apenas me enquadro no sistema”. Outra canção que fez bastante sucesso foi 175 Nada Especial, cujo clipe trazia o jogador Ronaldo como trocador do ônibus, além de participações de Martinho da Vila e Neguinho da Beija-Flor. Pensador também fala de inflação, truculência policial, injustiça social, religiões neopentecostais, racismo e critica o descaso das classes mais elevadas em relação aos mais pobres, chamados na época de “descamisados”, termo utilizado pelo ex-Presidente Collor.

Na época a crítica especializada torcia o nariz para Gabriel, sobretudo pela origem abastada dele. As letras que ele escreveu, colocadas sobre as bases de Fonseca e Memê, constituem um material de alta qualidade, cheio de abrangência e com potencial para fornecer um retrato preciso do cotidiano daquele início de década de 1990. Se compararmos com a produção do Rap nacional de hoje, não encontraremos nada tão virulento nos setores próximos do mainstream. Além disso, a produção do disco teve o cuidado de manter seus ouvidos atentos a elementos do Rock e do Pop, com samples que vão de The Cure a Paralamas do Sucesso, dando ao álbum o arejamento necessário. Não é um disco de Rap, é bem mais que isso.

Pensador foi perdendo sua verve com o passar do tempo e, infelizmente, se aproximando do terreno da música mais comercial. Nada do que ele fez em seus outros sete álbuns chega perto desse primeiro conjunto de canções. Muita gente que é fã de Rap hoje em dia talvez se espante com o resultado que ele conseguiu em sua estreia. O disco está há bastante tempo fora de catálogo, mas pode ser encontrado a valores que oscilam entre R$ 30,00 e R$ 45,00.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.