Cadê: “Tavito”, de 1979

Disco do cantor é quase sempre esquecido, sendo hoje em dia uma raridade encontrada apenas em sebos e por meio de colecionadores

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Leitor/a, vou contar uma história singela e pessoal. Eu tive a sorte de passar boa parte da minha infância numa cidade pequena da Serra do Mar que você deve conhecer, pelo menos de nome: Petrópolis. Era uma média de quatro meses por ano passados em Correias, um dos distritos de Petrópolis. Meus avós tinham uma bela casa afastada da cidade, para a qual rumávamos nas férias de julho e do fim do ano. Uma vez lá, naquele clima maravilhoso em que faz calor apenas sob o sol, comecei a ter as primeiras noções de música, que chegava a meus ouvidos através do rádio AM/FM da minha mãe, que sintonizava emissoras como a Mundial AM ou a Tamoio FM. Pouco tempo depois viriam as primeiras explorações no acervo de discos da família, formado pelos baianos, discos de trilhas sonoras de novela e a coleção completa de Roberto Carlos, pertencente ao meu avô. Naquela época, 1978/79/80, eu, com dez anos, já gostava de Beto Guedes, Djavan, Boca Livre e Tavito, todos com canções na programação dessas emissoras de rádio.

Tavito é o apelido de Luís Otávio de Melo, violonista autodidata, nascido em Belo Horizonte em 1948. Começou a tocar desde cedo, aos 13 anos, explorando as possibilidades do violão que ganhara do pai. Aos 22 anos, ele já empunhava as guitarras do Som Imaginário, mitológica banda mineira que foi criada para acompanhar os shows de Milton Nascimento. Naquela época já existia o famoso Clube da Esquina, na verdade, uma entidade musical-social, formada por vários jovens cantores, músicos e compositores mineiros, que se conheciam, colaboravam e gravavam juntos. Com o sucesso de Milton a partir do fim dos anos 60, o Clube veio surgindo como o grande elemento aglutinador daquela jovem galera. Tavito fazia parte desse pessoal, mas era um integrante discreto das fileiras. Participou das gravações do próprio disco Clube da Esquina, em 1972 e seguiu com o Som Imaginário até 1974, quando foi lançado o disco Milagre Dos Peixes Ao Vivo. Aos poucos a carreira na publicidade foi tomando ares mais sérios e, a exemplo de seu grande amigo, Zé Rodrix, com quem compôs a clássica Casa no Campo, Tavito tornou-se um produtor e compositor de jingles, mas nunca perdeu de vista seu “lado B”.

Em 1979, com o crescimento do chamado “rock rural” ao longo dos últimos anos, Tavito teve a chance de iniciar sua carreira solo. Seu primeiro disco, homônimo, é uma preciosidade. A exemplo da parte mais elétrica e roqueira do Clube da Esquina, Tavito é totalmente influenciado pelos Beatles e por ecos de progressivo. O grande sucesso Rua Ramalhete, seu maior hit em todos os tempos, entrou de sola na programação das rádios e foi direto para a trilha sonora da novela Três Marias. Com letra cinematográfica, cheia de reminiscências da juventude em Belo Horizonte, Rua Ramalhete vai revisitando namoros, tardes, colégios, tudo com muita naturalidade, com especial destaque para a admiração pelos Fab Four, que são mencionados textualmente na letra, além da citação singela de Here Comes The Sun, em meio à melodia da canção. O site do cantor e compositor (www.tavito.com.br) explica a rua com mais habilidade:

“A Rua Ramalhete era uma ruazinha de Belo Horizonte composta de um quarteirão só. Começava na Rua do Ouro, no alto da Serra, bairro de classe média onde a família de Tavito residia, e terminava num córrego cristalino que corria onde hoje é a extensão da Rua Estêvão Pinto. Havia o costume entre a meninada que estudava no Colégio Estadual (Sucursal Serra), de se sair das aulas à tardinha e varejar pela Rua Ramalhete. Explica-se; a rua era povoada por moças, lindas todas, naquela idade em que se adolesce – e o coração dos moços adoece. Não havia trânsito de automóveis na Rua Ramalhete. Aos domingos, as meninas estendiam a rede de vôlei de lado a lado, jogava-se o dia inteiro, e os carros que se danassem. As noites sempre eram sonorizadas por rodas de violão entremeadas de castos namoricos furtivos. Aos sábados, festinhas onde se dançava coladinho ao som da boa música da época, Beatles e bossa-nova, Luiz Eça e Herman’s Hermits. Isso tudo ficava a poucos quarteirões do vetusto Colégio Sacré Coeur de Marie, severo que só, com suas freiras de cenho franzido e hábitos negros como a noite negra. Esse colégio despejava na rua, duas vezes por dia, magotes de moças ensolaradas e sonhadoras, com suas saias de madras enroladas na cintura para que os moços pudessem ver seu joelhos (quem sabe a primeira sugestão das coxas), tudo dentro dos limites do combinado como “linha da decência”. Esse trajeto Sacré Coeur / Rua Ramalhete constituía o dia-a-dia de Tavito e sua turminha de garotos normais, na fase mais doce da vida, tão doce que às vezes não nos apercebemos dela – a não ser anos mais tarde.

Outro belo exemplo da admiração pelos rapazes de Liverpool está na sensacional Naqueles Tempos, composta por Mariozinho Rocha e Renato Corrêa, em que Tavito cita o arranjo de cordas de The Long And Winding Road e o refrão de Hey Jude. Além delas, Você Me Acende (de Erasmo Carlos), Cowboy e uma bela versão pessoal para Casa No Campo, são momentos dignos de nota. Com participação de gente como Marcio Montarroyos, Sérgio Dias, além dos amigos do Clube da Esquina aqui e ali, o primeiro disco de Tavito é bastante difícil de achar. Foi relançando em CD em 1997 pela pequena Savalla Records e está fora de catálogo desde então. É possível encontrá-lo à venda em sites da internet pelo valor de R$350,00.

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ARTISTA: Tavito
MARCADORES: Cadê

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.