Cadê: “Viva”, O Disco Ao Vivo do Camisa de Vênus?

Ganhando uma nova edição em 1992, álbum da banda é uma raridade atualmente, sendo apenas encontrado em sebos e afins

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Uma olhadela nas paradas de sucesso dos anos 80, em termos de rock/pop nacional, nos indicará que este era um estilo musical de escopo bastante restrito. A princípio havia uma profusão de artistas do Rio de Janeiro. A partir do Rock In Rio e da constatação da viabilidade comercial daquela “onda”, São Paulo entrou no mapa, mesmo que já contasse com uma cena fortíssima desde o início da década. Essas duas cidades, que eram conhecidas como “o eixo”, eram o objetivo final das bandas que vinham das outras cidades do país. Capital Inicial e Legião Urbana, por exemplo, vieram de Brasília para estas cidades. Os Engenheiros do Hawai, mantiveram-se na sua Porto Alegre natal, como forma de acentuar uma identidade estética nacional que foi bem sucedida até certo tempo. Além dessa lógica estava o Camisa de Vênus, originário de Salvador, Bahia.

A lógica do sucesso musical brasileiro não comportava uma banda de rock baiana, uma vez que o estado era visto como uma fábrica de ritmos para o verão, para o carnaval, ou, no máximo, a terra natal de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Pessoas com mente arejadíssima eram capazes de lembrar que Raul Seixas também era nativo da “boa terra”, mas, em geral, uma formação como o Camisa era o proverbial “ponto fora da curva”. A banda foi formada em 1980, através do encontro de Marcelo Nova, que trabalhava na Rádio Aratu, e Robério Santana, que era funcionário da TV Aratu. Decidiram, após conversarem sobre bandas queridas e afinidades musicais em comum, montar um grupo, no qual Nova seria vocalista e Robério assumiria o baixo. Logo viriam Karl Franz Hummel (guitarra base), Gustavo Mullem (bateria) e Eugênio Soares (guitarra solo). As influências do Camisa iam do punk e pós-punk ingleses, passando por rock americano dos anos 50 e Raul Seixas, mas não faziam muita questão de observar critérios harmônicos ou polir a agressividade das letras. Ao verem que os amigos diziam que o som da banda era “incômodo”, Nova decidiu pensar em algo que incomodasse bastante e concluiu que nada poderia ser mais desagradável que usar preservativo, daí veio “Camisa de Vênus”, uma denominação antiga, mas que voltava à ordem do dia naqueles tempos iniciais de AIDS.

Eugênio Soares sairia do Camisa após poucas apresentações, sendo substituído logo por Mullem, que largara a bateria para assumir o posto de guitarra solo, chamando Aldo Machado para a guitarra base. Essa foi a formação responsável pelo grande sucesso que a banda alcançou até 1987. Assinaram contrato com a RGE após rejeitarem certas sugestões estéticas por parte da Som Livre, anteriormente interessada em contratá-los. O primeiro disco veio em 1983 e já trazia o sucesso local Bete Morreu. Dois anos depois viria Batalhões de Estranhos, disco que trouxe o primeiro grande sucesso da banda em nível nacional, Eu Não Matei Joana D’Arc e uma série de ofertas para shows em todo o país.

O vigor da banda chamou a atenção da Warner e o Camisa novamente se via numa celeuma entre gravadoras. Como deviam um disco para a RGE, resolveram gravar um disco ao vivo e escolheram o dia 08 de março de 1986 para registrar uma apresentação a ser feita no Caiçara Music Hall, em Santos. As dez músicas que entraram no repertório do disco foram escolhidas pela banda e pelo produtor Pena Schmidt e trazia algo muito ousado em termos de proposta: cinco dessas canções eram inéditas, sendo elas Rotina, Solução Final, Homem Forte, a inenarrável versão de My Way, com o singelo verso “eu me fodi, mas resisti” e a sensacional Silvia, que vinha antecedida pelo discurso de Marcelo Nova em “homenagem” ao Dia Internacional da Mulher, no qual diz que o Camisa de Vênus é “a única banda heterossexual do Brasil”. Outro detalhe de Viva é sua apreensão pela Censura, que proibiu a execução de oito de suas dez faixas devido ao uso de “linguagem inapropriada”. O disco foi recolhido das lojas já na marca das 40 mil cópias vendidas mas chegaria às 180 mil cópias, devidamente de volta às lojas após algum tempo, sendo o segundo álbum ao vivo mais vendido do rock nacional dos anos 80, perdendo apenas para Rádio Pirata Ao Vivo, do RPM.

O Camisa entraria em estúdio, ainda em 1986, para gravar um novo disco de inéditas, o primeiro pela Warner, que se chamaria Correndo O Risco, também produzido por Pena Schmidt, com mais três hits nacionais a caminho: Simca Chambord, Deus Me Dê Grana e Só O Fim. Ainda soltariam um disco duplo (Duplo Sentido) até que Marcelo Nova decidiu sair da banda e seguir carreira solo. O restante do Camisa também decide encerrar suas atividades mas a banda retornaria com e sem Marcelo Nova várias vezes depois. Nunca chegaram a ter tanto sucesso, visibilidade e mitologia como no período entre 1985 e 1986, sendo Viva o ápice desse tempo.

Viva só foi lançado em CD em 1992 e, apesar de contar faixas bônus, vinha sem o discurso de Marcelo Nova antes de Silvia. Depois disso, nunca mais foi editado.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.