Cadê: O Primeiro Disco de Obina Shok, de 1986

Álbum de estreia do grupo atualmente é uma raridade sendo apenas encontrado em sebos e através de colecionadores

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Quando a Rádio Fluminense FM se estabeleceu no dial carioca como um dos principais canais para bandas novas, uma verdadeira enxurrada de formações de todos os tipos afluiu à emissora com o objetivo de alcançar projeção semelhante à da primeira geração do rock carioca, com Paralamas, Kid Abelha à frente. Havia uma discussão dentro da Flu FM que colocava em questionamento a tal busca pelo novo, que a emissora buscava. Para muitos naquela metade de década de 1980, a novidade estava na música negra e em seus desdobramentos da diáspora africana. Essa onda já estava em praias britânicas desde o início da década, através do movimento Two Tone e de formações adjacentes – e geniais – como The Beat e The Police.

No Brasil a música pop negra só havia sido visitada por Gilberto Gil ainda em 1977. No mesmo ano de 1986, os Paralamas do Sucesso fariam Selvagem?, um disco plural e definidor de novos contornos para a música popular roqueira brasileira. Era interessante buscar novas bandas que fossem capazes de empreender uma mistureba de rock/pop de matriz anglo-americana com batidas oriundas do continente negro, levando em conta que ainda não havia qualquer aceno sobre e mistura desse rock oitentista nacional com samba. As gravadoras empreendiam uma procura pela programação da emissora, de olho no que poderia surgir, até que ouviram “Lambarene”, de um tal de Obina Shok.

Obina era um grupo formado por Jean Pierre Senghor (voz e teclados), Roger Kedy (guitarra e voz), Henrique Hermeto (guitarra e voz), Maurício Lagos (baixo), Winston Lackin (bateria), Sérgio Couto (percussão) e Hélio Franco (percussão). Haviam se encontrado na mesma situação, em Brasíla: eram todos filhos de diplomatas e funcionários de embaixadas. Jean Pierre era senegalês e neto do ex-presidente do Senegal Leopold Senghor, Roger era gabonês e Winston, surinamês. Os outros membros do grupo eram brasileiros. O Obina Shok acrescentava à sua mistura de música africana e pop universal, uma dose generosa de acentos caribenhos e decidiram enviar para a Fluminense uma versão de sua canção Lambarene, enviada em fita demo. A canção chegou aos ouvidos dos diretores de programação, que logo a colocaram em alta rotação. Não demorou para que a banda fosse convidada para a segunda etapa do “caminho para o sucesso”, tocar no Circo Voador. E o Obina logo estava se apresentando na lona carioca com grande presença de público. Em pouco tempo estavam no cast da gravadora RCA Victor.

Seu primeiro disco, homônimo, já contava com a participação especial de Gilberto Gil, Márcio Montarroyos, Paulinho Trumpete e o percussionista Repolho. Vida, que tinha Gal Costa e Gil dividindo os vocais, ganhou as rádios de norte a sul do país. Outro destaque é a anti-apartheid Africaner Brother Bound, que não aparece nas rádios mas agrada bastante a crítica. que elogia o trabalho musical do Obina. Mesmo com o relativo sucesso, a banda perde alguns integrantes, mas ainda traz a presença de Roger e Jean-Pierre. Nara Gil ingressa no grupo, mas a química já não parece ser a mesma. Ainda lançaram um novo disco em 1987, Sallé, que fracassou totalmente e a banda acabou encerrando suas atividades.

Obina Shok nunca pretendeu ser uma grande banda de sucesso, mas era interessante notar como o fechado circuito do rock não era tão restrito assim, a ponto de acolher uma formação multirracial, tocando e cantando músicas em português, francês e inglês, gravando disco e tocando no rádio e programas de TV. Hoje isso parece impossível. O disco foi lançado em CD no início dos anos 2000 pela RCA e está fora de catálogo atualmente. Há exemplares à venda em sites de compras na internet com preços variando entre R$ 50,00 e R$ 150,00.

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ARTISTA: Obina Shok
MARCADORES: Cadê?

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.