Cadê: “Picassos Falsos”, de 1987

Primeiro disco do grupo carioca abriu as portas para o sucesso e hoje é uma raridade, sendo apenas encontrado em sebos e por meio de colecionadores

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A impressão que temos quando pensamos em rock brasileiro dos anos 80 é que todas as bandas que fizeram sucesso nas paradas, venderam disco e apareceram nos programas de auditório, conseguiram tais feitos porque eram bandas “fáceis”. Entendam por “fácil”, aquele tipo de canção com refrão simples, melodia redonda e instrumental amistoso. De fato, a maioria das formações de sucesso naquela década praticava uma variação bem Pop de alguma vertente do Rock Inglês ou Americano que era feito na época. Algumas – bem poucas – fugiram dessas características, não abriam mão de adicionar um certo experimentalismo em sua obra e, mesmo que tenham feito relativo sucesso, pagaram o preço de sua “esquisitice”.

Picassos Falsos se enquadra nessa rara variação de rock oitentista nacional com algo a dizer e questionamentos estéticos embutidos em suas músicas. Não eram conhecidos por facilitar o trabalho do ouvinte. A banda surgiu na Tijuca, Zona Norte do Rio, em 1985. Humberto Effe (vocais), Gustavo Corsi (guitarra), Abílio Azambuja (bateria) e Caíca (baixo) trocaram seu nome inicial – O Verso – após ouvir uma canção de Alvin L, compositor carioca que merece reconhecimento por bons serviços prestados imediatamente, chamada Picassos Falsos. Mais que isso: Alvin gostou do grupo e decidiu produzir uma fita demo do rebatizado grupo. Com Zé Henrique no baixo, substituindo Caíca, o conjunto selecionou três músicas para a fita: Carne e Osso, Quadrinhos e Idade Média. Com o registro nas mãos, a banda enviou a fita para a Rádio Fluminense FM, conhecida por divulgar bandas novas em sua programação, mantendo uma tradição que se iniciara com Paralamas do Sucesso e Kid Abelha, entre outros, nos idos de 1982/83.

Foi com surpresa que os rapazes receberam a notícia de que a Rádio tocaria as três canções e que desejava fazer um especial com a presença da banda no estúdio. Como a Fluminense era conhecida como um verdadeiro celeiro de bandas interessantes, muita gente da indústria musical ficava de olho na programação. Foi escutando a rádio que o jornalista e produtor José Emílio Rondeau conheceu o som do Picassos Falsos. Rondeau, além de escrever para revistas como a Bizz, produzira o primeiro disco da Legião Urbana, dois anos antes. Em pouco tempo, a banda assinava contrato com o selo Plug, selo da RCA, dedicado ao rock. Enquanto o primeiro trabalho não era lançado, as três canções da demo de Picassos Falsos atingiam grande execução na Fluminense, criando grande expectativa pelo lançamento do disco.

O primeiro disco, Picassos Falsos, foi lançado no mesmo ano de 1987. As três canções da demo voltaram com força total e atingiram as rádios não tão alternativas. Quadrinhos e Carne e Osso assumiram o papel de hits do LP. A primeira entrou para a trilha sonora do programa Armação Ilimitada, da Rede Globo e a segunda, que incluía uma citação do samba “Se você Jurar”, de Ismael Silva, frequentou os programas do Chacrinha e Globo de Ouro com letras como “bamba balança, balança suas rédeas, bebem do meu leite e do suor das minhas tetas”. As letras de Humberto Effe, cheias de passagens surrealistas, aliadas ao instrumental pós-pós punk da banda eram responsáveis pela grande diferença de Picassos Falsos em relação ao resto da produção da época. A citação de Ismael Silva, compositor niteroiense, fundador da primeira escola de samba do Rio de Janeiro, em 1928, a Deixa Falar. Essas referências nacionais no som da banda seriam mais evidentes no disco seguinte, Supercarioca, gravado em 1988.

O segundo disco da banda, já com a presença de Luiz Henrique Romanholli no baixo, marca, pelo menos cinco anos antes, a fusão de ritmos nacionais, no caso, o samba. O trabalho alcançou o status de cult e, dois anos depois, em 1990, eles encerraram suas atividades. Humberto Effe dedicou-se à carreira solo, chegando a lançar um disco em 1995 pela Virgin, com o sucesso relativo de O Preto e o Branco, canção famosa na voz de Bezerra da Silva. Gustavo Corsi acompanhou vários artistas como guitarrista profissional, enquanto Romanholli se dedicou ao jornalismo e Abílio formou-se em filosofia após abrir uma loja de instrumentos e um estúdio. Gravariam novo disco em 2004, Novo Mundo, no qual deram sequência à estética de Supercarioca. Em novembro daquele ano, participaram do Tim Festival, tocando no mesmo dia que PJ Harvey e Primal Scream.

Mesmo que Supercarioca tenha alcançado a condição de cult, o primeiro disco abriu os caminhos para a banda e a tornou conhecida. Em termos de lançamento em CD, as canções do disco foram incluídas na coletânea Hot 20, da Sony/BMG, sem encarte, letras ou informações mais precisas, já devidamente excluída do catálogo da gravadora. Há um exemplar à venda no Mercado Livre por módicos R$845,50. Sim, isso mesmo que você leu.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.