Cadê “Vida Difícil”, de Léo Jaime?

Nesta nova coluna, redescubra clássicos brasileiros difíceis de encontrar nos catálogos de discos

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A idéia nesta coluna semanal é cuidar de uma pequena memória musical, de alcance não tão longo. Discos lançados no Brasil são coisas muito grandes para esquecer e devem estar vivos na nossa lembrança ou, quem sabe, na das outras pessoas. Portanto, essa é nossa pequena contribuição: falar de álbuns nacionais que sumiram na poeira, que nunca saíram em CD ou que saíram e nunca mais foram reeditados. Num tempo em que o próprio formato de disco – com dez, doze canções – é colocado em dúvida pela modernidade, vamos meter a mão na massa e resgatar essas pequenas pérolas toda semana.

Léo Jaime – Vida Difícil (1986)

CBS/EPIC

Em 1986 o Pop/Rock nacional reinava soberano nas estações de rádio e emissoras de TV brasileiras. Era o som da juventude urbana, atingia várias classes sociais e contava com uma grande constelação de artistas. Grupos mais engajados como Ira! e Titãs conviviam com a carismática Legião Urbana, o recentemente consciente Paralamas do Sucesso, o hilário João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, o excêntrico Engenheiros do Hawaii e o bluesy Barão Vermelho, entre uma grande quantidade de formações menores e one hit wonders. Havia uma ala razoável de cantores/compositores, encabeçada por Lulu Santos, que contava com Lobão, Ritchie, Nico Rezende e Léo Jaime.

Nascido em Goiânia e carioca honorário desde o fim da década de 1970, Léo fazia parte da galera que formou as primeiras bandas na década de 1980. Enquanto a Blitz dava a largada, ele foi cogitado para assumir os vocais do Barão Vermelho e indicou um amigo, Cazuza, que seria efetivado pouco depois. Ao mesmo tempo, sob a alcunha de Léo Guanabara, ele integrou as fileiras dos Miquinhos Amestrados, participando antológico disco de Eduardo Dusek, Cantando no Banheiro, lançado em 1982. O sucesso de sua composição, Rock da Cachorra, credenciou Léo para o contrato com a CBS (atual Sony) e, em 1984, Phodas-C era lançado. Ele deixou os Miquinhos e emplacou dois sucessos, É, Eu Sei e Sonia, apesar da censura proibir sua execução em rádio. Era uma versão cheia de sacanagem adolescente (sua grande especialidade) para Sunny, hit sessentista de Chris Montez.

Em 1985, Léo soltou seu segundo disco, Sessão da Tarde, um pequeno clássico do Rock nacional. Puxado pelo sucesso de As Sete Vampiras, o disco mostrava uma bela combinação de Rock oitentista nacional com pequenos toques de Doo-Wop () e baladas bem feitas, caso de A Vida Não Presta. Além delas, Léo também trazia um hit instantâneo (O Pobre) e uma colaboração contagiante com o Kid Abelha, A Fórmula do Amor. Sessão da Tarde deu a Léo a condição de aspirante a popstar, algo que dependeria totalmente do próximo trabalho, que cumpriu sua função.

Vida Difícil, lançado em 1986 pela CBS/Epic, chegou credenciado por outro grande hit, Nada Mudou, com uma letra séria e cheia de crítica social, além do belo versinho “se ela quer o sétimo céu, vai ter que subir degrau por degrau”, mostrando uma evolução no escracho adolescente que tanto pairava sobre a obra dele. Com Nada Mudou em grande rotação nas rádios, Léo aparecia todo sábado no Chacrinha, namorava a modelo Monique Evans, além de continuar cravando hits como Amor (cujo clipe exibido no Fantástico trazia nosso herói contracenando com a modelo Luíza Brunet), uma versão de Mensagem de Amor, dos Paralamas do Sucesso, uma outra releitura, dessa vez para A Lua E Eu, de Cassiano, décadas antes de alguém achar música negra brasileira algo legal. Outras canções, que não fizeram sucesso, também mantiveram a qualidade do álbum, com destaque para o clima jazzy da faixa título e a esbórnia que é Cobra Venenosa, com participação dos Miquinhos, com letra de triplo sentido, fundindo carnaval e Rock em bons termos. O disco trazia uma banda afiadíssima, com destaque para Léo Gandelman no saxofone, conferindo uma sonoridade Pop perfeita.

Vida Difícil nunca foi lançado em CD. Algumas de suas músicas saíram remixadas em coletâneas, mas nunca foram lançadas em sua totalidade. Há rumores de grande desentendimento entre artista e gravadora em termos de direitos sobre os fonogramas, o que teria causado um embargo que vitimou o mais importante: a obra. Este era um disco maduro, cheio de boas canções e capaz de dar a Léo Jaime um status muito mais representativo. Ele ainda faria sucesso com trabalhos seguintes, Direto do Meu Coração Pro Seu (1988), com os hits Gatinha Manhosa (cover de Erasmo Carlos) e Conquistador Barato, tema da novela global Bambolê. Em 1989 viria Avenida das Desilusões e, no ano seguinte, Sexo, Drops & Rock’n’Roll, com o hit Eu Vou Comer A Madonna. Ainda que nenhum destes discos arranhasse a excelência de Vida Difícil, rivalizado apenas pela farra adolescente de Sessão da Tarde, suas músicas também ficaram embargadas e não há como ouvir essa fase da produção de Léo Jaime, a menos que seja nos vinis da época ou com o sorriso da sorte nos programas de compartilhamento de arquivos ou blogs especializados. Uma pena.

Essa coluna semanal dará sempre uma contribuição singela para que esses álbuns não sejam esquecidos. Nunca.

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ARTISTA: Léo Jaime
MARCADORES: Cadê?

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.