Cadê: Tim Maia – Tim Maia (1986)

Disco autointitulado do meio dos anos 80 é um dos mais raros registros do cantor a ser encontrado

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O meio da década de 1980 foi um tempo interessante para Tim Maia. Estabilizado num nicho comercial do qual não gostava, o “romântico-brega”, Tim abria mão de seu passado Funk recente, deixando de lado um pouco do espírito incendiário de seus álbuns setentistas, para abraçar um posto no mesmo reino em que um velho colega seu de tempos de adolescência tijucana, Roberto Carlos, era o próprio Rei. Mesmo que não gostasse de ser chamado de “cantor brega”, seus discos eram cada vez mais dominados por baladas e elas desempenhavam ótimo papel nas paradas de sucesso. Desse jeito, por mais que os fãs pudessem sentir falta de alguma canção mais dançante, não lhes restava outra opção a não ser aceitar o momento. Tim Maia nos anos 80 é sinônimo de romantismo e ponto final.

Seu disco de 1986 seguiu o mesmo formato, ampliando ainda mais essa tendência sentimental. O trabalho do ano anterior já revelara dois grandes sucessos de execução neste terreno romântico: Leva e Pede A Ela, numa tradição que se mantinha também nos hits Sufocante, faixa título do álbum de 1984 e Me Dê Motivo, clássico de amor traído, do sacudido Descobridor Dos Sete Mares, de 1983. Agora, no mais recente trabalho, Telefone era a representante desta tendência. Com vocais de Rosana e sussurros de Tim, a canção era o mais próximo que ele poderia chegar dos clássicos moteleiros de Barry White. O predomínio das baladas levava os arranjos para o terreno musical da época, criticado pelos especialistas de então, mas muito voltado para o padrão americano de Pop Music vigente, carregado nos sintetizadores e nas sonoridades mais plásticas que, se não eram “orgânicas”, atendiam a uma necessidade artística de atualizar a música popular feita no país. A verdade é que Tim contava – assim como vários outros artistas na época – com a presença de Lincoln Olivetti entre seus colaboradores mais próximos. Seus arranjos e utilizações da parafernália tecladeira conferiam uma moldura sonora bastante respeitável e que caíam como uma luva nas vocalizações Maia.

Apesar do clima “mela cueca” presente pela maioria das canções do disco, não há como negar o sucesso retumbante que Do Leme Ao Pontal fez naquele ano distante. Gravada originalmente em 1981, como lado B do compacto que trazia Amiga, canção que antecipava o lançamento de seu disco, Nuvens, Do Leme… tocou bastante, mas Tim decidiu regravá-la para o novo álbum, recolocando-a no mapa das paradas de sucesso. Ainda que o registro original de 1981 seja bastante superior ao de 1986, a música serviu como uma espécie de bastião dançante em meio às canções mais lentas. Além dela, outra regravação também surgia, dessa vez por conta dos problemas advindos dos conflitos envolvendo a política do apartheid na África do Sul. Tim deciu repaginar Brother, Father, Sister And Mother, gravada em seu álbum homônimo de 1976, lançado logo após o Período Racional. O resultado também ficou aquém do original, mas ambas as canções serviram para temperar o repertório recente, principalmente porque as duas eram de autoria do próprio Tim, algo raro nesta fase de sua carreira. Além delas, Vê Se Decide, versão de ma canção de James Brown, também surgia também como reforço no lado mais dançante do álbum.

Mesmo pisando fundo no romantismo e chamado de “brega”, Tim desfrutava do reconhecimento de fãs jovens. Os Paralamas do Sucesso havia gravado uma versão simpática de Você, canção clássica do início de sua carreira, com muito sucesso. Ao contrário de implicar com alguma suposta deficiência de arranjo ou execução que saltasse aos seus exigentes ouvidos, Tim agradecia ao trio, pedindo que eles “gravassem mais canções dele, que ele adorava tudo aquilo”. Além de Paralamas, Plebe Rude gravara uma versão ao vivo de seu hit Proteção para uma emissora de rádio carioca e enxertara uma pequena improvisação instrumental, na qual cabiam os versos tomo guaraná, suco de caju, goiabada para a sobremesa, parte do roteiro de piquenique/passeio pelas praias cariocas que é Do Leme Ao Pontal. Sendo assim, o lugar em que Tim sempre esteve presente, encantando plateias de várias procedências, foi o Circo Voador, templo das bandas de Rock carioca da época.

Mesmo não sendo um de seus trabalhos mais inspirados e sinalizando para uma acomodação estética, o disco de 1986 desfruta da condição de “objeto de colecionador”, estando fora de catálogo desde 1995, quando foi lançado em CD pela gravadora Continental. É possível encontrar exemplares em sites da internet por valores que oscilam entre R$ 350,00 e R$ 400,00.

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ARTISTA: Tim Maia
MARCADORES: Cadê?

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.